domingo, setembro 30, 2007
Voltou a chuva!! Tinha saudades dela. Assim constante, melodiosa, copiosa mesmo. Toda a noite a ouvi na minha janela, cantando, fazendo companhia à minha insónia de pescoço dorido. Soube-me bem ir buscar o edredon, enroscar-me nele, ficar sonhando com abraços fortes, laços fechados, protecção ternamente humanizada .
quarta-feira, setembro 26, 2007
Recentemente, em Itália, uma artista anoréctica despiu-se numa campanha de moda. Aparentemente, parece ser um paradoxo mas, por detrás das aparências, há uma intenção válida: - Alertar os jovens, e alguns adultos também, para o perigo que representam as dietas exageradas e a magreza extrema. Acho uma hipocrisia falar-se de anorexia como sendo um problema dos jovens, sem assumirmos que nós, adultos, abrimos caminho para ele. Somos nós que educamos, que transmitimos referências e valores, que, pelo menos teoricamente, ajudamos a construir a sociedade que integramos. E somos nós, todos, que valorizamos excessivamente a imagem, que defendemos, ainda que por vezes inconscientemente, a importância do parecer sobre o ser! A anorexia é, claro, uma doença. Mas é, também, um reflexo social e um produto da educação de hoje em dia! Claro que eu sei, e sei porque sinto na pele, que os tempos estão difíceis, que andamos sempre a correr, que o tempo não chega, que também precisamos de ter os nossos momentos de lazer e sossego. Mas isso não pode ser motivo, ou não deve, para descurarmos o que, para mim, deve ser a base de uma sociedade humanizada: - o convívio entre os amigos, entre as diferentes gerações, entre pais e filhos!
Aquela rapariga horrível, escanzelada, com os ossos a furarem-lhe a pele, impressionou-me. Podia ser a minha filha, pensei. Podia ser uma aluna minha! E não tenho conseguido dormir desde que vi o cartaz. Apetecia-me, sinceramente, ser capaz de poder fazer alguma coisa para ajudar a parar com uma doença tão estupidamente cruel como esta. Apetecia-me poder dizer a todas as miúdas, porque são elas as principais vítimas, que não é preciso ser-se esquelética para se ser feliz, que não é preciso caber no número 32 para se ser gira! Queria ser capaz de lhes dizer que aquele sorriso franco que faz brilhar o olhar, que aquela gargalhada estridente que faz virar cabeças num café apinhado, que aquele passo firme que faz parar o trânsito, que aquela vontade de ajudar o mundo a melhorar com energia de verdade, são muito mais importantes do que a figura tábua rasa que o espelho, por vezes, recusa devolver… Mas penso em tudo isto e esbarro com a minha incongruência! Se também eu tento ser menos gorda, também eu me irrito quando o espelho denuncia larguras excessivas…
Sinto a alma apertada, as garras da angústia a sufocar-me quando me vejo forçada a confessar que não sei como fazer para, efectivamente, mudar a sociedade e o culto doentio da imagem. A minha proposta, deformação profissional talvez, vai para a educação. Era preciso que a Escola educasse para outra realidade. Mas era também preciso que os grandes criadores de moda mudassem de paradigmas e que os Media compreendessem que, para além do sensacionalismo da doença, há seres humanos a sofrer. E muito!
