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domingo, novembro 30, 2008

Mala pronta, documentos conferidos - ansiedade de última hora porque há sempre quem não cumpra regras e, por isso, não tenha entregado os documentos necessários - a certeza de uma semana diferente e frio de rachar aqui e lá longe. Em Bruxelas, em Bruges, na Bélgica escura e húmida de que eu tanto gosto! Amanhã, vou levantar-me às três da manhã mas faço-o com gosto e sem sacrifício. Porque eu gosto de ver os meus alunos crescerem e aprenderem a ser PESSOAS!!

sexta-feira, novembro 28, 2008

Correndo atrás do Buda, ingénuo nos seus três meses recentes, o Tango caíu na piscina. O Buda, aflito, correu a chamar-me. Ladrou à minha volta, angustiado, fez-me segui-lo e encontrar o seu amigo inseparável nadando, gelado, numa piscina de onde não conseguia sair. Sem pensar, entrei na água e trouxe-o ao colo. Chegámos os dois casa congelados! Dei banho ao Tango, esfreguei-o com energia e aqueci-o entre abraços e lágrimas de aflição. Depois, tomei eu um banho quente com ele por perto, olhando-me agradecido, seguro de que tudo farei por ele. O meu banho aconteceu tarde demais... Estava mesmo gelada e não me livrei de uma brutal constipação que me deixou sem voz, com tosse de rebentar por dentro, com a cabeça a latejar de dor. Mas não faz mal. Ou, pelo menos, não faz muito mal. Porque pelo Tango, pelo Buda, pelo Fred farei sempre o que puder. Vejo os meus cães como os meus verdadeiros amigos, disponíveis para me mimar, pacientes, necessitando e confiando em mim incondicionalmente. Para eles, eu faço todo o sentido e, para mim, eles são essenciais!

terça-feira, novembro 25, 2008

Brrrr.... Faz frio mesmo! E em Bruxelas neva, venta, o chão escorrega e eu estou desejosa de lá chegar! Apetece-me a aventura da viagem, a companhia dos alunos de quem gosto, as gargalhadas (ainda) puras, a quebra na rotina medíocre da escola dos nossos dias! Faz frio. Mas não esfarela os ossos... Antes lhes dá consistência!
Segunda-feira, no feriado da Restauração da Independência neste país dependente, vou aterrar em Bruxelas, passear na Rue Neuve, na Grande Place, nas Galeries du Roi et de la Reine. Vou comer um (??) chocolate, calçar as luvas inglesas e brincar com o Tintin. A partir de 2ªfeira, e por quatro dias inteirinhos, vou poder ser professora de facto: - Ensinando diferenças, partilhando surpresas, orientando ousadias, provocando novas competências!

