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quarta-feira, outubro 31, 2007


Amanhã é feriado. Dia de Todos os Santos... A mania das generalizações! Tinha muito mais piada festejar um de cada vez. Além de mais personalizado, sempre se multiplicavam os dias de pouco fazer!
Mas eu hoje nem sequer estou a pensar em feriados. Estou recordando, revivendo, refazendo naquela construção gerúndica de memórias que dão verdadeiro valor e real sabor aos momentos bons já vividos. Lembro o ramo de flores lindas sobre a cómoda antiga do quarto onde dormi no último fim-de-semana. Recupero os cheiros de campo, de relva regada também. No silêncio da noite, ecoa o ranger da madeira e surgem, puros porque irreais, os meus sentires inconfessáveis.
Agora, como Pessoa, "a outra coisa é que é linda"!

segunda-feira, outubro 29, 2007



Fim-de-semana fantástico! O Norte a descobrir, Torga no granito rústico, a torga ao lado, a Casa de Santo António, em Britiande, a sugerir magias tecidas de mil estórias com história. Ali andou Afonso, o primeiro, o mal educado que batia na mãe. Diz a lenda que ali achou muitas nozes e, zangado, acho que ele andava sempre zangado..., terá dito para os seus homens: "Britem e andem!" o que, repetido por vozes menos reais e porventura mais bem humoradas, teria originado a terrinha de Britiande. Hoje, não há lá reis mal encarados. Pelo contrário, há uma casa linda, de Sto. António, feita de espaços sóbrios, de quenturas e confortos com muitas estórias para fazer. No meu quarto havia flores, madeiras que chiavam, cama fofa de lençóis brancos e almofadões floridos.



De Britiande, para S. Martinho de Anta. A homenagem a Torga, os montes, o café preguiçoso onde um miúdo, de brinco, destoava, agredindo as minhas memórias. O cemitério. Pequeno, simples, protegido pela Igreja.

E a vida a impôr-se. O Douro, os rebuçados da Régua, ó freguesa só um euro o saco (dieta às urtigas!), os barcos engalanados, as pontes para a outra margem.
Tormes a seguir. O Eça! O Jacinto e o Zé Fernandes, o desejo da canja que não é servida. A Casa está lá, fechada, a Fundação assim decidiu. Mas falta vida. Falta a este país aprender o sabor das muitas canjas da nossa literatura.
Almoço então no caminho, aprendendo o que são roças, os fatos que deviam chamar-se espalhafatos!!
E, amolecida pelo vinho fino, vi surgir São João da Tarouca ao abandono. O mosteiro imponente, o sino preso com uma corda, o senhor Caetano, uma muleta de cada lado, a explicar, a contar... Que o IPAR e o Ministério da Cultura lhe dizem para abrir se quiser. Ou não. Obras únicas! É Portugal.

No regresso, atrasando a chegada que não apetece, o João do Bragal. O Bragal de baixo. Um restaurante excelente, Diana Krall a receber-nos, ali perdido, difícil de encontrar neste Portugal de mágicas diferenças e deliciosos sabores que não sabe o que são placas de sinalização.

Agora o trabalho por fazer, a semana a correr.
Ah! Mas eu vou vencê-la! Tenho a alma recarregada!!!