Aquela rapariga horrível, escanzelada, com os ossos a furarem-lhe a pele, impressionou-me. Podia ser a minha filha, pensei. Podia ser uma aluna minha! E não tenho conseguido dormir desde que vi o cartaz. Apetecia-me, sinceramente, ser capaz de poder fazer alguma coisa para ajudar a parar com uma doença tão estupidamente cruel como esta. Apetecia-me poder dizer a todas as miúdas, porque são elas as principais vítimas, que não é preciso ser-se esquelética para se ser feliz, que não é preciso caber no número 32 para se ser gira! Queria ser capaz de lhes dizer que aquele sorriso franco que faz brilhar o olhar, que aquela gargalhada estridente que faz virar cabeças num café apinhado, que aquele passo firme que faz parar o trânsito, que aquela vontade de ajudar o mundo a melhorar com energia de verdade, são muito mais importantes do que a figura tábua rasa que o espelho, por vezes, recusa devolver… Mas penso em tudo isto e esbarro com a minha incongruência! Se também eu tento ser menos gorda, também eu me irrito quando o espelho denuncia larguras excessivas…
Sinto a alma apertada, as garras da angústia a sufocar-me quando me vejo forçada a confessar que não sei como fazer para, efectivamente, mudar a sociedade e o culto doentio da imagem. A minha proposta, deformação profissional talvez, vai para a educação. Era preciso que a Escola educasse para outra realidade. Mas era também preciso que os grandes criadores de moda mudassem de paradigmas e que os Media compreendessem que, para além do sensacionalismo da doença, há seres humanos a sofrer. E muito!
domingo, setembro 23, 2007
COLHEITA TARDIA
Da colheita tardia, pediu ele. De certeza que vais gostar, é um vinho suave, bom acompanhamento para o que pedimos. Ela sorriu, desconhecedora da colheita tardia, sequer boa apreciadora de vinho, deliciada com a ternura cuidadosa que lia nas palavras dele, na preocupação com a escolha certa. Lá em cima, vigilante e altaneiro, Marvão brilhava.
Era um jantar de fim de verão, de fim de férias, de fim de uma época, e que, para ela, carregava o peso de excesso de fins. Sorria-lhe agradecendo a pouca luz do Restaurante habitual, que impedia a exposição húmida da emoção que lhe embaciava o olhar. Sim, colheita tardia deve ser bom, devem ser as uvas mais doces, as que ficam para o fim da vindima. Ele explicava o processo, falava do Esporão, garantia que este vinho iria fazê-la abandonar a fé intensa que depositava no João Pires. A fé dela andava tão por baixo, disse sorrindo…
A fé na humanidade ruíra mesmo. Ele insistiu na confiança, no optimismo. Ela queria ceder, ser capaz de voltar a acreditar. Sim, claro que sabia que o pessimismo não leva a nada; que as energias positivas atraem o bom; que a vida se faz de fases, de momentos; que é preciso deixar uma fresta n’alma para a felicidade entrar. Mas todo esse conhecimento esbarrava no quotidiano. Ela sentia as dificuldades a crescerem, as desilusões a avolumarem-se, a ausência de alternativas a assustarem-na cada dia mais. A rir, brincando, com o vinho da última colheita dançando no copo bojudo, ele lembrou momentos históricos: - No tempo das invasões francesas vivia-se bem pior, garantia. Aí, respondeu ela, o perigo era visível, o inimigo reconhecido, as armas identificadas… E o vinho a saber-lhe bem, a amolecer-lhe os sentires a fazê-la espreitar Marvão que, firme, lhe oferecia sempre protecção.
Às vezes, também ela se sentia assim: - fortaleza. Fechada na muralha densa da individualidade, protegida de assaltos incómodos por alheamento construído, forte e tecida de percursos ganhos com as recordações de momentos únicos. Às vezes, como Marvão, ela sentia-se capaz de resistir, distante, sozinha, sabendo que o acesso à interioridade seria íngreme e impossível de fazer. Nesses momentos, conseguia rir ao mundo, entrar no faz-de-conta-tudo-bem-e-sou-feliz, fingir ter renovada a fé, a tal fé forte que mantinha apenas no sabor gostoso do João Pires. Ele trouxe-a de volta à realidade com susto quase. Não me ouves? Um euro pelos teus pensamentos!. Não valem isso, não valem nada. Porque são os meus percursos de solidão, porque são o meu acesso à fuga… Mas o vinho, o tal da colheita tardia é de facto muito bom. A mão dele sobre a dela fez-lhe sentir a dificuldade de ele e ela serem apenas nós. E disse-lho brincando, jogando também, servindo-se da gostosura do vinho para justificar ousadias. Ele negou. Que sim, claro, ele e ela, sempre nós. É tão fácil dizer o que não é como se fosse, pensou. É tão fácil usar as palavras, despi-las de rigor, mascará-las de verdades que o não são, pensou ela. E lembrou-se dos alunos, do espanto deles quando lhes afirmava serem as palavras entidades ficcionadas, falsidades sem personalidade que se podem, com excessiva facilidade, adulterar. Seria bom poder devolver aos alunos palavras puras. Não prostituídas, como dizia Sophia, e deixá-los conhecê-las, sentirem-nas virgens e encontrar-lhes o sentido pleno. Impossível, sabia-o. Talvez por isso o desalento, o pessimismo às vezes, a dúvida na mudança, a descrença na renovação da humanidade.
