<$BlogRSDUrl$>

domingo, agosto 31, 2008

De repente, a Formiguinha, a cadela branca e preta tão esperta, desatou a ganir desesperada. Corremos. Um ginete, rápido, subiu pelo velho castanheiro e desapareceu. A Formiga ficou chorando, choro de cão, verdadeiro e honesto, dorido mesmo. Com mil cuidados levámo-la para a Clínica Veterinária onde foi cosida, suturada!, radiografada e examinada. Chegámos a casa tristes, cheias de pena da nossa Formiguinha que ficou internada. Maldito ginete!



Antigamente, num passado recente, aqui era um campo de tiro aos pombos. Os bichos eram lançados das casinhas rasteiras e os atiradores, Pum! acertavam-lhes, ou não. Depois, felizmente!, proibiu-se este desporto (?) e, hoje, o campo está inactivo. No entanto, o restaurante mantém-se, servindo bem, com vista comprida, sugerindo conversas descontraídas de se ser contente.
Eu, quase a ter de voltar à escola - é já amanhã!-, penso que se podia dar utilidade maior ao campo fazendo tiro aos inúteis e incompetentes. Seria um desporto rentável e altamente ecológico...

sábado, agosto 30, 2008

Não me apetece pensar, cumprir as obrigações do mundo, ser gente. Apetecia-me ser apenas palavras e, assim, correr por aí, solta e livre de regras e sintaxes, dando sentido aos romances que não me apetece ler.

quinta-feira, agosto 28, 2008



Encontrei-o no fnal do dia. Um dia quente, sufocante, com as Festas do Crato a moerem-me a paciência e o desejo de protestar a invadir-me por completo. Achei-o curioso. Porque tem picos, porque é enorme, porque tem frutos coloridos no alto da montanha de espinhos que lhe cobre a pele. Mas, sobretudo, achei-o um sortudo! Porque ele quando agride, quando magoa, tem desculpa: - Foi sem querer... Porque lhe mexeram?! Eu não tenho desculpa e, se calhar por isso, os picos crescem para dentro e dilaceram-me os sentires! Festas, arraiais, concertos, tasquinhas, artesanato. Um modelo repetido, gasto, oco, cansativo. Um modelo de acção autárquica que despende milhões sem retorno! um modelo ilustrativo da grande porcaria que é a política em Portugal!!!

Claro que é bom as pessoas divertirem-se; claro que é bom trazer ao Crato, e a Portalegre, gente importante; claro que é giro passar um serão a abanar o capacete com uma bebida na mão. Mas fará sentido reduzir a isto o investimento autárquico?... E os esgotos? E os empregos? E o apoio aos velhos do concelho? E as políticas de natalidade? Pois é... Como o cacto ilustra: - Só se justificam os picos quando há frutos...


segunda-feira, agosto 25, 2008

Mais uma morte, mais um desaparecimento nas memórias da minha infância. A tia Leta, muito Tia sempre..., cheia de cremes pegajosos e muito chic para a minha compreensão então infantil, já não existe. Fui à cerimónia fúnebre e surpreendi-me! Assisti a um serviço religioso intenso, calmo, cheio de música suave, de palavras ditas pelos meus primos, netos da avó Leta, com segurança e intensidade. Senti-me bem ali, na Basílica da Estrela, lembrando o passado, revendo momentos e não resistindo a pensar que um dia serei eu. E gostaria que também os meus netos dissessem coisas de gostar!! Gostaria que a morte chegasse sem espavento, com um adeus doce e a certeza de não roubar a quem fica as memórias que, acho eu, tecem a verdadeira humanidade...

