terça-feira, setembro 28, 2004
Não havia nada que garantisse a perfeição, o final feliz, sequer o início de uma história com era uma vez. Havia apenas um casal, sem idade, com amor afirmado, a desafiar convenções, a provocar emoções. Ela, de olhar negro-moçárabe, carregava na pele o cheiro de muitas mulheres, de mil histórias, de intensos passados; ele, de olhar de mar, reflectia a ansiedade-desejo que as mãos imparáveis dela denunciavam. Não querendo saber das certezas confusas de cada dia, os dois sentavam-se à beira – mar espreitando as ondas. No corpo dela, muito ao de leve, ele bebia as gotas de sal enquanto, numa conversa feita de silêncios mágicos, desfiavam sonhos. Uma onda veio mais forte, despenteada, atirando algas que, no decote moçárabe, sugeriam novas ousadias, diferentes descobertas. Os dois foram. Por ali. À procura do fascínio de coisa nenhuma!
O meu menino vai casar. Cresceu, depressa demais..., e está já a organizar a festa. Olho-o e tenho saudades das refilices, do mau humor, do braço partido no cavalinho de papelão, do desfile lindo, no cavalo a sério!, na Feira da Golegã. O meu menino. Não é de ouro, mas é muito meu. Que seja feliz. Muito!
segunda-feira, setembro 27, 2004
Pronto. Finalmente começaram as aulas! Os professores continuam por colocar, mas não interessa nada tentar perceber por que foi possível arrancar agora não o tendo sido antes. É Portugal.
Tenho horário, esburacado, todos os dias, incrível para quem tem 14 horas semanais. e tenho vergonha das minhas 14 horas.... Sinto-me socialmente incómoda por, num país com as características de Portugal, me pedirem para dar apenas três turmas para leccionar. Cada vez tenho mais vergonha de ser portuguesa!
Tenho horário, esburacado, todos os dias, incrível para quem tem 14 horas semanais. e tenho vergonha das minhas 14 horas.... Sinto-me socialmente incómoda por, num país com as características de Portugal, me pedirem para dar apenas três turmas para leccionar. Cada vez tenho mais vergonha de ser portuguesa!
domingo, setembro 26, 2004
Tenho uma televisão nova. Gira, moderna, actual. Mas não consigo pô-la a funcionar... Sinto-me como os analfabetos perante os livros de capa dourada, os diabéticos frente a um bolo de chocolate, as tias frente a um Museu, os políticos perante a verdade. Perdida!
Amanhã vou chamar um técnico. Vai ser um homem, com certeza, não conheço técnicas de tv, mulheres.
Que irritação! Por que será que os cérebros masculinos são mais vocacionados para estas coisas?
Amanhã vou chamar um técnico. Vai ser um homem, com certeza, não conheço técnicas de tv, mulheres.
Que irritação! Por que será que os cérebros masculinos são mais vocacionados para estas coisas?
quinta-feira, setembro 23, 2004
Às vezes o sono não chega. E então a noite fica comprida, longa. Desligada a televisão, com o Oceano Pacífico de sempre, o silêncio faz mais sentido, a solidão ornamenta-se de recordações, de sonhos, de desejos que se confundem entre muitos passados e alguns futuros. Há uma letra de uma música portuguesa, de quem?..., que diz qualquer coisa como " de quem eu gosto, nem às paredes confesso". Apetecia-me fazer coro e dizer, (cantar não ouso...), que "o que eu sinto nem ao meu blog confesso..."
E as aulas nunca mais começam.
E o país nunca mais funciona!
E as aulas nunca mais começam.
E o país nunca mais funciona!
terça-feira, setembro 21, 2004
Na televisão passa uma novela. É uma mulher linda, uma história complicada, amores cruzados. Na novela há os maus da fita que, de certeza!, vão ser castigados. Queria que a vida fosse como a novela!
Queria ter a garantia de que, um dia, todas as histórias de amor farão sentido...
Queria ter a garantia de que, um dia, todas as histórias de amor farão sentido...
segunda-feira, setembro 20, 2004
Até o Smart hoje acordou irritado. Cumprimentou-me com uma ladradela displicente e nem quis acabar o meu iogurte. Depois, foi até ao quarto da Joana e perguntou-me porque a tinha deixado partir. Ele não sabe que a vida se cumpre de partidas, de despedidas, de alguns regressos e poucos reencontros.
sábado, setembro 18, 2004
Disseram-me hoje que eu ando muito calma. Ri-me. Acaso o rosto espelha a alma? Mera ilusão de poetas ultrapassados... Dentro de mim há um tufão de emoções, um marmoto de sentires, um vulcão de pensares. Mas está tudo dentro de mim, trancado sem chave, guardado na cumplicidade exclusiva do meu próprio eu. Calma? Antes desiludida, desanimada, a achar que, se calhar, o sonho não serve mesmo de nada e a vida se cumpre de muitas mentiras e ricas aparências.
Um dia acreditei que a vida se cumpria num fazer de pequenas coisas. Que o Amor era real, a intimidade perfeita, a amizade sincera. Depois... acordei para a realidade. Então... estou a aprender a ser gente deixando de ser pessoa. É duro, difícil, mas hei-de conseguir! Eu até já sei gravar cd's no meu computador...
Um dia acreditei que a vida se cumpria num fazer de pequenas coisas. Que o Amor era real, a intimidade perfeita, a amizade sincera. Depois... acordei para a realidade. Então... estou a aprender a ser gente deixando de ser pessoa. É duro, difícil, mas hei-de conseguir! Eu até já sei gravar cd's no meu computador...
quarta-feira, setembro 15, 2004
Há uma maneira de compreender a existência. Uma só: - A Arte!