Mas era um jantar apenas, o tal jantar com muitos fins, e exigia sorrisos, conversas fáceis, certezas aparentes. Por isso pegou no copo, correspondeu ao brinde, afirmou o amor. Soou estranho afirmar assim, com ligeireza, o que sentia com tanta força. De novo as palavras a incomodavam. Não tinha palavras para explicar a mistura que a luz de Marvão, a quentura do colheita tardia, o som da água, a maciez do toque da mão dele provocavam nela. Ainda não foram inventadas todas as palavras, pensou.
Gostaste mesmo do vinho? Claro, imenso. E não lhe contou que gostaria de ser ela também uma colheita tardia, saborosa, escolha final e eterna, definitiva. Não lhe contou, sequer, que Marvão a fazia desejar a ousadia da História tornando-a personagem noutra estória.
Contou, apenas, que a colheita tardia era deliciosa e o fim, seja lá do que for, pode sempre surgir prenhe de recomeço.
Da colheita tardia, pediu ele. De certeza que vais gostar, é um vinho suave, bom acompanhamento para o que pedimos. Ela sorriu, desconhecedora da colheita tardia, sequer boa apreciadora de vinho, deliciada com a ternura cuidadosa que lia nas palavras dele, na preocupação com a escolha certa. Lá em cima, vigilante e altaneiro, Marvão brilhava.
Era um jantar de fim de verão, de fim de férias, de fim de uma época, e que, para ela, carregava o peso de excesso de fins. Sorria-lhe agradecendo a pouca luz do Restaurante habitual, que impedia a exposição húmida da emoção que lhe embaciava o olhar. Sim, colheita tardia deve ser bom, devem ser as uvas mais doces, as que ficam para o fim da vindima. Ele explicava o processo, falava do Esporão, garantia que este vinho iria fazê-la abandonar a fé intensa que depositava no João Pires. A fé dela andava tão por baixo, disse sorrindo…
A fé na humanidade ruíra mesmo. Ele insistiu na confiança, no optimismo. Ela queria ceder, ser capaz de voltar a acreditar. Sim, claro que sabia que o pessimismo não leva a nada; que as energias positivas atraem o bom; que a vida se faz de fases, de momentos; que é preciso deixar uma fresta n’alma para a felicidade entrar. Mas todo esse conhecimento esbarrava no quotidiano. Ela sentia as dificuldades a crescerem, as desilusões a avolumarem-se, a ausência de alternativas a assustarem-na cada dia mais. A rir, brincando, com o vinho da última colheita dançando no copo bojudo, ele lembrou momentos históricos: - No tempo das invasões francesas vivia-se bem pior, garantia. Aí, respondeu ela, o perigo era visível, o inimigo reconhecido, as armas identificadas… E o vinho a saber-lhe bem, a amolecer-lhe os sentires a fazê-la espreitar Marvão que, firme, lhe oferecia sempre protecção.
