terça-feira, agosto 28, 2007
Era dia de Verão, estava calor, o casamento, na igreja pequenina com a grande árvore à porta, estava marcado para as cinco e meia. Em casa, desde manhã cedo, muito reboliço. Olhares húmidos, esperança, receio, segurança, inconsciência e certeza, tudo ecoando pelos cantos da casa grande. A mesma casa onde crescera, onde partira um braço no baloiço, onde descobrira Eça, Vergílio e Júlio Dinis encavalitada no parapeito solitário da janela do sótão. Era, então-agora, um dia diferente. Ia casar. Olhara-se no espelho, virgindade luminosa apregoada pela renda antiga do vestido, olhar seguro e um desejo imenso de ser feliz. Desejo doloroso quase. Uma amiga, a especial, no tempo em que a minha maior amiga era uma afirmação com sentido, sustentara-lhe o sonho, garantira-lhe as realizações desejadas. Com meia-hora de atraso entrara na igreja pelo braço do Pai, emocionado também. Ele já lá estava e, ao ouvido, murmurara-lhe o estás linda e eu amo-te que muitas vezes voltaria a repetir. Dissera o sim com entusiasmo, desejando que a sua segurança obrigasse o destino a cumprir-se a gosto.
Depois, a festa. A serra linda, os amigos solidários, ele tocando-a com promessas de prazeres a cumprir. E a viagem louca para Espanha, a chegada ao hotel com a velha Dyane cheia de pedrinhas nos tampões e pintada com frases delatoras.
O quarto, a noite de descobertas, de prazeres incendiados, de ilimitada cumplicidade, de possíveis totais. Ela a adormecer envolvida nele, feitos um só, ela rezando, baixinho, para que Deus permitisse que ele e ela fossem apenas nós.
Há 26 anos!!
Hoje...
Depois, a festa. A serra linda, os amigos solidários, ele tocando-a com promessas de prazeres a cumprir. E a viagem louca para Espanha, a chegada ao hotel com a velha Dyane cheia de pedrinhas nos tampões e pintada com frases delatoras.
O quarto, a noite de descobertas, de prazeres incendiados, de ilimitada cumplicidade, de possíveis totais. Ela a adormecer envolvida nele, feitos um só, ela rezando, baixinho, para que Deus permitisse que ele e ela fossem apenas nós.
Há 26 anos!!
Hoje...
domingo, agosto 26, 2007
Fui apanhar beldroegas. Andei na horta, o Fred protestando por não poder entrar, e arranquei muitos pés da erva que dá uma sopa deliciosa. Vim para casa e, com a paciência possível (é pouca) , pus-me a arrancar folha a folha dos pezinhos compridos. Ao mesmo tempo, porque a minha alma não se compadece de cabeça vazia... fui desfolhando momentos. Viveres. Eram os anos da minha filha. 25! que velha estou... quando nasceu, bebé horrível de pés grandes e uns ridículos 2,100kg de peso, a minha vida mudou para sempre. Era ela o centro, o motivo de existir, a razão dos sorrisos, a causa das noites mal dormidas. Hoje, Senhora Doutora, Advogada de um escritório onde a estimam, olho-a mulher e não percebo o que aconteceu ao meu bebé. Devia ser possível arquivar momentos, congelá-los como vou fazer com as folhas das beldroegas tão difíceis de arranjar. Depois, quando as saudades apertassem, podia sempre fazer uma sopa de memórias, ainda que a ornamentasse com folhas de beldroegas...
terça-feira, agosto 21, 2007
SURPREENDENTE (ou talvez não...)
Um grupo de esverdeados metidos a revolucionários de pé descalço, um grupo de gente que se julga intelectualmente superior e por isso ignora as leis dos comuns mortais, entrou numa propriedade privada e destruiu um hectare de plantação de milho. Assim.
Alegaram que era milho transgénico e, embora sem sustentação científica honesta e completa, resolveram eliminá-lo. As forças de segurança (ou talvez não...) assistiram e não intervieram. O dono da exploração teve um AVC, o presidente da república (finalmente!!) manifestou a sua indignação e ponto final. Ficou assim mesmo. Não se sabe por que razão estes esverdeados não foram para a cadeia, não se sabe o que o primeiro-ministro pensa (será que pensa???) disto.
