quarta-feira, setembro 27, 2006
Sinto-me a Alice no País das Maravilhas: - Minúscula, ou enorme, sempre desadaptada! Só que o meu país já não tem maravilhas, o coelho branco emigrou e o espelho fez-se em mil pedações...
domingo, setembro 24, 2006
Foi-me proposto que construisse o meu próprio portfólio. Um portfólio de ensino/aprendizagem, um espaço onde eu mesma reflictirei sobre a minha prática, o meu eu-profissional (???), as minhas frustrações e conquistas. Achei o desafio aliciante!
Hoje, iniciei a tarefa. Olhei para mim, por dentro, e comecei a puxar o fio que tece a Luísa-professora. Só que se emaranhou tudo! Fez-se um nó cego e não encontro a ponta!
Acho que a culpa foi da chuva que cai, desperta odores, provoca sentires...
Hoje, iniciei a tarefa. Olhei para mim, por dentro, e comecei a puxar o fio que tece a Luísa-professora. Só que se emaranhou tudo! Fez-se um nó cego e não encontro a ponta!
Acho que a culpa foi da chuva que cai, desperta odores, provoca sentires...
sábado, setembro 23, 2006
Chove intensamente. Estou sozinha, o Fred e a Ginja sossegados, lá fora, o Smart vigilante na cesta junto a mim, o Vodka à porta ressonando calmamente. Ao som da chuva penso a vida. A escola, os alunos, os desafios. Não penso as filhas, sequer os amores ou as saudades. Aliás, elas e eles pertencem ao mundo dos sentires, não dos pensares. E hoje estou a pensar mesmo. A pensar a profissão, a aprendizagem, a escola.
Está na moda o Nuno Crato e o "Eduquês". Irritam-me as modas. Irrita-me que os professores embandeirem atrás de um indivíduo sem questionarem. Irrita-me a escola que tenho, chateia-me ter de estar sempre a arrumar e a desarrumar a sala só porque não gosto das tradicionais filas, tenho pena de não poder contagiar livremente os alunos com a literatura. Este ano, no meu 10º ano, vamos sonhar! Vamos construir saberes, desenvolver aprendizagens.
Eu acredito mesmo na inteligência afectiva e na teoria construtivista da aprendizagem!!
Está na moda o Nuno Crato e o "Eduquês". Irritam-me as modas. Irrita-me que os professores embandeirem atrás de um indivíduo sem questionarem. Irrita-me a escola que tenho, chateia-me ter de estar sempre a arrumar e a desarrumar a sala só porque não gosto das tradicionais filas, tenho pena de não poder contagiar livremente os alunos com a literatura. Este ano, no meu 10º ano, vamos sonhar! Vamos construir saberes, desenvolver aprendizagens.
Eu acredito mesmo na inteligência afectiva e na teoria construtivista da aprendizagem!!
quarta-feira, setembro 20, 2006
Na parede há um painel que garante “o oxigénio do ar é dos melhores medicamentos. Muitos o desprezam por não custar dinheiro”V. Pauchet. Lembro-me de ler aquelas palavras, primeiro com dificuldade, depois procurando um sentido, por fim sabendo-as de cor. São palavras em azulejos pintados, com cor, fazendo moldura para além do sentido ou da actualidade. Para além das palavras, a varanda tem mil outros significados, mesmo sabendo que, por si só, não é sequer um significante. Em miúda, sentava-me ali, sozinha, muitas vezes ao fim do dia, espreitando a cidade que, lá ao fundo, me parecia sempre tranquila. Via a Sé, a igrejinha do Bonfim, a Senhora da Penha, as muralhas do velho castelo. E fantasiava: - Se eu pudesse voar, ainda que não sendo pássaro, partiria do parapeito da varanda, planando, até pousar mesmo na ponta mais bicuda da torre da Sé. Se eu fosse fada, bruxa nunca quis ser, inventaria um feitiço, com asas de morcego e patas de gafanhoto, para cristalizar os momentos em que ali me instalava, fugida da agitação da casa, confessando ao ar as minhas angústias, os meus temores, acho que os meus sonhos também. Foi