Às vezes, também ela se sentia assim: - fortaleza. Fechada na muralha densa da individualidade, protegida de assaltos incómodos por alheamento construído, forte e tecida de percursos ganhos com as recordações de momentos únicos. Às vezes, como Marvão, ela sentia-se capaz de resistir, distante, sozinha, sabendo que o acesso à interioridade seria íngreme e impossível de fazer. Nesses momentos, conseguia rir ao mundo, entrar no faz-de-conta-tudo-bem-e-sou-feliz, fingir ter renovada a fé, a tal fé forte que mantinha apenas no sabor gostoso do João Pires. Ele trouxe-a de volta à realidade com susto quase. Não me ouves? Um euro pelos teus pensamentos!. Não valem isso, não valem nada. Porque são os meus percursos de solidão, porque são o meu acesso à fuga… Mas o vinho, o tal da colheita tardia é de facto muito bom. A mão dele sobre a dela fez-lhe sentir a dificuldade de ele e ela serem apenas nós. E disse-lho brincando, jogando também, servindo-se da gostosura do vinho para justificar ousadias. Ele negou. Que sim, claro, ele e ela, sempre nós. É tão fácil dizer o que não é como se fosse, pensou. É tão fácil usar as palavras, despi-las de rigor, mascará-las de verdades que o não são, pensou ela. E lembrou-se dos alunos, do espanto deles quando lhes afirmava serem as palavras entidades ficcionadas, falsidades sem personalidade que se podem, com excessiva facilidade, adulterar. Seria bom poder devolver aos alunos palavras puras. Não prostituídas, como dizia Sophia, e deixá-los conhecê-las, sentirem-nas virgens e encontrar-lhes o sentido pleno. Impossível, sabia-o. Talvez por isso o desalento, o pessimismo às vezes, a dúvida na mudança, a descrença na renovação da humanidade.
Mas era um jantar apenas, o tal jantar com muitos fins, e exigia sorrisos, conversas fáceis, certezas aparentes. Por isso pegou no copo, correspondeu ao brinde, afirmou o amor. Soou estranho afirmar assim, com ligeireza, o que sentia com tanta força. De novo as palavras a incomodavam. Não tinha palavras para explicar a mistura que a luz de Marvão, a quentura do colheita tardia, o som da água, a maciez do toque da mão dele provocavam nela. Ainda não foram inventadas todas as palavras, pensou.
Gostaste mesmo do vinho? Claro, imenso. E não lhe contou que gostaria de ser ela também uma colheita tardia, saborosa, escolha final e eterna, definitiva. Não lhe contou, sequer, que Marvão a fazia desejar a ousadia da História tornando-a personagem noutra estória.
Contou, apenas, que a colheita tardia era deliciosa e o fim, seja lá do que for, pode sempre surgir prenhe de recomeço.
quinta-feira, setembro 20, 2007
A minha alma deu um nó cego! acho que se baralhou nos sentires... Agora, não lhe encontro a ponta!!
quarta-feira, setembro 19, 2007
Dia 17 de Setembro aconteceu, em Portalegre, o I Dia Robinson. Pretendia ser o primeiro de muitos dias com iniciativas culturais, apresentação de livros, exposições, conferências, concertos. Não vi lá os professores. Menos ainda, os alunos... Como pode este país mudar de facto, adquirir hábitos culturais, se a escola insiste em centrar-se na sala de aula, nos célebres manuais, na exiguidade de quatro paredes?!! Queria ter visto os alunos, com os professores, interessados em perceber a riqueza que, no Convento de São Francisco, esteve a descoberto. Queria vê-los no castelo, olhando o tempo feito fotografias, queria ter visto os meus colegas no CAEP a ouvir o Quarteto de Trombones do São Carlos!! Queria, quero dolorosamente ainda, ver a Escola a mudar, a ganhar vida, a descobrir e a construir-se de fazeres. Se assim fosse, podiam existir até 30 Marias de Lurdes Rodrigues que a Escola faria sentido...
Ontem, ou hoje, e se calhar até outra vez amanhã..., uma colega das que eu gosto dizia-me "tu não desistes de querer mudar o mundo?! Não vais conseguir!" Eu sei que ela tem razão. Mas sei, também, que se desistir do sonho desaprendo definitivamente a fé na humanidade!!
