sábado, janeiro 10, 2009
A porta do forno caiu, a mania das limpezas…, e o forno, obviamente, deixou de funcionar. Confesso que eu, que nem sequer sou muito de ansiedades com os electrodomésticos, entrei em desespero. Tenta que tenta, encaixa e desencaixa, cuidados mil para não quebrar o vidro da porta solta, quando dei por mim tinha o fogão inteiro desmontado e sem funcionar. Recorri a quem sabe, chamei os técnicos e, depois de um assustador isto está muito complicado, seguido de um se calhar vamos ter de levar fogão, e de mil pedidos alegando a crise, está caro demais comer nos restaurantes todos os dias, o técnico lá recompôs o meu fogão que ficou a trabalhar perfeitamente, porta de forno incluída. Ora, teria acabado a minha aventura doméstica, sem motivo sequer para texto, se não tivesse acontecido que, nestas andanças de monta desmonta, se tivesse perdido o pirolito que cobre o isqueiro que o fogão tem incorporado… Quando dei pela falta do dito pirolito, muito desconsolada, lamentei-me a quem encontrei. Para as pessoas da casa o pirolito desaparecido foi motivo de muita brincadeira e gargalhada, valeria a pena um desgosto maternal tão grande só por causa de um pirolito?! Para os amigos, a solução era fácil, podia sempre acender o fogão com o tradicional fósforo. Mas eu não achei piada e andei mesmo muito chateada por causa do pirolito! E tenho consciência que a minha tristeza era justificada: - Se o fogão tem isqueiro, não é para se acender com fósforo; se o pirolito tapava o isqueiro, é porque ficava mais bonito assim! Além disso, e mesmo com toda a gente a rir-se do desaparecimento do pirolito, eu gostava do pirolitinho no fogão. Nem sequer tinha nada a ver, como um amigo sugeriu, com saudades dos tempos em que ia beber pirolitos e comer rebuçados de açúcar ao Salão Frio, tenho a certeza. Tem apenas, e explico, a ver com o facto de eu achar que a vida se cumpre no fazer de pequenas coisas e não em grandes tiradas ou momentos.
Viver é valorizar, ou não, as pequenas coisas de cada dia, os momentos rotineiros, os bons-dias dados, e não, apenas, lembrar e eternizar os grandes momentos. Tenho a mania, que adquiri com a experiência frequentemente dolorosa, que são os momentos vulgares, as pequenas vivências, que dão sentido à existência e consistência às essências. Nós, os humanos, guardamos imagens dos grandes momentos, fotografias das ocasiões especiais, pedaços de flores de momentos marcantes. Mas, de facto, esses momentos são pontuais na nossa existência e por isso são tão exclusivos, merecem tanto destaque. Não são eles que nos definem, não são eles que resumem o sentido da nossa existência, se é que há algum sentido, não são eles que traduzem, realmente, a nossa essência. Tal como o pirolito do meu fogão, facilmente substituído por um fósforo como alvitrou o Miguel, há atitudes diárias que, ainda que substituíveis por outras de igual resultado, deveriam merecer uma atenção especial. São os pequenos nadas, como os bons-dias olhos nos olhos, o respeitar a fila do supermercado, o reparar na flor que acabou de desabrochar, o ter tempo para tomar um café conversando sobre as possibilidades – têm de existir! – de nos libertarmos desta crise anunciada e duradoura. Para um mundo melhor, e para mim melhor só se mais humano, é preciso que sejamos capazes de dar valor às pequeninas coisas como ao telefonema para um amigo que não vemos há muito, como à conversa simples daqueles com quem trabalhamos ou simplesmente ou com quem convivemos. As pequenas coisas, os pirolitos da vida, merecem, creio, a nossa atenção especial porque, se continuarmos, apenas e sempre, preocupados com os momentos importantes, com as datas e os factos de destaque, quando olharmos para trás, e um dia todos olhamos para trás, veremos uma existência de anos resumida a meia dúzia de dias, tristes e/ou alegres.
