terça-feira, setembro 30, 2008
As minhas filhas chamavam-lhe o avô Manel. Talvez fazendo eco dos primos, esses netos de verdade, ou talvez porque aquela figura lhes aparecia como um avô também. Gostavam dele, muito, em pequeninas e depois, mulheres já. O avô Manel era de poucas falas, agora andava devagarinho, mas tinha sempre um sorriso, uma brincadeira, uma atenção. O avô Manel morreu como viveu: - devagarinho e sem alarde.
No domingo, bem disposto, pensava como ir ao novo restaurante do Castelo sem ter de subir as escadas e, à noite, morria no Hospital Pulido Valente.
Parece que foi um aneurisma da aorta abdominal.
Mas isso, a mim, não interessa nada. Nem sei o que é, nem quero saber! O que me interessa, e assusta, é que há gente demais a desaparecer, desfalcando, brutalmente, o meu património de afectos. Fazem-me falta as minhas referências, os adultos da minha infância. Agora, para mim depressa demais, começo a ver-me no lugar deles e isso apavora-me.
Porque eu não sei ser referência! Porque se eu ainda não encontrei paz para mim, como posso apaziguar os outros?! O avô Manel tem passado o dia comigo hoje. Nos meus sentires, na minha memória, nessa coisa esquisita que é a minha essência. Já tenho saudades dele...
# posted by Luísa @ 6:14 p.m.
domingo, setembro 28, 2008
Vento forte, intenso, ousado e másculo lá fora. Já tinha saudades dele, da força, da música das folhas que caem da minha nogueira, do restolhar intenso que me faz boa companhia. Gosto do tempo assim, agreste. Gosto da neve, do frio, da chuva que lava mesmo. Hoje, domingo comprido, desejava que este vento levasse para longe, bem longe, o governo deste Portugal oco e cansativo, feito de coisa nenhuma, irritante no premiar constante da vulgaridade e incompetência.
Cada dia que passa é uma farpa mais na minha consciência profissional... Seguem-se as desilusões, os choques com as barbaridades, o confronto com o poderio da velha escola que nada me diz! Queria que o vento soprasse forte pela forta principal e varresse as ideias velhas, as paranóias dos números e grelhas, deixando uma grande desordem de sentires, aprendizagens activas e sonhos reais nos longos corredores e nas cabeças de todos! Depois, o vento havia de sair dali, por uma das janelas enormes, e destruiria a nulidade a que alguns chamam formação de professores.
# posted by Luísa @ 8:22 p.m.
sábado, setembro 27, 2008
Fim de tarde, início de noite diferente. Logo, daqui a pouquinho, vou dançar na sala grande da minha cidade. Vou sentir o ritmo do pase doble, vou divertir-me com o cha-cha-cha. O lucro vai para a Santa Casa da Misericórdia. Oiço falar em solidariedade, em dádiva, e não sinto nada disso. Vou dançar porque gosto e me divirto quando o faço! Só. Devo ser mesmo ruim...
# posted by Luísa @ 7:46 p.m.
quinta-feira, setembro 25, 2008
A Ilha do Sal, as mornas, o vento uivado, o hotel de grandes janelas sobre um mar pintado de mil cores dos muitos barcos de pesca. Música. E mulheres que dançam andando, dançam nos braços dos homens, bamboleiam como as traineiras que chegam carregadas de bom peixe, de marisco irresistível. Eu ali. Vendo. Sentada na praia quente, chapéu de grandes abas, vivendo as saudades intensas de um amor forte como o vento, quente como o sol, harmonioso como a paisagem, verdadeiro como nunca vivi. Ilha do Sal. Sem professores, sem invejazinhas, sem a estupidez colectiva que inundou este Portugal infeliz, seco, infértil e desistido. Porque aqui tudo e todos desistiram. Baixaram os braços, recolheram as velas das naus do sonho. Ilha do Sal. E o Amor a existir na poesia real daquele abraço forte, húmido, na cama larga com janela escancarada, com as mornas por companhia. Fiz as pazes com o romance.