Imaginemos que os ditos esverdeados resolvem que não gostam de ver leões no meio das praças, porventura pode o ruído dos automóveis assustá-los e, convenhamos, estão completamente fora do seu habitat, será que vão deitar abaixo o Marquês do Pombal? E se entenderem que o cavalo de D. José está cansado de ter uma pata no ar, vão pô-lo direito a cavalgar?! Haja bom senso neste País, já que o resto se extinguiu de vez!!
Alguém mostre a estes activistas o perigo de poluição e intoxicação que representam os governantes de Portugal, a ver se os meninos exterminam o que de facto é nocivo à humanidade.
domingo, agosto 19, 2007
Chegaram ao fim as férias... Não me apetece nada voltar à rotina, aos rostos conhecidos, às conversas onde as reticências fazem norma. Não me apetece voltar a vestir a farda da hipocrisia, olá! Boas férias, tudo bem? Não, não sou titular. Sim, sou titular. Não, não vou ter as turmas que desejava. Sim, vou ter o que queria, claro. Apetecia-me não voltar, aceder à reforma antecipada e poder construir aquele espaço de aprendizagem com que tanto sonho. Aí, a exigência conviveria, de igual para igual, com afectos, emoções, registos de memórias de valer a pena. No meu espaço de aprender, haveria lugar para a música, para a construção e descoberta de novas realidades. No meu espaço, o modle não existiria e a net seria apenas um instrumento, um recurso, nunca o essencial! Lá, haveria pessoas. Com toda a complexidade que a designação exige: - inteligência, liberdade, afecto, cumplicidade, erros, trocas, sonhos, experiências, projectos, viagens, festas, tristeza também, verdade sempre!
Mas, claro..., o meu espaço de aprender não existe e, amanhã, lá vou eu, funcionária cumpridora "meter o papel do retorno". Só a designação me humilha...
quarta-feira, agosto 15, 2007
"Enquanto Salazar dormia". Foi o Domingos Amaral quem escreveu, eu devorei a leitura. Ultimamente, num ultimamente já muito comprido, não tenho gostado da maioria das obras dos escritores jovens portugueses: Pedro Paixão, Possidónio Cachapa, Mafalda Belmonte, Margarida Rebelo Pinto, etc... são escritas que me agridem, me irritam mesmo. Eles, homens, porque parecem sempre forçar uma originalidade que não possuem; elas, mulheres, porque exploram a aberração, maltratanto a sensualidade, a essência feminina também. Depois, ambos cultivam o palavrão, a ordinarice, e isso chateia-me. Ah!! Como me chateia a vulgaridade! Sim, é Portugal... mas, mesmo consciente dessa evidência, não resisto a ficar chateada. Assim, vou evitando estes escritores e procuro, sempre, os clássicos ou os estrangeiros.
Bom, tenho de fazer aqui uma pausa explicativa: - GOSTO, e muito, da escrita de Miguel Sousa Tavares, de Helena Marques e, embora menos..., de Agustina. Mas, tirando estas excepções, acho, sinceramente, que a literatura portuguesa da actualidade será, um dia, catalogada como "Período de mediocridade marcada por um mediatismo e vulgaridade gritantes". Dito o indispensável, fico feliz por poder dizer que me deliciei com o que o Domingos Amaral conta que acontecia em Portugal enquanto Salazar dormia. Espiões, políticas ardilosas, mulheres, suspense. A forma, a escrita, fácil, apelativa, correcta e apetitosa. Vou procurar TUDO o que o Domingos escreveu porque, ainda por cima, até aposto que nunca mais aconteceu nada de tão interessante em Portugal durante o sono dos leaders. Agora, por exemplo, enquanto os nossos governantes dormem, nós aproveitamos para pedir a todos os santinhos que não voltem a acordar!!
terça-feira, agosto 14, 2007
Deixo-me levar, fecho os olhos e sinto as ondas que me empurram. Por forças marinhas, quero crer que com a ajuda das sereias, sou levada para a praia. A minha praia. Aqui não há outros, nem guarda-sóis, tampouco toldos para alugar ou miúdos bronzeados de apito ao pescoço e olhares nos rabos nus. Aliás, aqui não há rabos. Nem nus, nem vestidos.