O pirolito do meu fogão, felizmente!, apareceu três ou quatro dias mais tarde, debaixo do armário da cozinha. Os pirolitos da minha vida é que insistem em se sumir, deixando-se substituir por rápidos queimar de fósforos…
Viver é valorizar, ou não, as pequenas coisas de cada dia, os momentos rotineiros, os bons-dias dados, e não, apenas, lembrar e eternizar os grandes momentos. Tenho a mania, que adquiri com a experiência frequentemente dolorosa, que são os momentos vulgares, as pequenas vivências, que dão sentido à existência e consistência às essências. Nós, os humanos, guardamos imagens dos grandes momentos, fotografias das ocasiões especiais, pedaços de flores de momentos marcantes. Mas, de facto, esses momentos são pontuais na nossa existência e por isso são tão exclusivos, merecem tanto destaque. Não são eles que nos definem, não são eles que resumem o sentido da nossa existência, se é que há algum sentido, não são eles que traduzem, realmente, a nossa essência. Tal como o pirolito do meu fogão, facilmente substituído por um fósforo como alvitrou o Miguel, há atitudes diárias que, ainda que substituíveis por outras de igual resultado, deveriam merecer uma atenção especial. São os pequenos nadas, como os bons-dias olhos nos olhos, o respeitar a fila do supermercado, o reparar na flor que acabou de desabrochar, o ter tempo para tomar um café conversando sobre as possibilidades – têm de existir! – de nos libertarmos desta crise anunciada e duradoura. Para um mundo melhor, e para mim melhor só se mais humano, é preciso que sejamos capazes de dar valor às pequeninas coisas como ao telefonema para um amigo que não vemos há muito, como à conversa simples daqueles com quem trabalhamos ou simplesmente ou com quem convivemos. As pequenas coisas, os pirolitos da vida, merecem, creio, a nossa atenção especial porque, se continuarmos, apenas e sempre, preocupados com os momentos importantes, com as datas e os factos de destaque, quando olharmos para trás, e um dia todos olhamos para trás, veremos uma existência de anos resumida a meia dúzia de dias, tristes e/ou alegres.
O pirolito do meu fogão, felizmente!, apareceu três ou quatro dias mais tarde, debaixo do armário da cozinha. Os pirolitos da minha vida é que insistem em se sumir, deixando-se substituir por rápidos queimar de fósforos…

A minha cidade, o meu quintal, a minha Serra, tudo acordou diferente - LINDO - vestido por um imenso manto de neve. O Tango e o Buda, intrigados, bem ladraram aos flocos brancos que caíam do céu, mas estes não lhes ligaram nenhuma... Eu andei de balde de água a limpar o vidro do carro, desci a serra com mil cautelas, e reparei na beleza intensa que cobria a minha cidade. De repente, parecia, o céu tinha vontade de purificar tudo e, por isso?, mandava o branco imaculado. Ou, se calhar, o céu queria apenas lembrar-nos que é possível melhorar a existência. Será?
terça-feira, janeiro 06, 2009
No lugar da minha escola está agora um buraco fundo. É um buraco mesmo, com as margens feitas de olhares magoados-revoltados-cansados-desiludidos-invejosos-suspeitosos-estupidificados e um interior completamente oco de sentido.
No lugar da minha escola já não há pessoas a falar de saberes, a partilhar momentos, a construir futuros e a vencer impossíveis.
No lugar da minha escola há gente chantageada, com medo, que segura folhas e folhas de grelhas e esquemas, plataformas, emails e computadores portáteis, sempre nas bordinhas do buraco, tentando não escorregar definitivamente para a profundidade oca e negra que espreita assustadoramente. No lugar da minha escola os meninos já não riem nem brincam, gastam o tempo a fazer médias aritméticas, a equacionar pesos de trabalhos, a fiscalizar os resultados alheios.
No lugar da minha escola, o vazio é monstruoso.
No lugar da minha alma, daquela alma ardente de Mulher e Professora, mora agora o Senhor Medo. Para longe, muito longe, fugiu o sonho e a paixão, emigraram os sentires. No lugar da minha alma moram mal instalados os objectivos mensuráveis, as estatísticas sobre as avaliações dos alunos, as horas das reuniões, o olhar vazio de muitos colegas. No lugar da minha alma já não há sorrisos e brincadeiras, desafios e provocações...
No lugar da minha vida mora, apenas, a EXISTÊNCIA.
É tão minúscula, coitada...
domingo, janeiro 04, 2009
Não bateu com a porta, não disse palavrões, não disse adeus sequer. Partiu apenas. Sem querer saber das promessas feitas, indiferente às expectativas criadas, virando costas às mágoas instaladas, partiu. Foi embora com a indiferença de saber a essência não cumprida, deixando outro a entrar, prenhe de promessas já ocas, feito de vazios sem sentido. Vi-o partir, eu que sou especialista em partidas e perdas, e fechei a porta com as voltas possíveis para que ele não voltasse. Tranquei-me por dentro e não tenho coragem de, já amanhã, ter de abrir a porta para entrar no novo tempo. Novo-velho. Oco ainda.