domingo, agosto 24, 2008

Agosto está de resto. Foi-se, esgotou-se entre idas à praia, notícias de assaltos mais ou menos mediatizados, Jogos Olímpicos e algum sossego. Estou em casa, tudo arrumado, a vontade de existir insistindo em prolongar as férias, a realidade exigindo um esforço. Mais um Agosto que foi. Tantos fois… Passa tudo depressa demais! Bom, tudo não. Às vezes, quando a vida se complica, o tempo arrasta-se e parece não passar mais. Mas este Agosto, o de 2008, voou e deixou algumas saudades. Saudades da Bélgica, de Gant, de Bruxelas também. Saudades de tempos de ignorância. Ignorância feita de alheamento, de distanciamento do real, de recolhimento a um canto exclusivo onde a ternura é possível e, por vezes, o Amor comparece. Este Agosto, pela primeira vez em quantos anos?, não li nenhum romance. Cansaço de construções forçadas? Sensação de déjà vu/lu? Não sei, nem quero saber. Os romances parecem-me esgotados numa multiplicação cansativa e excessiva de fórmulas que sei quase de cor. O que dirão de mim os intelectuais de serviço no meu país, na minha cidadezinha também??
Bom, os intelectuais não. Lembro uma amiga querida, as suas palavras também… Os telectuais! Porque os intelectuais, aqueles que têm alguma coisa in, alguma coisa de dentro-única-particular-exclusiva, escasseiam cada vez mais e decerto me compreenderão. Os outros, os telectuais, os que se fazem de citações e repetições, aqueles que vejo sempre como a literatura inclusa de um medicamento (informação rebuscada que ninguém entende), é que hão-de troçar da minha ignorância assumida e cansada. Quero lá saber!
Aliás, no fim de Agosto não quero mesmo saber de nada que não seja aquele restinho de sabor a mar, a tentativa de descobrir o ponto verde, a calma das caminhadas no paredão, as conversas boas com a caipirinha na mão, os passeios a pé na Serra de sempre. Em finais de Agosto, finjo acreditar nas mentiras que me garantem ser verdades, ignoro o futuro e evito sonhos de ser difícil. Em finais de Agosto, quando as férias estão mesmo de resto e é preciso voltar a cumprir as rotinas que se convencionou definirem seres humanos, espreito as estrelas no céu e espanto-me com os cintilares no manto negro. Em finais de Agosto, recuso acreditar que a vida deu mais uma volta, uma sacudidela talvez, e está pronta para retomar a vulgaridade que a caracteriza.
Um dia, há anos…, nos finais de Agosto vivi o melhor dos dias que fazem a minha essência. Na Serra também, cheia de fé no Amor e nos possíveis também. Então, como diria o Poeta “eu era feliz e ninguém estava morto!” Agora, neste finalzinho de Agosto, há mortos demais, ausências que doem e descrenças que moem. Agora, o restinho de Agosto faz-se de profunda desilusão, de mágoa solitária que eu, de regresso, tento mascarar de sim tudo bem, foram óptimas as férias e é claro que estou feliz…

quinta-feira, agosto 21, 2008

Quase-quase a fazer anos. 26! E é uma mulher fantástica, lutadora, actual, capaz de agarrar o mundo pelas orelhas e de o fazer entrar nos eixos da sua viagem de ser-Pessoa. Com um sorriso, e o vício infantil de abrir bem os olhos!, gargalhada sonora e opinião firme, a menina fez-se Mulher. Num instante! Depressa demais!

terça-feira, agosto 19, 2008

- Estás acordado?
- Hum...
- Não consigo dormir...
- Hum...
- Vamos conversar...
Ele abre o abraço largo e forte. Ela enconcha-se no porto terno que sabe seguro. O sono não vem.
- Tenho medo.
- Hum...
- A vida é tão complicada!
Ele afaga-a de mansinho, respira próximo, ela sente o calor amado amolecer-lhe a insónia.
- Queria ser pérola.
- Hum...
- Viver sempre nesta concha, protegida, sem querer saber de horas, de existências, de preocupações.
- Se fosses pérola não sentias. E tu és sentires. Dorme.
Ela cala-se, fecha os olhos, torna o corpo a continuidade do dele.
- E se eu me levantasse? Um dia um médico disse que quando a insónia vem não se deve ficar na cama, deve-se trocar-lhe as voltas.
Sente a pressão dele sobre o peito. Uma perna pousa na coxa dela.
- Hum, hum... É muito cedo, conta ovelhas.
- Não é ovelhas que se diz, é carneirinhos.
- Hum, hum...
As mãos masculinas ganham ritmada ousadia. Ela deixa-se afagar, olhos fechados, vendo os fantasmas partirem chateados.

segunda-feira, agosto 18, 2008

Voltou a vidinha rotineira, o essencial, o que, no fundo e ainda que sob protestos, nos faz ser o que somos. Mas não quem somos. Porque o essencial do quem, a essência de cada um, é alguma coisa de misterioso que cada vez se esconde mais, se ignora, se camufla, para se aparentar a normalidade, ou a excepcionalidade, que os outros esperam de nós. E os outros são-o connosco, somos todos assim. Voltou por isso a necessidade de sorrir a ódios, de disfarçar ternuras, de pretender a tal equidade que mata a verdade das relações humanas.
Hoje acordei assim. Azeda e amarga, farta também. Não me apetece compreender, ter paciência, fingir que acredito que novos tempos - melhores - um dia virão. Apetece-me dar um pontapé com força na vulgaridade e mandar tudo às urtigas!

