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domingo, fevereiro 15, 2004

Há tanto tempo que não entro na minha janela-blog... E tenho tanto que dizer! Tantos sentires, pensares, fazeres. Mas, sobretudo, agora tenho a NEVE!!
NEVE
Eu sei que os românticos, há quase duzentos anos, afirmavam a relação do nosso estado d’alma com a natureza. Depois do locus horrendus do Bocage, da alma húmida de Garrett, corro o risco de ser acusada de pouco (nada) original mas, mesmo assim, apetece-me esta semana, porventura com o olhar ainda cheio da paz que sempre me dá a montanha cheia de neve, falar dos meus sentires-natureza. A neve é, para mim, um espaço mágico. Ali tudo se transforma, o frio pinta de vermelho a ponta do nariz, as maçãs do rosto amadurecem, as cores dos blusões, garridas-intensas, fazem-me parecer outra pessoa, outro eu. Na solidão silenciosa da montanha, olhando a infinitude de branco, vendo ao longe, muito longe, sinais de uma vida que não conheço, aproveito para me encontrar mais comigo, para imitar um pouco o Sá Carneiro e me confrontar com o outro-eu que, vezes demais..., está mesmo na ponta da ponte de tédio que me liga ao mundo. Ali, como num passe de mágica, tudo me parece possível, perfeito e, sobretudo, facilitador de instantâneos de felicidade. No branco não vejo a hipocrisia humana. Nunca me lembro que há quem exista com o objectivo exclusivo de chatear o próximo, de prejudicar a humanidade. Esqueço que vivo num país onde a Justiça não funciona, a Saúde está moribunda e a Educação é pura ficção. Ali, acredito que Portugal vai mudar, que um dia (breve) vou voltar a ter orgulho de ser portuguesa e, por isso, sou até capaz de achar graça quando me perguntam, numa língua estrangeira, se Portugal ainda existe...
Também na neve, quente nos interiores confortáveis que me acolhem, vejo a ternura acontecer e a cumplicidade tecer-se. Imagino-me com aquela companhia, o olhar brincalhão e desafiador que pede um beijo, oferece um carinho, exige a ternura. Vejo a solidão transformar-se, o sonho trazer a realidade desejada e o amor, de verdade e imenso, surgir em fazeres inconfessáveis. Ali tudo é fantástico: - As vozes chegam cantadas em diferentes línguas, os risos são cristalinos, as crianças voam perante o meu olhar fascinado.
Eu deixo-me levar, sinto-me presa nas teias de um mundo único e não tento libertar-me. Saio cedo do hotel, levo ainda o paladar dos churros comidos entre pistas escolhidas em grupo: - Vermelhas, azuis, verdes, pretas também. Finjo o medo que não tenho, sento-
-me nas cadeiras que me levam acima do mundo e, para aquecer..., brinco e rio de novo crente na plenitude de alguns momentos. Depois, de pés no chão, a montanha desafia e a descida acontece, ziguezagueada, com o frio no rosto, o calor da emoção na alma, os sentires aos pulos. De repente sinto-me outra vez criança, menina nos baloiços, alto, mais alto, vou tocar as nuvens. E o braço partido... Agora não se parte o braço, não é preciso dar balanço, a neve deixa-me ir, depressa, mais depressa, desafiando o abismo, parecendo provocar a vida. Há o eu juízo que recomenda calma, e o eu loucura que desafia os limites. E vence a ousadia, a intensidade, a vertigem da velocidade. Se pudesse fazer assim na vida? Acelerar nas descidas mais íngremes, ignorar os abismos, recuperar o equilíbrio e parar, tranquila e quase-feliz, a observar a imensidão de pureza? Mas o tempo voa, a tarde cortada pela sandwich rápida está a acabar e é preciso voltar ao hotel, ao quarto quente, ao banho onde o cansaço deixa escancaradas as portas dos sentires e dos sonhos. Oiço, longe, música em castelhano. Não percebo o que diz o homem que canta, nem estou nada interessada nisso, mas deixo-me embalar pela voz que vem do frio e, no entanto, transborda de calor intenso. Agora a hora é de sonho só. Sonho-tão-sonho que não há como contá-lo. Chegam de novo os românticos, Garrett fala-me do verde moço e eu conto-lhe do branco-virgem. Os dois, na cumplicidade da solidão imersa em espuma quente, falamos dos homens de sempre, dos que não sonham. Mas, porque há a montanha, a neve, a fuga da realidade, falamos também de sonhos por cumprir. Cumpríveis...para variar. Garrett troça da minha fuga mascarada sob as cores de fatos de neve. Eu troço dele também, sem vergonha, por ter cedido aos bens materiais... Depois, fazemos as pazes concordando que, para que a felicidade aconteça, temos mesmo de estar atentos aos verde-moços, às neves-virgens...

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