quinta-feira, outubro 25, 2007

Às vezes, sobretudo quando com os meus alunos desafio possíveis e convoco transgressões, digo-lhes que a palavra é uma ficção e que, também por isso, podemos pegar-lhe como nos apetecer e pô-la ao nosso serviço. É assim, costumo dizer-lhes, como ter uma caixinha com barras coloridas de plasticina e, mexendo-lhes com diferentes intensidades, amassando, esticando, cortando, ver surgir novas verdades: - um gato, uma mesa, uma costeleta, um ovo estrelado ou mexido até. E é isso mesmo que me apetece fazer: pegar no sonho, amassar palavras com ele e construir ficções. Se entre a aparência e o ser há um mundo de contrastes, hoje vou desafiá-los e misturá-los exactamente como via as minhas filhas fazerem no tempo em que ainda eu comprava caixinhas de plasticina. Vou mesmo deixar correr a ficção e amassar as mil barafundas que, tecidas de pensares e sentires, me fazem companhia neste serão de Outono (finalmente!)
E surge-me o paso doble recentemente aprendido. A energia do bater o pé no chão, a cabeça erguida, as costas do par fazendo calor nas minhas e lembrando-me que os ritmos, a dois, fazem sempre mais sentido. Pego depois no fumo branco da velha Robinson, deixo de lado o negro que o meu avô enviou ao Salazar numa caixinha, e teço nuvens de ternura. Agora há cumplicidades a acontecer. Sou eu e o meu avô, a Prateleira de Insignificâncias que ele publicou e eu desejo publicar, a mesma cidade para amar, as mesmas fúrias de difícil contenção.
Porque eu sou eu sendo outros. Outros muitos. O meu Pai muito, o meu avô um pouco, a minha Mãe nas parecenças que me apregoam com excessiva constância, as minhas filhas que me herdaram o sorriso, as neuras, o desejo frenético de agarrar a vida pelas orelhas.
E queria, agora, ser só eu sozinha. Eu e o Oceano Pacífico. Nas mãos a plasticina colorida e na cabeça, fazendo coro com o coração, um nada imenso que me deixasse sossegar…

terça-feira, outubro 23, 2007

Aprendi a dançar o Paso Doble! Ritmo fantástico! Batido, decidido, enérgico, deixando-me agir com a força contida que carrego diariamente. Cabeça levantada, passo firme, palmas, volta, abraço, o rosto do par e costas com costas. Bater o pé! Bato com força! Com a força com que me apetecia batê-lo à vida para a meter no lugar...
Já em casa, o duche, o oceano pacífico, o João Chaves da minha juventude (que saudades do AdLib!), as memórias e amontoarem-se e os sentires aos pulos. Aos meus pés o Buda, ressonando de mansinho na tranquilidade da sua condição de canino.
É a vida. Paso Doble e memórias. Porque não?

segunda-feira, outubro 22, 2007


Andam a mexer na minha Serra. Sinto que me dilaceram também. Cortaram árvores, destruiram as sombras e desnudaram mistérios. Agora, a cidade está mais exposta, desprotegida, infeliz talvez. Olho o castelo, a barbacã, a Sé, e não reconheço as marcas dos meus sentires, as referências das minhas memórias. Penso, então, que é assim a vida, a modernização, a constante mudança "todo o mundo é composto de mudança". Tento conformar-me. Não resulta! Não devia ser possível a um punhado de homens, gente que nem é de cá, destruirem um património cultural que nos define, que nos faz ser como somos: lagóias!

Portalegre parece-me triste. Envergonhada na sua nudez...



domingo, outubro 21, 2007



A ideia foi do meu avô. Uma homenagem aos homens da terra, a estátua de um semeador. A polémica foi muita, ele lutou até ao fim e a estátua apareceu. Já colocada, o meu avô chamar-lhe-ia "um risível boneco".
Agora, 47 anos mais tarde, (a estátua é exactamente da minha idade!), o Bentes Bravo contou-lhe a história feita de histórias, tornou-a estatueta de bronze, recuperou-a um pouco do lugar triste a que foi condenada. Eu acho que, ainda que um risível boneco, o Semeador tornou-se de Portalegre. Eu gosto dele. Gosto dos safões de mármore, das mãos calejadas, das veias salientes.
Hoje, olho o Semeador e apetece-me pedir-lhe que me ensine como se semeiam ideias, como se regam sonhos, como se adubam sentires...

quarta-feira, outubro 17, 2007

Dever-se-á incluir no agregado familiar o número dos irmãos todos? Ou só daqueles que ainda não estão a estudar fora? E se tiverem emigrado? Deixarão de ser agregado familiar? E se gastam o dinheiro dos pais? Voltarão a ser agregado? E deve haver uma linha para outros? Ou põem-se só dois quadradinhos? Ah! E muito importante! Convém lembrar que os avós existem... E, a propósito, não se devem marcar faltas a alunos que ficam na aula. E, muita atenção!, não esquecer que as faltas só podem ser justificadas com justificação... Brilhante!
Duas horas inteiras, 120 minutos de existência quase humana, vinte professores numa sala, reunião de directores de turma, tempo a afirmar o óbvio, a discutir o nada. É assim em Portugal! Deve ser por isso, acho, que nos mantemos eternamente na cauda da Europa! E a boa da bicha não dá uma rabada forte que nos lance de vez para o fundo do mar!!