sábado, novembro 22, 2008

Entra-me o frio nos ossos, o vento pelas frestas da alma e os sentires embaraçam-se. Fazem nós cegos, muito cegos mesmo, e não encontro a ponta para os desatar. Não sei se são nós de escuteiros, se de lojista, se de marinheiro. Sei que são nós cerrados, de ponta perdida, que me não deixam libertar o sonho de voltar a acreditar. Em quê? Nem eu sei. Sei que, hoje e agora, porque daqui a pouco posso ter mudado de ideias, me apetecia entrar livre num mundo de ficção onde os possíveis fizessem sentido, a ternura dissesse presente e o outro não fosse um estranho ou ameaça. Apetecia-me acreditar no Peter Pan e deixar uma fresta da janela aberta para que ele entrasse e me desafiasse a voos nocturnos e mágicos. Apetecia-me que ele trouxesse a fada Sininho da minha infância, me polvilhasse com pós de oiro e me desatasse os nós que, então, já não seriam cegos. Mas sei que os meus desejos vão ficar por isso mesmo, que a realidade se vai impor, que o vento vai continuar a zunir a minha pobre nogueira e os meus cães vão continuar metidos na casota sem ousarem pôr o nariz de fora. Tenho saudades do tempo em que acreditava no sonho. Do tempo em que, como diz Álvaro de Campos, eu era feliz e ninguém estava morto. Tenho saudades do tempo em que o tempo era feito de tempos com sentido. Tenho saudades do cheiro da minha avó, da cozinha desarrumada com os preparativos do Natal, da lareira a arder carregada de lenha, da chaminé a arder e dos bombeiros a chegarem para evitar o pior. Hoje, os meus nós cegos prenderam o poder de crer e deixaram soltas as pontas da nostalgia… Se o Peter Pan me visitasse, quereria voar com ele. Não para a Terra do Nunca, mas sim para a terra onde ficaram os meus tempos bons, ternos, com sentido e cumplicidade. Pedir-lhe-ia que me polvilhasse com generosidade porque está longe o meu território de felicidade perdida.
Mas, como o Peter Pan não vem, e como eu sei que os meus nós cegos são mesmo cegos, resolvo ignorá-los, procurar um bom livro, desligar a televisão e ficar no meu canto, sossegada, ouvindo o vento e a coruja que, cruel, insiste em piar assustadoramente sempre que eu entro na minha cozinha onde, por enquanto, está tudo arrumado e não cheia a azevias. Esqueço, ou tento esquecer os nós, a realidade que os faz cegos-cegos, e recuso voltar a pensar no meu país, nos escândalos sucessivos, nas políticas humanamente agressivas. Afasto para longe, lá para fora para o meio do vento, a realidade da educação e não permito que a solidão me incomode. Pelo contrário, dou-lhe espaço no sofá, deixo-a instalar-se abusiva e imensamente, e construo com ela a cumplicidade do meu quotidiano. Devagarinho sinto chegarem memórias. Tempos de menos solidão, de abraços fortes, promessas que achava verdades, garantias que julgava possíveis. Enxoto-as com força. Hoje, decidida e conscientemente, não vou dar folga aos sentires, aos pensares tampouco. Hoje, nesta noite comprida e ventosa, não vou deixar correr as ousadias impossíveis que dão sentido à solidão gorda que se estende no sofá. Hoje, quase o finalzinho de Novembro, preparando as coisas para levar vinte alunos à descoberta de Bruxelas e Bruges, não vou permitir que a tristeza cace as pontas dos nós que continuam cegos. Hoje, num exercício de consciência-consciente, vou reinventar a fé na existência e acreditar que sim. Que faz sentido existir e ser.

Fui à bica quente, ao Mercado da minha cidade, ao cemitério. Está muito frio, frio intenso e vítreo, e encontrei quebrada uma das jarras de barro que tenho no cemitério. Recolhi os cacos, enfiei tudo no lixo e surgiu-me Álvaro de Campos, A minha alma partiu-se como um vaso que a criada descuidada... A minha também. Mas eu resisto a fazer-lhe o mesmo que à jarra de barro do cemitério. Lixo, não! Vou recolhendo os cacos e, com cautela, tentando recompor-lhe a forma. Tarefa difícil, para quem, como eu, é tão desajeitado...

quinta-feira, novembro 20, 2008

O mundo rola e rebola - felizmente! - e as situações alteram-se. Hoje, na minha escola (como é bom poder reaprender o valor da minha escola!) os professores uniram-se para agir. NÃO ao modelo de avaliação em vigor. NÃO à humilhação. Foi uma decisão discutida, sentida, desejada e inteligente. Porque é inteligente saber pensar, recusar, exigir qualidade e dignidade. Foi bom ver a sala cheia, as pessoas a conversarem, o desejo a ser uno.
Fez-me bem sentir viva a dignidade profissional, sentir que as causas justas ainda vencem diferenças pessoais e unem os grupos. Hoje, a minha escola fez sentido!

quarta-feira, novembro 19, 2008

Não vejo solução. Não descubro mais a luzinha ao fundo do túnel, aquela esperança luminosa que a possibilidade de mudança sempre transporta. Só há escuro e negro. Tristeza e vontade profunda de acordar de um pesadelo que me esmaga!
Este meu país está a cometer um genocídio, está a destruir uma geração de portugueses que, um dia, acreditou no poder do sonho e na hipótese de mudança. Eu não posso mais!
Eu queria, Ah como queria!, que a Verdade dissesse presente e a Razão se manifestasse.
Bom... claro que também queria os meus sentires. Mas esses, coitados, andam tão assustados com as agressões exteriores que nem ousam manifestar-se...