Nesta praia há espaço, cheiro intenso a maresia, vento calmo e fresco que me afaga o corpo. Olho as marcas do sal no fato de banho preto, na pele bronzeada, e comparo-as com as marcas sentidas na alma. Hummm... muito inofensivas. O sal vai sair no duche da noite, as outras manchas vão ficar, esbatidas sob o abraço que desejo, intensas face à ausência real. Com calma, caminho à beira-mar, - não vás ao mar Tóino, que o mar ‘tá bravo Tóino -, as memórias de outras praias fazendo-me companhia. Então, era miúda e a minha mãe ensinava-nos as cantigas antigas – o mar enrola na areia, ninguém sabe o que ele diz – e eu a saber que ele diz presente. Que existe. E que é masculino e beija, docemente, a areia fina, ela feminina.
Na minha praia é assim. O sonho é real, a água calma, os outros não estão e a caipirinha surge, fresca, quase-quase na chegada do ponto verde!
Na minha praia é assim. O sonho é real, a água calma, os outros não estão e a caipirinha surge, fresca, quase-quase na chegada do ponto verde!
domingo, agosto 12, 2007
"Eu não sou eu, nem sou o outro. Sou uma ponte de tédio que vai de mim, para o outro" - Mário de Sá-Carneiro a conversar comigo, intruso sempre, nesta noite que a insónia faz comprida. Olho o tempo dos homens - 12 de Agosto, 04.23h - e lembro que Torga faz anos. Parabéns ao escritor, ao Poeta!, ao criador que admiro. Sonho que sonho que estou a sonhar. E acordo com vontade de conversar, de ler, de dizer à noite que não lhe ligo nenhuma e não cumpro a sua imposição: Não durmo! No meu sonho - meio sonho - sonho sonhado, falava inglês num role playing, ou no pedagogicamente correcto "jogo de papéis" (como se isso fizesse algum sentido), e havia quem brincasse também na descoberta de saber. Havia depois, na escola?, turmas a distribuir e eu via sem ver, no tal sonho-sonhado, gente (professores??) falando em modles, em exercícios on line, em aprendizagens apregoadas modernas porque se recorre ao computador. Portátil, claro! Ria eu, no sonho-sonhado, descrente da máquina que formata, perguntando qual é a tecla que provoca o sonho, qual o teclar para desenvolver das emoções e da criatividade... E vinham respostas que chocavam com Sá-Carneiro, em Paris olhando o Sena, Suicido-me aqui? Não, falta o smoking, ridicularizando as aprendizagens no modle. Ele também! Torga não queria bolo de anos. Poupem-me ao soprar das velas, tantas!, faço 100. Dêem-me de presente um Portugal diferente. Essencial. Feito da terra e de homens. Mulheres também.
Sacudo o sonho, o tal sonho - meio sonho - sonho sonhado e venho conversar com o outro. O eu também, ou a ponte de tédio que me assalta e não deixa dormir.
Sacudo o sonho, o tal sonho - meio sonho - sonho sonhado e venho conversar com o outro. O eu também, ou a ponte de tédio que me assalta e não deixa dormir.
sábado, agosto 11, 2007
Serão de sábado, Agosto a cumprir-se, ar condicionado ligado e Michael Bublé por companhia. It's late in the evening, por isso chamo para junto de mim os meus fantasmas. Sinto-os chegarem, de mansinho, e não implico com a mania que têm de espreitar sobre o ombro aquilo que teclo. Perguntam, fazendo coro com Michael Bublé, se estou em paz. Respondo, muda, que I feel wonderful tonight. Sim, sinto-me lindamente porque tenho o poder do sonho e revivo fantasias que sei de cor, experimento saudades do que nunca vivi, imagino histórias sempre possíveis. Tão possíveis quanto a força da emoção que me molha o olhar porque há estrelas no céu e, numa noite assim, vindo com o meu Pai de Marvão, lhe contei que, se calhar, era doente por não conseguir parar, nunca, a emoção e o sonho. Ele, com calma e a sério, disse que a minha doença era saudável e que para a emoção não havia terapêutica...