segunda-feira, outubro 15, 2007

Há uma frase de que gosto particularmente. Bom, há muitas... Mas hoje esta tem ecoado dentro de mim: "A vida cumpre-se num fazer de pequenas coisas". Porque olho a minha rotina e percebo como são pequenas, insignificantes, as enormes coisas que me atormentam.
Devia estar feliz, aliviada, satisfeita. Não há cancro, para já.
Mas estou triste, com garras a apertar-me a alma, com medo do sono que até me apetece. A vida cumpre-se num fazer de pequenas coisas. Mas as medidas são tão pessoais...

sexta-feira, outubro 12, 2007

Tenho medo. A hipótese da doença, de novo..., apavora-me. Tenho saudades de não ter medos, preocupações, receios. Queria de volta a paz, a tranquilidade que perdi há muito. Onde? Numa das curvas da vida. Queria, também, poder deixar cair a couraça que me protege e ser eu mesma. Eu só. Sem necessidade de parecer forte, firme, segura.
Quero colo. Mimo. Alguém que me proteja do mundo e me assuste os pesadelos.

quinta-feira, outubro 11, 2007

Sol teimoso, fora de prazo, a entrar pela janela. Miúdas de top, eles de T-shirt, livros nas mesas, mochilas coloridas, olhares brilhantes e curiosos.
Era o Dia Europeu Contra a Pena de Morte!
E eu, a propósito de António Vieira, da humanidade e da sua mania de se manter igual, da preocupação de ligar as aprendizagens à vida real, a moderar o debate proposto: - Pena de Morte, a humilhação da Humanidade!
Para minha surpresa, e revolta também, os miúdos, os jovens de 17 e 18 anos, a defenderem o indefensável. Porque quem mata deve morrer, porque há gente que não merece viver, porque a sociedade não deve pagar a vida de criminosos. Afirmavam, convictos. E propunham torturas terríveis, exageravam as penas, defendiam a morte. Intervim. Protestei, expliquei, falei de seres humanos, da Vida como direito primeiro, de respeito, de oportunidades, de diferenças entre humanos e animais. Depois, pedi um texto. Uma reflexão pessoal.
Agora, noite já, dia seguinte, acabei de corrigir... estou angustiada e apavorada! O que está Portugal a fazer com a juventude? Que valores estamos a transmitir? Os meus meninos, miúdos coloridos e simpáticos, capazes de se comoverem com o filme Missão, defendem a tortura, a morte, a violência, o "olho por olho, dente por dente". E argumentam, e fundamentam o fundamentalismo que me choca.
Se a escola fosse a minha Escola, este seria um móbil de discussão e análise.
Estou a doer por dentro. Mesmo.

terça-feira, outubro 09, 2007

Avaliação da escola. E o que eu penso sobre avaliação, a incidência no processo, os perfis individuais, a reflexão conducente à mudança a encherem-me a cabeça, a complicarem-me a tarefa atribuída. Pedem-me, sugerem-me, que recolha dados para outros avaliarem e reflectirem. Convém que a avaliação seja positiva, Bom, pelo menos... E tem de ser objectiva. Como se não há dados? Estou cansada. Cansada da improdutividade do meu esforço. Do esforço da equipa empenhada que integro.
Está a ser um ano difícil, complicado, de choques constantes com os meus pensares. Como eu queria poder dizer o que penso, sem ser interpretada como terrorista ou mal intencionada! Como eu gostava de poder assistir, na minha escola, ao recuperar do hábito de conversar e trocar opiniões. Sem vencidos nem vencedores. Sem guerra. Apenas, e simplesmente, conversar e argumentar, confrontar opiniões e visões. Sinto-me perdida e limitada. Intelectualmente castrada.
Onde ficou o sonho de Sebastião da Gama?
Pelo sonho é que vamos... Íamos!!