Ontem, ou hoje, e se calhar até outra vez amanhã..., uma colega das que eu gosto dizia-me "tu não desistes de querer mudar o mundo?! Não vais conseguir!" Eu sei que ela tem razão. Mas sei, também, que se desistir do sonho desaprendo definitivamente a fé na humanidade!!
segunda-feira, setembro 17, 2007
Quantos serão os outros de cada outro com que me cruzo? Se eu sou muitas, com diferentes posturas que moldo à expressão conveniente, quantos serão os outros de cada outro que julgo conhecer? Será que alguma vez saberei caracterizar a identidade de cada um daqueles que identifico pelo nome? Teremos de viver condenados a satisfazer-nos com a produção que cada outro (feito eu então) nos quer impingir? Sendo assim, as desilusões com o outro são muito menos dolorosas porque, enfim, há sempre a hipótese de ter sido a nossa percepção que se enganou... Daquele estafermo que nos irrita estar, apenas, a desempenhar um mau papel, a produzir uma má imagem!
Será que eu, que tanto me desiludo com outros, deixo alguém conhecer o meu eu mais íntimo? Aquele com quem desfio memórias, ouso dizer palavrões (sei poucos), partilho inconfessáveis? julgo que não... E sinto-me culpada por isso. Triste também. Apetecia-me poder ser eu-inteira-verdadeira-una, com um tu-uno-verdadeiro também. Sonhos impossíveis? Sou expert nisso. Creio até poder ser titular nessa escola de existências...
domingo, setembro 16, 2007

Madruguei. A pretexto da sopa que a Joana tem de levar para Évora, sopa de Mãe tem outro sabor..., fiz companhia às funcionárias do Pingo Doce aguardando a abertura da porta. Depois, vagueei pela cidade. Cheira a terra molhada, a mulher fértil, a desejo de vida. Vi Portalegre acordar, lagóia mesmo na preguiça de domingo...
sábado, setembro 15, 2007
Florbela Espanca. Hoje, sei lá porquê, nem sei sequer se tem de haver uma razão para tudo na vida, tenho andado com a Florbela na cabeça. A Florbela mesmo, não os poemas que viram fado, sequer a tristeza nostálgica, a loucura ousada ou o desejo incontido. Ela só!
Era mulher também, ela. E amou também. E intensamente também. E foi infeliz. E deve, também, ter sido feliz às vezes. Porque isso da felicidade, sem ser a versão de que eu tanto gosto da Dona Felicidade marrrequinha que vende maçãs de bravo de esmolfe a que chama bravo mofo, só acontece às vezes. Em momentos. Momentos que, de tão rápidos, se tornam em instantes.
A Florbela deve, pois, ter tido instantes assim. E nesses instantes, imagino, não escrevia nada porque não seria louca ao ponto de os desperdiçar pondo-se a fazer sonetos (coisa complicada, ainda por cima, com as duas quadras, os dois tercetos, a métrica rigorosa e ainda mais a chave que tinha de ser de ouro). Nesses instantâneos, eu imagino a Florbela a saborear o sol Alentejano, a praticar ousadias inconfessáveis, a gargalhar com a alma e a comentar que, se Deus de facto fosse perfeito e eficiente, as lágrimas não seriam sempre salgadas. Seriam, às vezes, açucaradas!!
A Florbela Espanca hoje foi comigo à praça, entrou na casa da massa frita, riu-se da minha mania de gostar do cheiro do peixe misturado com o das flores, e ajudou-me a escolher o peixe para o almoço. De tarde, as duas falamos da vida sentadas nas cadeiras da piscina que ainda não tive coragem para guardar. Ela falou-me da morte escolhida, do fantástico momento em que se diz FIM e tudo termina.
Agora, noite tarde, ela ainda quer conversar. Eu peço-lhe que parta, que me deixe em paz com a minha solidão, que me não distraia das coisas banais e simples como, concretamente, encontrar uma maneira de tirar das minhas calças verdes a mancha de ferrugem que deixaram nelas as cadeiras da piscina...
quinta-feira, setembro 13, 2007
A vida não me dá tréguas. Depois de um dia bom, à noite a morte do Vodka! Era um cão lindo, preto, alguns cabelos brancos já, quase oito anos, cheio de energia ainda.