Um quadro pinta com sentido o ser; um poema conta com beleza até a guerra; uma escultura faz a pedra escutar a melodia e dançar.
Arte! Que importa que os homens não sejam artistas? Ela existe na mesma, acontece, ri-se da incompreensão e faz-se.
Até o amor se faz de Arte: - A Arte de ser único, exclusivo, infinita e deliciosamente criativo. Há homens, e mulheres, que não são artistas. Não amam. Coitados...
Um quadro pinta com sentido o ser; um poema conta com beleza até a guerra; uma escultura faz a pedra escutar a melodia e dançar.
Arte! Que importa que os homens não sejam artistas? Ela existe na mesma, acontece, ri-se da incompreensão e faz-se.
Até o amor se faz de Arte: - A Arte de ser único, exclusivo, infinita e deliciosamente criativo. Há homens, e mulheres, que não são artistas. Não amam. Coitados...
As palavras não custam dinheiro. São de borla. Por isso, se calhar, têm tão pouco valor... São meros intermediários entre o real e a imagem. Então, não custa dizer "adoro-te", não tem qualquer problema garantir-se o amor, as saudades, a exclusividade. Nada.
As palavras existem para isso: - para baralhar a verdade e construir sociedade de gente. As palavras andam de boca em boca, sujas, vestindo os significados que cada um lhes quer dar, de fácil prostituição. Os animais não têm palavras, comunicam com mais verdade...
Mas eu queria um mundo capaz de reinventar a palavra pura. Um mundo onde o branco fosse branco. Não beije, ou creme, ou casca de ovo, ou leitoso, ou pérola. Branco só.
Queria...
As palavras existem para isso: - para baralhar a verdade e construir sociedade de gente. As palavras andam de boca em boca, sujas, vestindo os significados que cada um lhes quer dar, de fácil prostituição. Os animais não têm palavras, comunicam com mais verdade...
Mas eu queria um mundo capaz de reinventar a palavra pura. Um mundo onde o branco fosse branco. Não beije, ou creme, ou casca de ovo, ou leitoso, ou pérola. Branco só.
Queria...
terça-feira, setembro 14, 2004
Praxes. A mediocridade lusa vestida de tradição da porcaria. Juntam-se os piores alunos, mascaram-se de estudantes com vestes ridículas, munem-se de vernizes, batons, espumas e porcarias e massacram os que chegam.
Auto-denominam-se "notáveis". De quê? Da sem vergonhice? Da estupidez? Do atraso deste pobre país? Para praxar, a par com as porcarias, tentam a humilhação, o enxovalho à dignidade do outro. Os professores, os Reitores, o que fazem? Sorriem, afirmam condescendência, ignoram, ou fingem ignorar, as barbaridades que os alunos praticam.
Com um país assim, de que serve querer ser europeu?
Tenho vergonha, nojo também, do meu país que já foi de Poetas!!
Auto-denominam-se "notáveis". De quê? Da sem vergonhice? Da estupidez? Do atraso deste pobre país? Para praxar, a par com as porcarias, tentam a humilhação, o enxovalho à dignidade do outro. Os professores, os Reitores, o que fazem? Sorriem, afirmam condescendência, ignoram, ou fingem ignorar, as barbaridades que os alunos praticam.
Com um país assim, de que serve querer ser europeu?
Tenho vergonha, nojo também, do meu país que já foi de Poetas!!
domingo, setembro 12, 2004
É bom andar por fora, enganar, ou tentar..., a realidade chata e rotineira. Foi bom ter estado longe de casa, ter sorrido de novo, ter brincado ao faz-de-conta-que-sou-feliz. Mas acabou. Agora estou de novo no meu canto, espreitando uma brecha de sol, descobrindo os melros, adivinhando as torres da Sé que, indiferentes à grua imensa que lhes colocaram na frente, se esticam gritando presente!
Amanhã vou voltar ao trabalho. Vou, com o coração apertado, voltar a esbarrar com a mesquinhez humana, com as insignificâncias de profissionais sem mérito. Dizem que é a vida. Para mim, é apenas a estupidez de muitos humanos!!
Amanhã vou voltar ao trabalho. Vou, com o coração apertado, voltar a esbarrar com a mesquinhez humana, com as insignificâncias de profissionais sem mérito. Dizem que é a vida. Para mim, é apenas a estupidez de muitos humanos!!
sábado, setembro 04, 2004
Então, até um dia! - É bom poder adiar a vida. Ou tentar. E dizer "até um dia" ao quotidiano, à rotina, as chatices que sei certas, aos problemas com data marcada, às ausências que doem, às presenças que os sentires insistem em trazer de volta, às saudades que me adormecem e acordam, às emoções, às dúvidas e aos anseios.
Até um dia...
Até um dia...
Não há palavras suficientemente negras para qualificar os crimes na escola russa. Há seres, decerto não humanos, capazes de tudo! Revejo Hitler, Auschwitz, as Twin Towers...
Ao mesmo tempo, há mulheres que dizem só ser livres se puderem matar os próprios filhos. A vida não é um Circo, antes um teatro de horrores!
Ao mesmo tempo, há mulheres que dizem só ser livres se puderem matar os próprios filhos. A vida não é um Circo, antes um teatro de horrores!
quinta-feira, setembro 02, 2004
Parece que chegou o Outono. Veio mais cedo, vestido de nuvens frescas, de vento enérgico. Tinha saudades dele, sentia-lhe a falta de cor. A minha nogueira também. Vejo-a bem disposta, espevitada, arreliando os melros que insiste em sacudir dos ramos grossos.