domingo, outubro 07, 2007

Tenho todo o tempo do mundo para. Para não saber o que fazer com ele! Para o preencher de recordações a doer, de sentires exacerbados, de cumplicidades por construir, de desilusões e receios. Agora, o tempo faz-se dolorosamente comprido nos fins-de-semana e eu sinto que, com tanto tempo para gastar, a consciência fica nua demais, a razão exageradamente lúcida e os sentires num molho de difícil desenlear.
Tenho o tempo todo deste domingo comprido. Domingo de sol ainda, de resto de fim-de-semana exagerado, de fim de tarde apetitoso. Olho a rua, afago a cabeça do Buda e vejo passarem imagens de outros tempos. Como aquela imagem, fantástica!, da viagem à Suiça com o meu Pai a comandar a família, a deixar ver os monumentos… por fora! Ele dizia sempre que os países, as cidades, se conhecem na vida que as pessoas vivem. Nos restaurantes, nas ruas, no trânsito, no tipo de habitações. Não gostava de levar horas nos Museus, ria-se das nossas pretensões intelectuais e garantia que não nos arrependeríamos de o seguir. Eu nunca me arrependi de facto. Ainda agora, com o tempo todo para fazer o que quiser, mais me encanta dar um passeio de automóvel, subir a Marvão, espreitar a barragem, respirar o mar, do que fechar-me num cinema ou Museu. Tenho tantas recordações boas! Más também, claro. Muito dolorosas as partidas, as faltas. As noites compridas, imensamente compridas, sentindo doer a ausência do corpo ao lado, a cama grande demais, o armário cheio de roupa de mulher. Tenho saudades de roupa de homem no meu armário. Ele, que partiu ficando sempre presente no sorriso das filhas, nas refilices também, faz-me muita falta. Porque o tempo todo do mundo é para ser gasto a dois, penso eu! Porque, quando os filhos partem, o tempo deve reinventar-se na cumplicidade terna dos dois. Deve ser então que a expressão “tu e eu somos nós” faz sentido. Para mim, não fará mais sentido. Como não faz agora sentido contar ao Buda dos medos de doenças possíveis, falar-lhe da imensidão da cama, da ausência dolorosa do after shave dele na casa de banho.
Agora, com todo o tempo do mundo, o mundo todo não me enche o tempo.

sexta-feira, outubro 05, 2007

Implantação da República. Feriado! Eu, que sou republicana, arrepio-me sempre nesta data pela violência do regicídio mas, sobretudo, por adivinhar o sofrimento da Mãe-Mulher que, de uma só vez, viu morrer o marido e o filho. Imagino-a muitas vezes, de pé, alta demais, tentando proteger os seus homens com um ramo de flores... Admiro esta mulher. Porque veio de longe, porque sofreu, porque amou um povo que assistiu tranquilo aos seus desgostos.
Acho fantástica a ideia de lutar contra tiros com flores!! Se não lhes salvou a vida, pelo menos regou de poesia o momento.
Quase 100 anos depois, foi em 1908 o regicídio, há muitas mulheres que continuam a lutar pelo Amor. Seja ele o da família, ou outro. Há mulheres que, felizmente, são diferentes dos homens e os amam, e protegem, e mimam e desejam... Neste mundo tão complicado, com tanta parangona inútil, ser MULHER continua fazendo sentido. Acho eu.

quinta-feira, outubro 04, 2007

Roma desorganizada. Ruído, brilho, fumo, receio de ser assaltada. Pressa de partir, Pádua e Florença no destino. Aí a beleza fantástica, os ambientes sugestivos, a descoberta do hall quente do Hotel, o desejo de ser prosaica mesma, foleira até, lembrando filmes antigos, sonhando ousadias, aquecendo as mãos no bolso dele antecipando o prazer. Muitos prazeres. Pádua a seguir a Florença. A catedral, o Santo também português, e o desejo de tentar a curiosidade dos santos e anjos na vivência de prazeres que nem eles jamais experimentaram.
A realidade, trancada a nove chaves no fundo da mala.

segunda-feira, outubro 01, 2007

Há um poema qualquer de Pessoa, ou de Álvaro de Campos, o que é substancialmente diferente, em que se afirma que "O sentido que isto tem/é não ter sentido nenhum". A minha vida faz eco da magia do poema!

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