domingo, novembro 16, 2008

Para mim, cidadã relativamente informada, habituada a pensar e a ouvir e a ler, ainda faz muito sentido a distinção entre a esquerda e a direita política. O que não me faz sentido nenhum é, exactamente, a afirmação de que, hoje em dia, isso já não importa… E não faz sentido, para mim, porque não posso compreender, ainda que seja obrigada a aceitar, uma sociedade sem referências teóricas seguras e claras, sem enquadramento ético e filosófico. Para mim, faz sentido diferenciar teorias, filosofias que devem, ou deveriam, servir de cenário ao desempenho governativo. Para mim, a esquerda não faz, hoje, nenhum sentido. Foi a esquerda excessiva, a tal ditadura do proletariado, a afirmação de igualdades impossíveis que não permitiu, depois das conquistas de Abril de 1974, a construção de uma sociedade lógica e inteligente. É a esquerda, agora a foleira (a dos que nunca leram nenhuma teoria para além dos slogans eleitorais), que permitiu, e permite, a avaliação por pares, no que diz respeito aos professores, o desempenho de cargos apenas por filiação partidária, sem respeito pela competência científica. Foi a esquerda desenquadrada, esta que vive num mundo onde não cabe, que fez dos revolucionários engravatados de BMW. Eu não gosto desta esquerda. Nem de BMWs… Não gosto das fachadas miméticas, das cópias, dos modelos gastos e falsos. Eu não gosto deste governo. Nem um bocadinho! E nem gosto, sequer, das gravatas pseudo-modernas-realmente-pirosas dos primeiro-ministro e afins. Eu não gosto, nem um bocadinho sequer, da actual equipa do ministério da educação que insiste em querer viciar os dados, forçando sucessos, deturpando realidades. No entanto, deve ser da idade…, até já gosto de algumas práticas esquerdistas como a das manifestações. Gostei imenso de ver os alunos a manifestarem-se, gostei da criatividade de algumas palavras de ordem e, sinceramente, não me chocou nada que tivessem, alguns, dirigido epítetos pouco delicados à senhora ministra. Percebo, claro, que houve excessos. Que alguns miúdos nem sabiam a verdadeira razão do protesto, que outros aproveitaram para não ter aulas. Mas, ao mesmo tempo, só o facto destes jovens terem tido a capacidade de se organizarem e de se manifestarem, encheu-me de alegria. De orgulho, até. De orgulho, porque estes são os miúdos fruto da tal ausência de referências. Estes são os tais que já não aprenderam (ou ainda não aprenderam) como se ganha a liberdade e, mesmo assim, ousaram ir contra o poder. Alegria porque voltei a acreditar que há uma luz ao fundo do túnel. Que os jovens portugueses não se vão deixar espezinhar, sabem o que querem e têm coragem para lutar por algo que lhes diz respeito.
Andava eu a viver a ousadia dos jovens, quando ouvi o dr. Manuel Alegre falar em défice de democracia. Ouvi-o dizer que pensa que o primeiro-ministro devia falar com os professores, que não acha democrática a posição do Ministério da Educação face à avaliação de professores. Ouvi-o até dizer que, com este PS (e há outro?) dificilmente será candidato e que, inclusivamente, pondera a hipótese de criar um novo partido. Um partido onde a democracia seja efectiva. E como se pode efectivar o que não se conhece? Como se pode praticar a democracia se, simplesmente, ela não se ensina nem se promove?!
Quando, como agora, o caos está instalado, quando milhares de profissionais estão descontentes e o dizem com clareza e rigor até científico, como pode não haver diálogo, não haver compreensão, discussão e reformulação?
Uma sociedade sem formação, sem filosofia, sem pensar, sem referências éticas e científicas é… Como o era a do Dantas, há quase cem anos: - Uma geração com o PS ao leme é uma canoa em seco!