Os fantasmas voam rentinho a mim e pedem-me que lhes conte o que me vai na alma. Coitados, até eles sofrem do mal du siécle XXI (???) e perdem o poder de adivinhar-sentindo. Olho-os com vontade de rir a sério. Sim, claro que são sonhos de mulher! Mulher mesmo, garanto. Ousadias inconfessáveis, carícias por inventar ainda, corações de braço dado na descoberta do Olimpo! Sim, do Olimpo. Porque no paraíso deve ser tudo excessivamente monótono para o meu desejo...
Os fantasmas voam rentinho a mim e pedem-me que lhes conte o que me vai na alma. Coitados, até eles sofrem do mal du siécle XXI (???) e perdem o poder de adivinhar-sentindo. Olho-os com vontade de rir a sério. Sim, claro que são sonhos de mulher! Mulher mesmo, garanto. Ousadias inconfessáveis, carícias por inventar ainda, corações de braço dado na descoberta do Olimpo! Sim, do Olimpo. Porque no paraíso deve ser tudo excessivamente monótono para o meu desejo...
sexta-feira, agosto 10, 2007
Acordou fresco o dia, cansado do excesso de sol talvez. Sabe bem a frescura da manhã a exigir-me viver.
Madeleine continua desaparecida, o país continua de pernas para o ar, liderado por um facínora perigoso.
Dizem que Agosto é tempo de férias...
Madeleine continua desaparecida, o país continua de pernas para o ar, liderado por um facínora perigoso.
Dizem que Agosto é tempo de férias...
segunda-feira, agosto 06, 2007
Eu bem tento desligar. Fecho-me no ar livre da Serra, converso com os meus cães, vigio a gravidez da gata, vou apanhar peras para doce, sujo-me com as deliciosas framboesas, encho os comedouros dos pardais e finjo que não há mundo.
Mas o mundo insiste em intrometer-se! Vou à bica e encontro olhares desiludidos, cruzo conversas revoltadas, esbarro com expressões feitas de orgulho mal-cheiroso.
Queria desaparecer.
De verdade mesmo! Se há tempos sonhava amar, ousar, misturar experiências e tecer cumplicidades, agora sonho emigrar. De vez! Este país não me diz nada. Este governo envergonha-me, humilha-me, agride-me.
Hoje, à porta de uma das relativamente grandes superfícies da minha cidade, um miúdo triste vendia pensos, rápidos, garantia. Um euro senhora... Comprei muitos e perguntei-lhe, depois, se também os vendia para colar em almas desfeitas. Acho que não me entendeu... Mas sorriu. Sorriu e fez-me chorar. Quero sair daqui!!
Mas o mundo insiste em intrometer-se! Vou à bica e encontro olhares desiludidos, cruzo conversas revoltadas, esbarro com expressões feitas de orgulho mal-cheiroso.
Queria desaparecer.
De verdade mesmo! Se há tempos sonhava amar, ousar, misturar experiências e tecer cumplicidades, agora sonho emigrar. De vez! Este país não me diz nada. Este governo envergonha-me, humilha-me, agride-me.
Hoje, à porta de uma das relativamente grandes superfícies da minha cidade, um miúdo triste vendia pensos, rápidos, garantia. Um euro senhora... Comprei muitos e perguntei-lhe, depois, se também os vendia para colar em almas desfeitas. Acho que não me entendeu... Mas sorriu. Sorriu e fez-me chorar. Quero sair daqui!!
sexta-feira, agosto 03, 2007
Que bom que vieste meu querido. Senta-te aqui junto de mim, estou molhada ainda, acabei de sair da piscina, não dei por tu chegares. Isso, beija-me assim, como sabes, fazendo cócegas nos meus lábios salgados, deixando que a tua mão percorra as minhas costas nuas. Gosto quando me abraças, quando as tuas mãos acariciam os meus ombros prometendo ondas de prazer intenso. Vês? ainda há sol. Agora é assim, o sol fica até mais tarde, dourando a piscina, permitindo que eu tente descobrir o ponto verde durante muito mais tempo. Hoje, o ponto verde és tu. Chegaste na nuvem do sonho e eu abro os olhos vendo-te, como se abrisse a arca dos tesouros e encontrasse dobrões de ouro...