sexta-feira, agosto 15, 2008

Feriado. Dia da ascensão de Nossa Senhora, dia de rezar, de acreditar, de lembrar um mistério mais. Fazem-me muita confusão estes mistérios... Como me faz confusão o luxo exagerado da Igreja Católica, a riqueza do Vaticano, os rituais excessivos cheios de ouro e ostentação. Faz-me confusão uma Igreja que prega a humildade e pratica a soberba. Faz-me confusão tanta coisa! E, no entanto, Cristo é meu companheiro, presente sempre, disposto a ouvir e a acompanhar-me. A Ele confesso os meus receios, as minhas angústias, os meus temores, as minhas esperanças e sonhos também. Cristo é o meu herói e, talvez também por isso, mais me incomoda o que vejo como barbaridades da Igreja Católica. A Virgem Maria. Mas porquê virgem? Seria Deus cruel ao ponto de nos dar um corpo feito de pontos de prazer para depois nos proibir de o desfrutar?! Não creio... Creio, sim, no Deus que ama e compreende, que quer vivências de felicidade e não de sacrifício. Creio no Deus que canta e não no que chora, no que premeia e não no que ameaça. Creio no Cristo Homem que reconhece a cumplicidade feminina e a faz igual. Creio no Cristo que defende o prazer!! Creio, ou queria CRER??, numa humanidade feita de amores e sentires...

terça-feira, agosto 12, 2008



É vulgar e piroso, gasto até, dizer-se que há lugares especiais para o Amor. Mais poético é garantir que ele existe em todo o lado. Mas eu assumo a minha alma romântica, o prazer de receber flores, a emoção de um jantar à luz das velas, o abraço-surpresa completamente fora de horas, a garantia da eternidade que sei breve, e acredito em cenários de Amor. Cenários que convidam à ousadia total! E é assim no Lago Azul, em Portugal mesmo, num cantinho esquecido, ou por descobrir, ali bem perto de Tomar, com janelas largas sobre Ferreira do Zêzere. O Amor, com todos os seus servos, ternuras ousadas incluídas, encontra um cenário quase perfeito (pena as moscas - portuguesíssimas!) e convida à transgressão. De manhã, bem cedo, o sol cobre de prata as águas calmas; de tarde, o azul sugere paraísos sem anjos assexuados; ao anoitecer, apetece chorar num ombro forte. Porque também se chora de gozo, de prazer excessivo, de dor de Beleza!

Às vezes, o meu país vale a pena...


segunda-feira, agosto 11, 2008

Se a insónia fosse homem, se calhar vestia-se de um cigarro e de um programa de televisão. Ou zapping, mesmo. Mas, só porque sim, a insónia é feminina, mulher, e, por isso, faz-se de memórias, preocupações, sonhos, projectos, futuros e... olheiras! Depois de uma noite de insónia, companhia indesejável, o dia surge vestido de mais rugas, de manchas negras sob os olhos, de cara de folhado que não folhou. É assim que vou levantar-me amanhã. Até lá, tentando resistir ao xanax medicinal, fico por aqui revivendo e sonhando.
Lembro outras noites, de não insónia e no entanto passadas acordada também; penso o futuro que começou ontem e temo o sol do amanhã. Lá fora, as cigarras estão numa euforia. Como têm a sorte de nunca terem conhecido o LaFontaine, desconhecem as dificuldades que vão enfrentar, não fazem planos, não têm memória. Não me importava de ser cigarra também. Imagino-me sem memória, sem capacidade de sequer sonhar. Seguindo Ricardo Reis viveria um dia de cada vez, como sendo único. Adoraria a natureza, obedecendo a Alberto Caeiro e nunca seria provocada pela loucura inteligente e febril de Álvaro de Campos. Se eu fosse uma cigarra, agora estaria lá fora, no fresquinho, olhando a lua amachucada, gozando a luz intensa dos milhares de estrelas no céu. Da minha janela vejo as estrelas. E lembro-me de quando ensinava as minhas filhas e identificarem a ursa maior, a descobrirem a estrela polar onde - garantia! - morava o Pai Natal.
Agora, esta noite, até o Pai Natal parece ter mudado de casa, com certeza para um duplex vendido pela Remax...