Quando era pequeno, o Vodka fazia muitas asneiras... Como daquela vez em que arrancou do estendal, e destruiu, o meu fato lindo comprado propositadamente para a apresentação do meu primeiro livro. Mas agora, já adulto, era um vigilante atento, olhos de ternura negra, uma cauda imparável a provocar os meus gritos da manhã NÃO ME SUJES! SAI DAQUI, CHATO!! Vou ter saudades deste chato. Já tenho saudades dele!!
Eu sei, racionalmente sei, que tudo tem um fim, que os animais, como as pessoas, um dia morrem. Mas os meus sentires recusam estas verdades e, por isso, o meu sofrimento é intenso. O desaparecimento do Vodka marca também o fim de uma etapa de vida da minha filha. Era o cão dela, viveu ainda em Lisboa, enriqueceu-a com histórias divertidas e muitas situações daquelas que sempre recordamos com saudade.
Tenho saudades do Vodka! É que eu gostava mais do Vodka do que de muita gente. Muita mesmo!!! E ele era melhor do que muitíssima gente. Era mesmo!!
Energia renovada! Estive com os alunos, duas turmas de gente que ainda gargalha, que se surpreende, a quem ainda não roubaram o direito ao pasmo!! Cheguei a casa e estive a sonhar para eles. São tantas as possibilidades, os desafios, as cumplicidades a construir, os projectos... Fiz uma lista longa de temas actuais para os fazer pensar e falar, construi um guião para o portfólio, desmontei um texto para amanhã (o Pacheco Pereira!)
terça-feira, setembro 11, 2007
Indiferente ao céu ameaçador e negro (é preciso MUITO mais do que uma trovoada para me meter medo), pus a trela no Fred, calcei os sapatões e fui passear até à ribeira onde, há tempos, o Fred me obrigou a mergulhar... Hoje, acredito que farejando a tristeza dos meus sentires, o meu companheiro estava extraordinariamente calmo e permitiu-me uma caminhada tranquila, sem gritos nem puxadelas de trela, sem ataques de ladradelas furiosas sequer. Disse-lhe que reparasse nas copas largas, brilhantes, dos castanheiros que, carregados de ouriços agressivos, anunciam um ano bom de castanha. Ele não ligou muito, acho que não gosta de castanhas... Eu adoro! Em sopa, trincadas cruas com casca, cozidas, assadas, em doce, de todas as maneiras.
Foi precisamente encostado ao tronco de um dos castanheiros do caminho que encontrei Bernardo Soares. Ria sorrindo, olhar provocante e descrente, ao perguntar-me da vida. Acusei-o de cruel maldade. O livro, o do desassossego mesmo, é o que nos une forte, e ele, só porque caí na asneira de lhe confessar a minha admiração ilimitada pela sua inteligência brilhante, gosta de me provocar propondo novas leituras... Esta tarde, queria saber porque razão eu continuava a incomodar-me com a vulgaridade e a rotina do quotidiano português. Eu protestei. Que eu sou vulgar, mulher apenas, professora só, garanti. Gargalhou. Professora? Como podia eu ensinar se eu também não sei, se vivo na dúvida, se pergunto sempre, se peço socorro à vida? Acusei o toque. Mas defendi-me. Falei-lhe na cumplicidade, nas proximidades, no fascínio de aprender um novo sabor, como o das castanhas verdes, um novo cheiro, como o da trovoada anunciada, um novo toque, como o do pelo húmido do Fred. Foi a vez dele se defender: "(...) gira a entreter a razão, esse comboio de corda que se chama coração". Rendi-me. Dei-lhe o braço, eu preciso do toque de quem me apoia, e fomos os dois desfiando desassossegos até à ribeira.