Maldita velocidade imparável do tempo! outra vez domingo à noite, outra vez segunda-feira amanhã! E vou voltar ao drama em que transformaram a minha escola. E vou voltar a engolir pensares, a desejar desaparecer, a ambicionar a reforma que não chega nunca...

quinta-feira, novembro 13, 2008

Devia ir para a cama. Já enchi o meu velho saco de água quente e, como ando com os sentires amachucados, até ele me trouxe saudades intensas. Devia, por isso, aproveitar a quentura saudosa e enfiar-me na cama, com o Oceano Pacífico por companhia, à espera do amanhã. Mas é precisamente por causa do amanhã, que não quero acabar o hoje! Amanhã vai haver mais sol frio, mais chatices reais, mais desconforto profissional. Hoje, o escuro disfarça o vazio e, por isso, não tenho coragem para não aproveitar a calma da escuridão...

quarta-feira, novembro 12, 2008

É tarde. Estou cansada, exausta mesmo, farta de uma vida que surge recheada de inutilidades e vazios de sentido. Tenho saudades dos tempos dos possíveis, das aprendizagens reais com a Drª. Catalina Pestana, das formações de aprender-a-ser-sendo, do tempo em que me ouviam, em que não havia chefes mas havia leaders reconhecidos.. Tenho saudades dos tempos de fazer sentido. Do tempo em que sorria ao falar na "minha escola", no lugar onde construia sonhos, tecia cumplicidades e fazia sentido. Tenho muitas saudades dos tempos passados com os meus alunos ousados. Dos tempos em que a informalidade não implicava sornice nem faltas de educação, das aulas a aprendermos juntos no fascínio do texto. Tenho saudades de ser eu. Eu-EU mesma. Inteira e real, sem faz de conta, sem travão na alma, sem medo de falar ou de dizer o que de facto pensava. Tenho saudades de ser Pessoa e estou farta de fingir ser gente... Agora, quando a noite chega, eu tremo com a proximidade de mais um dia. Estão a destruir-me todos os dias, com violência, das piores, porque me desfazem a essência e, com estúpida crueldade, me destroem a existência.
Estou cansada. Mais que íssima íssima íssima....

segunda-feira, novembro 10, 2008

Estou em contagem decrescente! Já só faltam duas 2ªs feiras para acabar a burrice a que chamam formação de professores ! Hoje, repetiu-se a fórmula: Ler, copiar e... queimar horas em coisa nenhuma. Em vez de pedirem, por exemplo, que se seleccionassem dois ou três pontos e se contestassem, reformulando, confrontando ideias, não: - Pedem que copiemos! Mas o melhor é o preciosismo forçado: - Tarefa para 105 minutos! Brilhante, de facto. Brilhante porque há 100 minutos para conversar, a cópia faz-se nos outros cinco.
Mas falta pouco, só mais duas tardes de três horas...
Hoje, a minha surpresa escandalizou-se: - Há docentes e professores, informaram. Realidades diferentes, garantiram. Quis saber porquê, qual a verdade científica que fundamenta a diferença de significado, e responderam-me que porque sim. Porque está assim nos muitos contra-sensos da legislação! Impossível? JURO que é verdade e, desta vez, nem me apetece brincar com a coisa!!!

É quando o absurdo se transforma em estupidez agressiva, que o quotidiano revolta e fere! Imagine-se uma pobre professora de Educação Moral e Religiosa Católica, com meia dúzia de alunos e tentando lutar contra um mundo louco que faz escola, a ser acusada de "falta de rigor científico" na sua aula. Brilhante, se não fosse tristemente dramático. Esta Irmã deveria, talvez, ter ligado a Net a Deus e ter-Lhe pedido para, on-line, fazer a demonstração, científica e objectiva, da sua própria existência e, porque o conteúdo objectivo o impunha..., dos malefícios dos consumos de drogas! Talvez devesse, também, ter usado o quadro interactivo para apresentar o Anjo da Guarda e a verdadeira existência do demónio em lugares de chefia (não liderança) do mundo de hoje.
Mal vai o mundo, a escola também, quando tudo se quer reduzir à objectividade grelhada em números, items, parâmetros que pouco mais querem dizer que coisa nenhuma. A coisa, outrora educação, vai de mal a pior. E não dá sinais de ter fim. Até quando ???

