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segunda-feira, agosto 30, 2004

Apetecia-me ser capaz de me estar nas tintas para o mundo, para os outros, até para mim. Queria reinventar a gargalhada de desdém e viver com o humor as angústias de cada dia. Queria. Mas não sou capaz...

Gosto da palavra Amor. De fazer amor também. É o momento mágico, único, onde a cumplicidade - o mais difícil de conseguir - pode mesmo acontecer. Gosto de ficar depois, corpo suado e pleno, ouvindo roçar as asas dos anjos ciumentos de tanta plenitude que, espreitando, lamentam ser assexuados. Gosto de ser mulher. Gosto do hino à vida que é o amor!


Cheira a morte. Está por aí o barco do aborto, gente a falar de falsas liberdades, seres pretensamente humanos a fazerem politiquices com o Valor primeiro que é a Vida. Para alguns, não tem importância nenhuma, é mais um facto político, o aborto é um problema de algumas mulheres. Para outros, é uma oportunidade para aparecer na televisão, para fazer discursos, para repetir as parangonas que se ouvem no Partido e que cada vez fazem menos sentido...
A mim, mulher e pessoa, incomoda-me. São 750 euros, dizem, o preço de destruir uma vida. Mas não tem preço o acto de defender o crime!
Este mundo é estranho, confunde tudo, baralha liberdade e morte.
Não gosto desta sociedade.

sexta-feira, agosto 27, 2004

Que mania a das datas! Como se fosse possível repetir factos, reviver emoções, esticar momentos. Dia de anos, dia de casamento, dia do primeiro beijo, dia de morte, dia de namoro, dia de tudo e de nada. E os sentires aos pulos, picados pela marca no calendário, a trazerem ao de cima, ao olhar cansado, outros momentos, muitas saudades.
Não gosto de comemorações.
E sinto vivas as saudades (mais ainda!) quando é dia disto. Ou daquilo.
Queria um tempo sem marcas. Só a passar, deixando que guardasse para mim, só para mim, os momentos que são significativos e que, porque será?, nem sequer merecem referência no calendário das festividades....

sábado, agosto 21, 2004

Tenho um buraco imenso na alma. É um buraco negro, como todos os buracos fundos, mas que tem bordas largas, quase margens de um rio feito poço. No buraco tento enfiar o que me aflige, ou aquilo que já não cabe na cabeça, que transborda dos sentires e exige, vezes demais!, aspirinas aos pares: - O amor, o Santana Lopes e as nomeações sem fim, o novo ano escolar a começar mal, a insegurança, a cama fria e larga onde durmo, os sonhos que me fazem pesadelar, as crianças (minhas!) que insistem em crescer depressa demais, o tempo adiado que nunca chega.
Hoje, porque tinha tempo livre, tentei arrumar um pouco o meu buraco, pôr ordem nalgumas das mil coisas que lá vou metendo. Puxei sem ver o quê e, por azar?, fiquei com o olhar cheio de saudades, os sentires embrulhados em recordações que nem sequer traziam teias de aranhas! Sacudi-as com pouca força e fiquei a desfiá-las. Pensei eliminá-las, fazer um delete no meu buraco negro e fundo, mas não fui capaz. É que, tantas vezes!!, ainda é ao buraco negro que vou buscar energia. Sabe-me bem ficar sentada nas margens, com as pernas para o lado do abismo, puxando algumas das mil coisas e saboreando a sua companhia.
Hoje, ou ontem, ou amanhã, tanto faz, é só um hoje comprido para servir o agora-vida minha, os abismos dos buracos negros são quase tranquilizadores...

quarta-feira, agosto 18, 2004

O Oceano Pacífico, a velha RFM, fazem-me companhia. Há vento lá fora. Vento de Agosto, tentativa de sacudir tristezas, chuva que chega para lavar a cara suja do Verão. Espreito-a. Chega direitinha, escorrida, pura, deixando tudo a brilhar. Vejo-o a ele, ao Sr. Verão, de ar já amarrotado e olheiras de muitas noitadas viciadas, espreitá-la a medo. E tenho vontade de rir! Bem feita!
Quem manda o Verão ter a mania que enche a vida de alegrias mascaradas de múltiplas maquilhagens????