Voltei sozinha, apenas o Fred não me abandonou, e fui para a dança mais calma. Hoje, salsa muita! Corpos colados, movimentos ondulantes, a chegada a casa com os sentires tão aos pulos que o duche foi insuficiente para os meter no lugar...
segunda-feira, setembro 10, 2007
Decididamente, prefiro a estupidez natural, assumida, à mascarada de conhecimento. Mas, só para me chatear, a estupidez licenciada (miraculosamente não titulada!!) esbarra comigo, choca-me, incomoda-me. É por isso, também, que eu defendo uma Ditadura da Inteligência! O Domínio da sabedoria e não da vulgaridade! Não suporto ouvir as parangonas gastas da pedagogia ultrapassada, as afirmações da nacional idiotice, as declarações de eus centrados num mundo dolorosamente pequeno... E tenho de viver com isto a cada dia!
Que Deus me leve aqueles que amo, que faça compridas as noites de solidão, que deixe doer os meus sentires, que veja crescer os meus desejos, que me roube o ponto verde, que me tenha feito nascer neste país de porcaria, enfim. Mas que me condene a conviver diariamente com a estupidez vulgar e idiota, é demais!! Se Deus, ou lá quem o substitui, não quer que eu acredite na vida, paciência. Mas fazer-me aprender, cum saber de experiência feito, que a estupidez pode ser docente, é humilhação a mais...
Felizmente, há alunos. Um deles, hoje, vendo-me desiludida e magoada, com vontade mesmo de desistir dos sonhos, disse-me "Não se vá abaixo professora! Quando os bons desistem..." Devolveu-me o sorriso. Depois, ao chegar a casa, tinha um presente lindo da minha filha: Aquela camisola que eu tanto namorei na montra. Então, deu-me para pensar que, pelos alunos, pelos filhos, pelos Amigos, talvez até valha a pena esbarrar com a estupidez e a vulgaridade só para ir vivendo.
Afinal, eu até tenho sentido de humor e gosto da Olívia Palito e do musculado Popeye...
Trovoada de noite. O céu zangado, a nogueira a encolher-se, os cães a uivarem, os raios a tornarem luminosa a noite tenebrosa. Se a minha alma (cada vez menos sei o que isso é) se pudesse manifestar, faria um espectáculo idêntico.
domingo, setembro 09, 2007
Mais um dia 9. Foi já há dois anos e três meses que o meu Pai partiu e faz-me cada vez mais falta! Precisava de poder contar-lhe da tristeza que me faz chorar a despropósito, das insónias que tornam as noites excessivamente compridas, do receio que experimento por já amanhã, logo às 8.30, ir coordenar uma reunião sem se saber muito bem com que fim... O meu Pai ouvia-me e dava sempre, como conselho, calma e seriedade. Contava histórias da sua própria vida profissional, também essa cheia de lutas, e dizia sempre que devemos lutar por aquilo em que acreditamos. Foi o que me disse, sorrindo, quando aceitei ser candidata a deputada pelo CDS "Não vais ganhar nada mas, se acreditas mesmo no projecto, vai em frente. Um voto terás de certeza..." Faz-me falta o meu Pai!!
E está mais pesada a minha solidão, mais desiludida a minha existência. Dói o faz de conta, o disfarce constante, a obrigatoriedade para ser feliz que me impõem as minhas filhas, os meus amigos também. Hoje, só queria poder ser infeliz em sossego. Honestamente infeliz.
quarta-feira, setembro 05, 2007
Cheguei da dança, Quick-step!, e instalei-me no meu canto. Na minha cabeça há um turbilhão de ideias, nos meus sentires um monte de desejos.
