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domingo, novembro 28, 2004

É uma cidade de cor, odores e luzes, Granada. A noite é mágica, disfarça as impurezas do dia, torna feérico o Alhambra. Os Rajás saem das praças, os cavaleiros recuperam as montadas ajaezadas, as ruas vestem-se de sons ciganos. Lá em cima, nas Cavas, há castanholas e danças, cores intensas, ruídos que sugerem impossíveis. Chama-se Sacromonte, o lugar onde os possíveis fazem melodias sapateadas.
O mundo, o de hoje, passa na Ronda Sur, rápido, feito luzes de automóveis cheios de angústias, sem espaço para castanholas...
Eu saí da Ronda Sur. Vi os ciganos, tive medo da mulher que, de alecrim na mão, insistiu em ler-me a sina.
Tive medo dela? Ou da sina?

quinta-feira, novembro 25, 2004

Vou partir. Por três dias vou enganar a realidade, entrar na ficção, procurar em Granada a força de uma História com mil histórias.
Provavelmente, quando voltar o mundo estará igual. A minha cidade também. As pessoas que me irritam e desesperam manterão os rostos da impassível estupidez.
Mas eu virei com a alma lavada, a mente cheia de possíveis, os sonhos revigorados...

terça-feira, novembro 23, 2004

Senti hoje o cheiro do Natal. Não chega a ser perfume, é cheiro mesmo. Cheirou-me a vermelho, a compras. Mas a tristeza também. Passeei na minha cidade e vi lojas vazias, olhares angustiados, preocupações que nem as iluminações conseguem eliminar.
Depois, vim para casa.
No meu espaço ainda não cheira a Natal... É cedo, talvez. Novembro traz-me perfume de castanhas, terei de esperar Dezembro para chegar o azevinho.
Dentro de mim há uma chama que quer que seja Natal e me desafia a sorrir. Eu esforço-me mas, vezes demais, o esgar ocupa o lugar do sorriso desejado.
Mas eu quero deixar que seja Natal! Quero MUITO!! Acho, até, que vou fazer mais cedo, este ano, as decorações da quadra.
Será que decorar, mascarar a realidade, me vai ajudar?... Melhor: - Será que eu quero ajuda?

domingo, novembro 21, 2004

Espreitei há pouco a lua. Vi-a embrulhada em humidade, filtrada, com uma cor estranha. Senti que a vida de Portugal está também um pouco assim: - envolta em sombras esquisitas, feitas de hipocrisia, mediocridade, incongruências, insignificâncias. Como a lua, Portugal não tem luz própria, como ela esconde-se em coisa nenhuma. Só que a lua terá fases novas, diferentes, certas. E Portugal? Parece-me definitivamente oco.
Dantes, da minha língua via-se o Mar, disse Vergílio Ferreira. Agora, da mesma língua vê-se a mentira e a Europa inexistente...

sábado, novembro 20, 2004

Sábado à noite, tempo de borga. As pessoas saem, bebem, divertem-se, porque é obrigatório divertirem-se nos sábados à noite.
Eu estou em casa, com o Smart, o lume e a Rita Lee volta a cantar só para mim.
Eu sonho porque, por enquanto..., em Portugal há liberdade de sonhar.

sexta-feira, novembro 19, 2004

Sexta-feira, noite fria, lume aceso e alma húmida. A cabeça no escuro, a alma opaca.
É fim de semana, dizem.

Tenho a Rita Lee a cantar para mim. Só para mim! Privilégios da solidão. Fala-me de amor e de sexo, garante que amor é divino e sexo é poesia. Apetece-me dizer que a compreendo, que quero, como ela, o amor divino entrelaçado com o sexo que, diz ela..., é pagão.
Se a Rita Lee estivesse aqui, perguntar-lhe-ia onde fica a solidão, a ausência de divino, a dúvida do pagão.
Mas ela não ia responder.
Porque uma coisa é cantar, outra, viver...

quarta-feira, novembro 17, 2004

Chama-se assassino a quem rouba vidas, matando. E como se chama a quem mata sonhos? Na minha escola existem assassinos de sonhos. Gente, professores??, que pautam o seu quotidiano pelo criar de obstáculos, pelo boicote constante, pela invenção de pretextos para matar os sonhos.
É gente que tem o estômago azedo. É gente que não sabe ser pessoa. É gente amarga...
Queria uma escola diferente. Um espaço onde sonhar fosse possível, onde fazer fosse verdade. Queria poder rir e brincar, desafiar a imaginação, criar possíveis!
Não gosto da escola onde trabalho. Não é minha!

Recebi, hoje, três flores lindas! Vinham atadas com ráfia, simples, um pouco de papel de estanho no pé húmido. Traziam com elas um cartão. Lindo! De repente, ali, com os olhos húmidos e os sentires aos pulos, fez de novo sentido existir. Porque o amor faz falta, o carinho e a compreensão também...

terça-feira, novembro 16, 2004

Há já em Portugal quem ganhe a vida levando mensagens de amor alheias. É um carro pintado, escrito a vermelho, com um homem que, por alguns euros, procura o destinatário e conta-lhe o amor de outrém. Vi tudo na televisão. Só não percebi se, no caso da paixão ser correspondida, o mensageiro chega a consumar o acto amoroso.
É que há gente para tudo...