sábado, agosto 14, 2004

A doença assusta, faz-me sentir insignificante, um nada nas mãos de um cruel desfazedor de vidas. Aproximam-se fins, e eu tenho medo.
Queria continuar na ilusão de que é para sempre a existência daqueles que eu AMO...

sexta-feira, agosto 13, 2004

Às vezes o sono não vem.
Vem a noite, chega a calma, mas o sossego não aparece e a agitação - de sentires e pensares - não pára. Então há a hipótese, modernidade salvadora ?!, de abrir a janela e escrever, deixar correr os dedos no teclado e ver as letras organizarem-se para fazerem companhia. Não há preocupação de escrever bonito, de ser correcto, criativo, original, inovador. Há, que bom!, apenas a hipótese de esgotar o físico no cansaço do passeio de dedos por teclas para, então, ficar aberto o espaço para o sono que vai retemperar forças, recriar energias.
Lá fora continua o escuro, o silêncio que o ladrar do cão não consegue perturbar.

quinta-feira, agosto 12, 2004

Ponto final, parágrafo, mudança de linha. Fim de férias.
Acabou a praia, os cabelos desalinhados, as transgressões na dieta, o fim do dia à procura do pontinho verde. Curiosamente, ou não?, ficou tudo igual: - Ficou o cansaço, a vontade de compreender, o desejo de cumplicidade. O mundo continua em guerra, Portugal perdeu o jogo de futebol com o Iraque e foi autorizada a colonagem humana.
A Humanidade, ou o que dela resta, caminha para o fim e eu olho as férias que esgotei. Contrasensos? Não há contrasensos quando não há senso nenhum!