Não consigo perceber este mundo que, ainda que à força e contrariada, integro! Democracia?? E pode haver democracia quando se obrigam as pessoas a assumir cargos que não desejam exercer? E faz sentido votar em quem desesperadamente pede para não ser eleito/a?! Olho o que se desenrola e me atinge, supreendo-me, indigno-me e revolto-me. Para mim, só devia ser eleito aquele que se candidata! Faria sentido votar para Presidente da República em todos os portugueses que reunissem as condições para se candidatarem? Não me parece... Ao mesmo tempo, crescem ódios, invejas (que sempre causam movimento excessivo aos olhos), desconfianças, desentendimentos. Os espaços de reunião, de trabalho, tornam-se arenas de combate e é o salve-se quem puder! É assim na minha Escola...
Eu queria tanto que as coisas fossem diferentes... Queria poder conversar mesmo, versar em conjunto, não usar as palavras apenas como balas de uma guerra que está a fazer feridos graves.
Devia ir-me deitar. Esquecer. Seguir o cartaz enorme que a minha filha me afixou bem em frente do computador "PROIBIDO OPINAR, TER IDEIAS PARA A ESCOLA; FAZER PROJECTOS; SUGERIR ; FALAR NAS REUNIÕES!". Eu prometi cumprir, mas não vou conseguir.
É tarde, estou cansada, tomei um duche bom, tenho uma caneca cheia de leite gelado, devia ir para a cama orientar sonhos e, em vez disso, estou aqui a assistir a mais uma insónia que se prepara.
Por isso, vem daí comigo. Vem dizer que a minha camisa de noite de bordado inglês é linda, vem falar-me de mar, de cidades de ser-se feliz, de caminhadas pela minha serra e das habilidades dos meus bichos. Afasta os fantasmas reais, deixa-me fazer do teu ombro a minha almofada, deixa que os sentires nos levem para aquela dimensão sensível que provoca ciúmes aos anjos...
domingo, setembro 02, 2007
Há dias assim. Dias em que o mundo resolve girar ao contrário. Hoje, foi um deles. Pesadelei a noite toda. Medos inconfessáveis, desejos sufocados, saudades doridas, tudo se juntou para me fazer acordar exausta. Fui à missa, e a homilia chateou-me. Humildade, últimos lugares, coisas sem sentido que me davam vontade de interromper, de protestar, de perguntar ao senhor padre se ele achava que alguma coisa do que dizia fazia sentido... Depois, ao fazer o almoço, parti uma garrafa de azeite na cozinha. Que porcaria! Tudo a escorregar, o SOL a servir para empapar, finalmente a descoberta da utilidade dos semanários.
De tarde, deliciando-me na piscina e quase disposta a fazer as pazes com a humanidade, uma abelha ferrou-me na virilha. Ufa! Dói que se farta!
Acho que são presságios do que me espera no regresso à escola...
sábado, setembro 01, 2007
Chegou Setembro. É um mês de recomeços, acho mesmo que era agora que se devia comemorar o Ano Novo. Voltam as aulas, o trabalho, as rotinas, os sonhos que o Verão deixou recuperar. Gosto deste mês. Lembro-me de, em miúda, me deliciar ao cheirar os cadernos novos, ao tocar nos livros antes de os forrar, ao escolher as canetas e os lápis quase com veneração. Depois, mãe de filhas pequenas, esta continuava sendo uma época especial! Iamos as três ao senhor João, escolhiamos os materiais escolares, as mochilas, o papel para forrar, as canetas, os lápis, as borrachas, tudo como se de uma escolha vital se tratasse. De tarde, à volta da camilha, forravamos os livros, falavamos das expectativas, elas faziam promessas que eu fingia acreditar que cumpririam...
Hoje, retorno à escola com gosto a amargo, com sonhos esfarrapados, com medos emaranhados em muitas desilusões. Volto insegura, não acreditando no que me propõem, condenando o que me impõem.
Esta escola não é a que defendo! Aqui não há espaço para crescer, não há tempo para o sonho, não há coragem para a ousadia. Aqui, a avaliação é medição de falsidades, não consciência de progressão. Queria ter forças para lutar, para propor diferente, para fazer muitas singularidades. E sinto-me esgotada, desanimada, com vontade apenas de não ouvir, não falar, não opinar.
Sinto um íssimo íssimo íssimo desânimo, este Setembro.