Dizem que é a vida que continua sempre. Dizem que é preciso viver. Só não me dizem, ninguém me explica, o que ganhamos com a rotina que nos consome, que privilégios conseguimos por nos esgotarmos, diariamente, com a tal vida que é preciso viver.
Hoje queria não viver. Existir, tampouco...

segunda-feira, novembro 15, 2004

É segunda-feira. Assim, por extenso, com os luxos que merece um dia novinho, se bem que recauchutado.
É um início de nova semana, está frio, o céu teimosamente azul, os sentires a estalarem de cieiro. Tentei comprar um creme hidratante, mas na farmácia disseram-me que para sentires não têm. Disse que podia até ser um genérico, a secura é tanta que qualquer coisa me servia..., mas nem isso consegui arranjar. Resolvi, então, embrulhar-me bem em indiferença e banalidade.
Hoje, vou assim à vida. Será que resulta?

sábado, novembro 13, 2004

Mais um sábado que se acabou. Mais um domingo que se aproxima, sem nada de divino, com tudo de rotina e mágoa. Passou o São Martinho. Não dividiu nada comigo, não levou sequer um pedaço da tristeza que me assombra noites e dias. E apetecia-me poder partilhar com ele, ou com outro ele sem vocação para santo, os sustos de cada noite, o vazio de cada abraço não dado.
Queria descascar a minha mágoa como o faço com as castanhas, dois euros a dúzia!, não me importando sequer se ficasse com os dedos sujos.
Pior mesmo, é sentir a alma negra...

quarta-feira, novembro 10, 2004

Amanhã é dia de S. Martinho. Tempo de castanhas, de jeropiga, de nevoeiros húmidos. É tempo também, ou melhor, é moda..., ir-se à Golegã e falar-se de cavalos. Nos outros dias, com maior propriedade, fala-se de bestas mesmo.
Eu vou comer castanhas. Comi já hoje! Vou provar a jeropiga, vou lembrar-me do tal general que, por ter dividido o manto com um mendigo, ficou Santo. Era fácil, então, ser-se santo. Hoje, o céu está mais distante...

terça-feira, novembro 09, 2004

O meu computador, hoje, perguntou-me se eu queria que ele se actualizasse. Assim. Entrou uma janela nova e fez a pergunta. Perante a minha dúvida, fruto da minha confessa ignorância informática ( e não só...) informou-me das vantagens da actualização. Convenceu-me. Lá segui as instruções que me deu e, depois de alguns minutos, estava, garantiu-me!, mais actualizada e mais protegida dos incómodos vírus.
Ainda não me habituei a esta inteligência das máquinas. Ainda me sinto um bocadinho incomodada, agredida?, por um aparelho me fazer propostas, por enquanto não indecentes, me dar conselhos e me fazer o favor de me dar ajudas... Sinto um pouco invadida a minha privacidade.
E se, de repente, o meu computador começar a imiscuir-se nos meus sentires? E se inventarem um computador temperamental? Vejo já a máquina recusando-se escrever o que me vai na alma. Que horror!!

domingo, novembro 07, 2004

Sol de Inverno e Marvão a exigir visita. Procuro as pedras vivas, cúmplices de tantos momentos, o castelo firme, o café escondido, onde a bica, embora queimada, sabe a muitas histórias. De lá, de cima das muralhas, espreito o mundo cá em baixo. Tudo fica pequenino! Lá está o inoportuno campo de golf, a velhinha ponte romana, a curiosa barragem da apartadura. Encosto-me às pedras que conheço bem, quase sou capaz de dizer onde deixei cada sonho partido, onde confessei cada desejo, onde escondi cada desilusão. As pedras, estas, não são mortas mas cúmplices...
Viro costas à paisagem. Quero as muralhas para mim, quero que elas me protejam de mais agressões, de tantos ataques brutais, de excessivas flechadas de dor.
Vem um vento frio que sabe bem.
Sei que vou ficar com cieiro, e não quero saber. Se fossem só os meus lábios a secar...

quinta-feira, novembro 04, 2004

O Arafat está a morrer, o Bush ganhou as eleições, os chineses estão por todo o lado, a Quinta das Celebridades bate records de audiência. É este o nosso mundo. Nesta tragédia colectiva, no momento em que é dos fracos e maus que reza a História, sinto como profundo non-sense afirmar que estou triste, que os meus sentires estão amachucados, os meus sonhos escondidos no baú secreto das desilusões. Ao mesmo tempo, ainda penso que é por se ignorar o "eu " de cada um, por se olhar a massas anónimas e números, que o mundo descarrilou. Pouco ou nada faz sentido, agora.
Se eu pudesse mandar por um dia... Obrigaria a humanidade a ser gente, a olhar para o lado, a pagar um sorriso e um beijo de imposto diário.
Felizmente, eu não posso mandar.
Infelizmente, eu não posso encolher os ombros e olhar as cores intensas do Outono...

segunda-feira, novembro 01, 2004

Ainda é dia de Todos os Santos e ainda não aconteceu nada de divino. A crise deve ser grave, nem todos juntos conseguem fazer um milagre!!
À minha volta mil demónios zumbem sustos, medos, preocupações e angústias.
Xô! Xô! Xô! Três vezes xô para os demónios que me atormentam! Quero os meus santinhos...

Fui a Sintra, voltei, não me esqueceram as queijadas que até já comi. Passou uma semana, mais comprida do que as outras, com uma hora a mais dada pelos homens. Vá lá, sempre nos dão alguma coisa embora, estou certa, daqui a uns meses nos venham cobrar fazendo-nos ter um dia só com 23 horas. É a eterna mania humana de comandar tudo!
Hoje é dia de Santos "Dê-me os santinhos..." e eu, que já não posso abrigar-me na ingenuidade infantil, queria também pedir os santinhos... Um santinho de paz interior, outro de tranquila cumplicidade, outro ainda de essência-verdade, se desse, mais um para Amor autêntico.
Por favor, dê-me os santinhos...

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