sexta-feira, agosto 08, 2008




Um bom pretexto para conversa, uma Kriek framboise. Vem daí e vamos desfiar sonhos, possíveis e impossíveis, vamos fazer rolar palavras, ficções em si mesmas, comentar o assalto de ontem, rir com as lágrimas correndo na alma. Vamos ficar com bigodes espessos da cerveja boa, enquanto repetimos os óbvios comentários ao país triste que amamos. Sim, tens razão. Vamos esquecer o assalto e falar das cidades tristes, como a minha!, onde um programa de televisão atrai para a rua o piorzinho que habitualmente circula. Não. Não sejas duro com a minha gente, não me digas o que sinto serem verdades sobre o espiritozinho da coisa. Sempre o inho. O diminutivo triste, piroso mesmo, tristemente luso. Somos um paísinho, temos uma gentinha, um governozinho, uma misériazinha, uma ambiçãozinha! Transformámo-nos numa porcariazinha. Isso, nem a porcaria chegamos... Pronto, eu aceito. Dou um gole na minha Kriek e finjo acreditar num futuro diferente. Tu alinhas, mais optimista, lembras até que a Super Bock Green também se bebe bem. Eu teimo. Só gosto mesmo da kriek framboise e, só por isso?, não me importava de ir viver para a Bélgica. Ou para outro lado qualquer. Para um espaço onde o tal povinho não passasse horas ao sol só para aparecer na televisão e mandar beijinhos!!

Outra kriek?...


Assalto, sequestradores, reféns, atiradores, operações especiais, ruas cortadas, tiros. Tudo em directo, em todos os canais, numa cidade que era calma, numa Lisboa cantada em fados de amor e saudade. Portugal assistiu. Surpreendido? Nem por isso, começa a ser habitual. Assustado? A TV cria a ideia de ficção tranquilizadora. Curioso? Em parte, os portugueses são sempre curiosos. Revoltado? Não me pareceu. Excitado? Um pouco, afinal era um acontecimento intenso.
Eu vi o final, em directo, sorrindo perante o absurdo dos comentários dos repórteres que, cansados, confundiam os reféns com os sequestradores e inventavam motivos de reportagem descrevendo, por exemplo, a chegada de uma ambulância ou a partida de um carro da polícia... O Moita Flores, deve ser o único criminalista português!, comentou em directo, aplaudiu a polícia, opinou e fez considerações. De repente, parecia que as televisões e o MF estavam até contentes por terem um motivo de reportagem!!!
Assusta-me a violência crescente. Assusta-me, também, perceber que ela cresce de forma directamente proporcional ao aumento da pobreza. O medo impera. A falta de segurança aumenta e, apesar disso, o governo anuncia um país no caminho do progresso...
Quase em simultâneo com o assalto, também com direito a cobertura mediática, o Presidente da República vedou o espaço aéreo da zona algarvia onde passa férias. Fiquei muito mais descansada por saber que há pelo menos um português em segurança...

quarta-feira, agosto 06, 2008



À noite, na Rue des Bouchers, a tristeza desaparece e os néons, o cheiro das moules, os bonsoir Madame, a cerveja Kriek framboise, mascaram a existência rotineira. Falam-se muitas línguas, há árabes servindo às mesas, portugueses de avental, japoneses fotografando, namorados beijando-se e grupos gargalhando. Os turistas olham, procuram um espaço, espreitam os menus, desconfiados das moules, receosos dos euros a pagar... A Rue des Bouchers é uma sequência única de mesas e cadeiras, de expositores de ostras e mexilhões, de anúncios de lagosta a preços convidativos. Por ali, numa ginástica curiosa, em provas de perícia bem desempenhadas, há ainda os mendigos da música - pedem uma moeda em troco de uma melodia desafinada num violino roufenho -, e as vendedeiras de flores (bouquets!) a garantirem o amor eterno.

Bruxelas. Ainda a encher-me de memórias que são já saudades...


segunda-feira, agosto 04, 2008



Bruxelas, Grande Place, espaço cheio de magia, encantos, diferenças, cores e sentires. Ao fundo, Café do Rei de Espanha, bica a cinco euros, lugar bom para sentar, olhar o mundo e compreender o incompreensível. Gosto de Bruxelas, do coração da Europa, das ruas antigas, calçadas e exalando chocolate. Gosto de Bruges, de Gant também, dos canais líquidos onde passeiam os turistas de todos os lados, da cerveja de framboesa que só lá consigo beber. Em Bruxelas há silêncio de multidões. Silêncio estranho que apenas o falajar português e espanhol conseguem romper. Vou voltar a Bruxelas, em Dezembro, e queria voltar já, correndo, voando. Queria viver num país possível!


This page is powered by Blogger. Isn't yours?

immediately after the BlogItemCommentsEnabled code within the tags. links to this post