# posted by Luísa @ 11:40 p.m.
terça-feira, setembro 23, 2008
O Outono chegou ontem à tarde, ouvi na RFM. Por cá chegou de facto, cinzento e verdadeiro. Faz-me bem sentir a sua verdade, num mundo onde a mentira impera.
# posted by Luísa @ 12:38 p.m.
domingo, setembro 21, 2008

O Buda e o Tango são os meus constantes amigos. Companheiros silenciosos (às vezes...), adivinham as minhas angústias e exigem um sorriso compreensivo. O Buda, mais velho, tem os seus direitos adquiridos, senta-se na sala, vê televisão e chega a jantar a meias comigo. O Tango, cachorrinho de mês, está na rua, a ver se não ganha maus hábitos..., mas é uma bola fofa de pelo onde posso enxugar as minhas angústias salgadas. O Buda e o Tango não conhecem as traições humanas, não sabem o que é o ministério da Educação e não experimentaram nunca o sabor amargo da desilusão. Os meus dois companheiros fazem-me bem!
# posted by Luísa @ 7:28 p.m.
sábado, setembro 20, 2008
Sábado de capacete sobre a cidade. Há um manto de nuvens cinzentas e negras, está calor, o mundo parece prestes a explodir numa brutal trovoada. E eu desejo-a. Intensa! com chuvada de fazer barulho, raios e coriscos, trovões a fazerem tremer as paredes.
Trovoada lá fora para acalmar a minha tempestade interior, feita de trovões silenciosos, de relâmpagos apagados e de chuva escorrida e salgada.
# posted by Luísa @ 1:45 p.m.
quarta-feira, setembro 17, 2008
Hoje, bem cedo de manhã, já acordada e bem enroscada na cama, pensei não me levantar. Ficar ali, esquecida, desejando que também o mundo se esquecesse de mim... Era uma premonição. À tarde, fui informada de que fora selecionada para ir fazer uma formação (antes fosse para jogar com o Scolari!) em que não confio e que tem um horário que me chateia e perturba!
ODEIO este Portugal de hoje!! Odeio a forma abusiva, humilhante, insultuosa como o Ministério da Educação trata os professores. Desejo todo o mal do mundo aos governantes do país! de verdade. Com raiva e fúria! Desejo que tenham muitas diarreias, tendinites, borbulhas e calos. Que vão morrer longe!!
# posted by Luísa @ 11:08 p.m.
terça-feira, setembro 16, 2008
Ainda não descobri quantas horas teve o meu dia de hoje...Acordei em Lisboa, tomei café na Avenida da liberdade, fiz compras no IKEA, estive em Évora - 2º café! -, almocei na Serra, dei aulas às duas e meia, lavei o canil, escovei o Fred, tratei da pata da Ginja, dei de comer ao Buda, fui ao supermercado, fui à costureira, li o prefácio do livro Um Escritor Confessa-se, Aquilino Ribeiro, estive na reunião da comissão de toponímia da Câmara Municipal, corrigi textos do jornal, dancei chachacha, rumba, tango e merengue, e ainda não acabou o dia inteiro. Agora, vou corrigir testes de diagnóstico, preparar as aulas de amanhã e começar a ler Espero por ti no Sal, Nini, que comprei ontem, à noite, depois de me deliciar com o filme Mamma Mia! Filme EXCELENTE!! De provocar sonhos, fazer sorrir a alma e libertar a cabeça. Vi-o na melhor das companhias, a Filipa mulher terna e linda, compreensiva, com conversa de fazer sentido e a força de ganhar o mundo a fazer-lhe brilhar o olhar!
Agora, aqui no meu canto, sozinha de novo, olho a velocidade da minha vida e penso que bom seria se, um dia..., aparecesse um Pierce Brosnan qualquer para dizer que sim, que me amava mesmo e para sempre!
# posted by Luísa @ 11:19 p.m.
domingo, setembro 14, 2008

Gosto da praia assim, vazia de gente, de faz de conta e vaidades. Gosto do silêncio e da calma, do mar a enrolar devagarinho, do espaço para sonhar. Aliás, eu gosto de tudo o que não tenha gente. Isso, detesto gente com a mesma força com que adoro pessoas. Gente é aquela mistura sem forma nem sentido, massa homogénea de nada e de coisa nenhuma com muita repetição. Repetição de modelos, de normas, de shows de muito má qualidade e excessiva maquilhagem. Gente encontro por aí. Demais.