sábado, agosto 07, 2004

História Encantada (por escrita desencantada)
É algarvia, de Loulé, a moura Cássima.
Não! Vou dizer a verdade, respeitar as origens das mouras, ainda que encantadas, num tempo de identidades já excessivamente baralhadas. Vou voltar ao princípio: - É moura, a Cássima. Isso, porque uma pessoa, pelo menos muitas pessoas, pertencem ao lugar onde amam e não àquele onde viveram ou morreram. A Cássima nasceu em terras mouras, para lá de Marrocos, e lá se apaixonou, perdida e intensamente, com a força que só as mulheres crentes no sonho, na fantasia, conhecem. Depois, o Pai trouxe-a para Portugal e ela viveu em Loulé, passeou nos jardins que o louro cheiroso protegia e chorou frente ao mar as saudades da pele escura que desejava tocar. A Cássima tinha irmãs, todas formosas, nenhuma tão bela quanto ela.
Um dia, um dia de sol quente de Algarve, em vez de ir à praia a Cássima viveu o medo e a ameaça: - Vinham a caminho os cristãos, carregados de crucifixos e espadas, bestas e bíblias, orações e morte. Vinham, diziam, trazer a todos a Verdade do Deus deles. Cássima, mais uma vez, olhou o mar. Era tudo estranho! Porque tinha o Pai chegado a um lugar distante, de língua estranha, aromas novos, areias douradas? Porque tinha o mar, imenso!, o gosto das suas lágrimas? Porque ficara o seu amor, o veludo onde queria aportar, do lado de lá do oceano? E porque vinham aqueles homens, carregados de ódio e livros de fé, exigir a sua morte? Perdida no horizonte, tentando que os pensamentos arrancassem respostas às sereias que via sobre as ondas, nem teve tempo de mudar de véu antes que o Pai, detentor de muitos poderes, a enfeitiçasse no fundo de um poço. Um dia, ele garantira, alguém viria quebrar o encantamento e levá-la de volta ao seu País, ao seu Amor, aos sabores intensos da sua origem.
Cássima ficou no fundo do poço. Um poço com nora, água tirada por muitos burros, todos de vendas nos olhos. Ela não tinha vendas. Tinha o olhar da alma bem desperto, as saudades incendiadas, o desejo de fuga ardente. De noite, sempre que a lua a espreitava e o velho cheiro do mar chegava à nora, a Cássima saía da sua prisão para, como outrora, misturar com as ondas as suas lágrimas de saudade.
Os dias passaram, os anos também, os séculos fizeram História e, da Cássima, muitas histórias se contaram. Ali, juntinho à nora, nasceu uma Casa também mágica, com espaço para ternura, paredes feitas de muita mágoa e muito amor. A Casa tomou o nome da moura e prometeu, acho mesmo que jurou tendo as osgas gordas por testemunhas, que para sempre iria proteger a moura prisioneira e, para sempre também, iria privilegiar o Amor. A Cásima, aos poucos, habituou-se à nova Casa, à sua nova vida também.
Hoje, de noite sempre, muitas vezes a moura algarvia escapa ao feitiço e vem espreitar a piscina, lamentar-se dos prédios grandes que a não deixam ver o mar, saber daqueles que, amando, por ali andam agora, como ela outrora, prisioneiros de outros feitiços, resultado do sempiterno Amor.
Uma noite eu ouvi a Cássima. Havia lua, estrelas sem fim, e o vento, que antes despenteava as muitas árvores, calou-se de repente. Eu despertei de um sono acordado e olhei a janela. A princípio, confesso, temi uma osga,( não há maneira de me adaptar aqueles seres repelentes e rastejantes), mas depois espreitei melhor, abri a portada verde e vi a Cássima. Estava com um véu branco, pulseira de mil lantejoulas no tornozelo, o cabelo preso por um diadema de estrelas, sentada no banco de ferro. Mexia-se ao de leve, dança do ventre inconsciente, e a lua iluminava o brilho das lágrimas que corriam. Descalça, ignorando as osgas, saí de mansinho e sentei-me junto dela. Cheirava bem, canela-cacau-pimenta-mar, e não se incomodou com a minha presença. Os olhos compridos, negros, carregavam areia dourada de um deserto que desconheço. No meio, uma tenda, branca também, água de oásis correndo cantando.
Sem me olhar, a Cássima perguntou-me da vida. E eu contei. Abri a tranca das catorze chaves do meu coração, soltei as amarras de muitos nós da minha cabeça e falei de tudo. Disse da família que não sei, do abraço que não tenho, das noites geladas no lençol branco, do medo de cada alvorada, da paixão pelo pôr de cada sol. Falei-lhe de inconfessáveis, desejos e ambições, e ela cantou, voz quente de jazz ondulado, numa língua que desconheço. No meio da melodia, sentindo-me embalada por um navio grande feito de ternuras ousadas, distingui – juro! – a palavra sonho. Depois, subitamente, a Cássima olhou-me nos olhos e leu-me a alma. Toda!
Felizmente, não há dicionário para leituras de mouras, ainda que algarvias...

quinta-feira, agosto 05, 2004

Pôr do sol quente, ondas em eterna competição, Olimpíadas sem vencidos nem vencedores, olhar sem rumo, sentires desarrumados, saudades intensas e uma Caipiroska onde o gelo nem ousa dançar. É um fim de tarde de Algarve, no Algarve bom, sem muita gente, na esplanada agradável que deixa ver as gaivotas aos saltos, as crianças a apanharem as últimas conchinhas que a maré vazia abandonou.
Estou sozinha. Não me apetece a solidão e sinto que, definitivamente, há coisas que só têm graça a dois. Fecho os olhos na procura do abraço quente que não chega. A minha memória atraiçoa-
-me, incapaz de devolver a cumplicidade para sempre perdida...
É Verão. Agosto. Há um pôr de sol mágico e uma solidão que dói!

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