domingo, novembro 09, 2008

Há fumo cheiroso nas ruas, tapetes de folhas vermelhas, vento húmido nas faces que o frio faz rosadas. É Novembro, domingo de sol, de São Martinho talvez, e eu passeio com o Tango preso pela trela vermelha. Gosto do frio assim, real, intenso, feito de verdade mesmo. Gosto de pisar as folhas brilhantes, de deixar o Tango cheirar cada canto, regar as paredes que já começam a vestir-se de verde-musgo. Dentro de mim, soltos, os sentires vão-se desfiando, fazendo-se presentes. Lembro a manifestação dos professores, tantos!, e a desesperança face à mesma. Queria tanto, mas tanto, a mudança e, no fundo, sabia, num saber de muitos temores feito, que nada havia de mudar. Era tanta gente! E ecoam em mim as palavras das histórias onde também sou personagem, quando não é domingo, quando o quotidiano lectivo se cumpre, lembrando as humilhações, a estupidez crassa, a idiotice grelhada. Lembro a colega, do Norte, que garantia, em estupefacta indignação, que na sua escola as grelhas até querem medir a criatividade das planificações… Lembro o colega do Alentejo, do Alentejo mais profundo que o meu, do que cheira a mar ainda, garantindo que lhe exigem planos de aula com oito dias de antecedência, indiferentes ao facto de leccionar há mais de vinte anos. Lembro os lamentos que partilho, na revolta que faz doer e humilha, face à falta de tempo para se ser professor de facto. O Tango, indiferente ao turbilhão que me invade, segue tranquilo nas suas pesquisas. Pica-se num ouriço, sacode com força o nariz e gane escondendo-se atrás de mim. Como eu queria também ter onde me esconder quando, de forma mais violenta do que o Tango, me pico nos ouriços que enchem a minha rotina… O Tango tem mais sorte, não conhece o governo de Portugal, não tem de se confrontar com ministros de coisa nenhuma. O Tango é leal, amigo mesmo, não percebe que poder e podre se escrevem com as mesmas letras e desconhece o sábio provérbio português “se queres conhecer o vilão, mete-lhe a vara na mão”…Cheira muito a castanhas assadas, deve haver um magusto perto, e aproximo-me seguindo o faro do meu cão. Há uma fogueira no chão, um assador de barro, um grupo de pessoas à volta. Aproximo-me, aceito a jeropiga que me oferecem e sinto-me bem por poder pertencer a uma comunidade que não agride, não humilha. Sujo as mãos a descascar as castanhas, deixo o Tango descansar junto ao fogo, bem encostado às minhas pernas, e sinto correr a conversa boa. Sim, respondo com gosto, é de facto asquerosa a política educativa. E oiço outros lamentos, igualmente sinceros, de não professores mas portugueses também. Com o copinho de jeropiga na mão sinto as memórias agitarem-se rápidas. Vem a Feira da Golegã, o meu menino Bernardo, lindo, miúdo ainda, vestido a rigor, em cima do cavalo imponente. Chovia lá, quase sempre, e eu andava na lama, botas bem sujas, para poder vê-lo passar, cada ano mais seguro, alentejano a sério, moreno intenso, fazendo-me querer acreditar que a vida fazia sentido. Na Golegã vivi momentos estranhos. Intensos, sofridos, angustiados, alegres também. Ele, o meu menino preferido, fazia anos. E a família movia-se pela causa da ternura, para o ver, para o mimar. Então, eu não era feliz mas não era tão humilhadamente infeliz.
As castanhas estão boas e o Tango, quente demais, puxa a trela. Sim, são horas de continuarmos o passeio, de voltarmos a casa. Levanto-me e despeço-me do grupo já mais pequeno. Queria poder eternizar o momento. O momento em que umas castanhas, uma jeropiga e um grupo de conhecidos dão sentido à existência. Mas o tempo impõe-se, num instante vai ser noite. E amanhã é outro dia, vazio de sentido, recheado da estupidez titulada que domina muitas escolas…