Pessoas são únicas. São seres singulares, com alma ainda, capazes de partilhar silêncios e construir as cumplicidades de que eu tanto preciso.
Quando a praia fica assim, sozinha, vêm-me à memória pessoas e gostares. Vêm saudades, sonhos, desejos, petiscos, momentos, ousadias que é melhor nem contar...
# posted by Luísa @ 10:43 p.m.
terça-feira, setembro 09, 2008
Voltou a dança, finalmente! cheguei do tango, da valsa, do paso doble, do merengue. Ri-me com gosto, senti viva a minha essência, dei a mão a alguém que me apoia para não escorregar, para rodopiar certinho, para deixar o ritmo correr-me nas veias. Alguém que estabelece laços, que dá sentido à ideia de par, que não procura protagonismo forçado, que sabe partilhar fracassos e êxitos! Queria ir na vida assim, com um apoio efectivo, não como um automóvel último modelo...A noite, por hora e meia, faz-se o oposto do dia. Substitui os vazios hipócritas por plenos de cumplicidade e amizade! O grupo existe de facto, sem invejas nem temores, completo e funcionando. Quem me dera ir à dança no horário da escola e só ter de ir à escola oca no tempo da dança...
# posted by Luísa @ 11:14 p.m.
O dia ainda não acordou. Está escuro lá fora, brilha só a luz da estrada, lá longe, talvez feliz por poder substituir o sol. Como tanta gente, afinal. Tanta gente que anda por aí, de luz alheia, desfilando, fingindo ser pessoa. A luz da lâmpada da estrada é amarela e gordurosa, não gosto dela, lembra-me o "cheiro enjoativo" da Lisboa de Cesário (sempre os meus autores), e engana a realidade do escuro da noite que a minha insónia faz comprida.
A luz da rua fica mais pequenina quando a manhã desperta, o sol se espreguiça, o céu acorda inteiro. Mas eu sinto que o dia real, de sol e calor, não elimina a noite densa que se vive no meu país, na minha rotina...
# posted by Luísa @ 6:35 a.m.
domingo, setembro 07, 2008
Se houvesse pensos rápidos para as feridas de alma, para os cortes brutais que nos fazem as relações humanas, eu esgotaria rapidamente os stocks das farmácias... Voltei à rotina e reencontrei velhos ódios. Azedaram, com o calor do verão talvez, com a incapacidade de olhar os outros sem preconceitos e ideias feitas, com frustrações acumuladas que se tornam farpas para a humanidade próxima. Incomodam-me, porque violentamente injustos e escandalosamente estúpidos! Antes de começarem as aulas, já eu sinto um desejo dorido e intenso de fugir. Fugir de uma escola que não é a minha, de uma rotina ultrapassada que nada me diz, da desesperança que me estilhaça os sentires.
Mas, felizmente, há o outro lado de se ser professor...
Dia 10, lá volto eu a desarrumar a sala, a falar de sonhos, a brincar com os textos e a pôr os meus miúdos a fazer rodar nos dedos as palavras saborosas que lhes vão escorrendo da inteligência para os sentires. Vão voltar as ousadias. Os textos como o que tantos protestos gerou "quando eu era um hamburguer sem queijo". Com eles, tudo vale a pena.
# posted by Luísa @ 9:34 p.m.
quinta-feira, setembro 04, 2008
Chove hoje, que bom! Chove chuva sentida, triste, pura também. Na minha cama, bem quieta e ouvindo correrem os riozinhos na minha janela, tive desejos de ser. Mulher. Desejo de uma cumplicidade capaz de atingir o ponto G que em mim, tenho a certeza, se localiza na alma.
# posted by Luísa @ 7:53 a.m.
quarta-feira, setembro 03, 2008
Começou hoje. Ou melhor, ontem porque foi no dia 2! Começou o inferno da vida na educação neste país. Sinto uma imensa angústia, um desalento, uma irritação intensa que me faz perder o sono...
# posted by Luísa @ 12:05 a.m.

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