quinta-feira, novembro 06, 2008

Ainda bem que vieste. Sentia a tua falta, uma falta de fazer doer, de quebrar por dentro. Doía a tua ausência nas noites longas, no telefone mudo, no eco sem retorno, nas folhas que tristemente pisava no quintal. Que bom que voltaste! Trouxeste-me a confiança perdida, um pouco ao menos, acalmaste a minha revolta na quentura doce do teu corpo no meu. Senti-te chegar no ritmo da rumba, no passo novo, o fun, que já sei fazer sem me enganar!, e, felizmente, as minhas suspeitas estavam certas. Desta vez... Estavas em casa quando entrei, tinhas o lume aceso e o meu chocolate, aquele espesso que sempre temperas com o pau de canela e dois pingos de pimenta, fumegava na caneca de Siena. Lembras-te como foi giro escolhê-la, na lojinha de recordações junto à Piazza, cheirando o pó dos cavalos nas corridas? Bebi o chocolate molhando a canela nas memórias doces, tantas, e nem deixei que a minha - agora permanente - revolta se manifestasse. Foi bom ter-te de volta! Sabes-me bem. Tão bem, quase, como o chocolate com canela. Agora, não fujas de novo, por favor!, faz-me companhia esta noite, deita-te comigo e faz-te histórias de possíveis com o Oceano Pacífico a tocar baixinho. Sim, podes ousar também. Porque eu preciso que ao menos tu, sonho-sonhado, faças sentido na minha essência!

Soma e segue a estupidez nacional. Sucedem-se as aberrações, progride-se na destruição do essencial, avança-se na concretização do buraco escuro em que este Portugal está a tornar-se. Chego a casa, agora, sempre de sentires estilhaçados, revolta magoada, lágrimas excessivamente independentes para o meu gosto... As minhas aulas, os momentos em que eu era eu-só-real-verdadeira, o espaço de descoberta, desafio e sonho, correm riscos sérios. Porque estou a entregar os pontos, a desistir, a sentir-me incapaz de continuar a luta pela verdade da educação e da aprendizagem!
Não quero esta Escola de ninguém, feita de repetições ocas de modelos de coisas nenhuma! Estou-me nas tintas para as estatísticas falsas, para os sucessos burocraticamente conseguidos! Quero de volta os tempos de partilhas, de saber-ser-saber-fazer, de ousadias, de espírito crítico, de afectos e paixões! Quero poder permitir aos meus alunos a paixão pela Arte da Escrita. Quero poder desafiá-los para o fazer diferente-exclusivo-individual.
Eu não gosto dos professores que querem ser patrões e são idiotas! Eu não acredito nas grelhas feitas de complexa estupidez!
Quero que as grelhas vão para os quintos dos infernos, ou para os sextos mesmos, e que quem as apoia arda no mesmo fogo! Eu quero desaparecer. Quero poder secar as lágrimas que me impedem de teclar livremento no meu blog...

terça-feira, novembro 04, 2008

Os dias, às vezes, fazem-se compridos só para poderem albergar muitas chatices. Tenho a certeza! É o Cronos, deus maldoso e violento, que não contente em comer-nos a cada minuto, cagagésimo de segundo!, resolve complicar-nos a existência. Hoje, foi um dia assim. MAU!
Entre a Maria Cavaco, a infanta de Bourbón, os miúdos do 10º ano a recusarem-se a crescer, ao jipe entornado, houve de tudo. O dia nasceu para me lembrar que, bem vistas as coisas, a péssima e oca formação de 2ªfeira, a titularidade gordurosa por decreto, não são o pior que existe...
Salvou-me da angústia a dança, de onde sempre chego de alma lavada, de ritmo certo e sonho acordado.

segunda-feira, novembro 03, 2008

E pronto, desfez-se o sonho, impôs-se o real e voltou a rotina. Esbarrei de chofre com a estupidez que impera no país que um dia amei. Amachuquei-me fortemente porque, azar o meu..., não há meio de me habituar à mediocridade que faz escola em Portugal. Incomoda-me o pequenino poder, feito grande coisa, vivido por gente mesquinha que justifica que poder e podre são pequenas variações insignificantes... Não gosto de quem se agarra ao poder sem noção da sua mesquinhez incompetente. Eu não gosto desta gente. Eu detesto este sistema.
Revolta-me, indigna-me, que o medo domine a maioria dos professores e que, de repente, sejamos tratados como vermes para espezinhar. Eu quero um mundo diferente! Com sentido, com rigor, com percursos de qualidade e cumplicidades efectivas.
Eu queria poder partir de vez! Para longe desta rotina idiota!! A anos luz da vulgaridade gordurosa e repetitiva que faz o meu quotidiano profissional...

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