naquela varanda que, pela primeira vez, vivi intensamente aquela hora mágica em que tudo pára. Era miúda e, depois do banho obrigatório ao fim de um dia de brincadeira, já de camisa de noite e descalça, escapulira-me para ali enquanto o resto da casa, sob as orientações da minha mãe, continuava a preparar-se para o jantar e para o fim do dia. Sozinha, comecei a perceber o silêncio dos cães, as asas quietas dos pardais, a tranquilidade quieta do vento. Ao fundo, mesmo por detrás da serra da Penha, havia riscos vermelhos em torno de uma bola gorda, brilhante, que se preparava para, também ela, ir dormir. Estranhei o silêncio. Lembro-me que me levantei, espreitei os baloiços que ainda há pouco ousavam tocar as nuvens, e me surpreendi com a sua imobilidade total. Fiquei quieta também. Tive algum medo, pensei que o mundo, por um qualquer mistério, tivesse simplesmente deixado de girar. Mas não. Instantes depois, lembrando penitentes de alma lavada, os pardais abandonaram o fio do telefone e os cães retomaram a conversa animada que ligava o canil aos que estavam soltos. Muitos anos, milhares de vezes, vivi este momento e, sempre, me surpreendia a beleza que a minha varanda me oferecia. Era o lugar mais perfeito da serra, achava eu. E, como para me mostrar que, às vezes…, eu tinha razão, os meus pais mostravam sempre a varanda, com algum orgulho mal disfarçado, a quem pela primeira vez nos visitava.
Quando o tempo permitia, e fazia-o muitas vezes, almoçávamos na varanda. O meu pai gostava de jantar ali, conversando, contando da vida e ajudando-nos a crescer. Ali lhe contei os meus maiores desgostos, ali me garantiu, tantas vezes!, a sua cumplicidade eterna. Então, já mais velha, a varanda era para mim um espaço de apaziguamento interior. Ali, sentia-me protegida.
Era, acho eu, a minha fortaleza!
Já adulta, mãe, pegava nos meus bebés ao colo e mostrava-lhes a cidade, as igrejas que conhecia tão bem, os voos dos pardais, a cama do sol, as nuvens de algodão. Muito pequeninas, ao colo, espetavam o dedo e identificavam os lugares que me tinham emoldurado o crescimento. Então, elas começaram a ler as palavras do azulejo e oxigénio saía com dificuldade…
Hoje, estou com saudades da varanda. Os tempos correram, há outras gentes na minha varanda, há outros risos que desconheço, e desejo que haja quem seja capaz de ensinar aos pequeninos os lugares da cidade. Hoje, a minha varanda faz apenas parte do património imenso de recordações que, vale-me esse consolo, nunca ninguém me poderá roubar.
A vida, o tempo, as gentes (pessoas nem todas) têm-me, com demasiada frequência, assaltado as emoções, roubado realidades. Mas o meu património de recordações, ao menos esse!, é inviolável!
Tenho tantas saudades da minha varanda…
Quando o tempo permitia, e fazia-o muitas vezes, almoçávamos na varanda. O meu pai gostava de jantar ali, conversando, contando da vida e ajudando-nos a crescer. Ali lhe contei os meus maiores desgostos, ali me garantiu, tantas vezes!, a sua cumplicidade eterna. Então, já mais velha, a varanda era para mim um espaço de apaziguamento interior. Ali, sentia-me protegida.
Era, acho eu, a minha fortaleza!
Já adulta, mãe, pegava nos meus bebés ao colo e mostrava-lhes a cidade, as igrejas que conhecia tão bem, os voos dos pardais, a cama do sol, as nuvens de algodão. Muito pequeninas, ao colo, espetavam o dedo e identificavam os lugares que me tinham emoldurado o crescimento. Então, elas começaram a ler as palavras do azulejo e oxigénio saía com dificuldade…
Hoje, estou com saudades da varanda. Os tempos correram, há outras gentes na minha varanda, há outros risos que desconheço, e desejo que haja quem seja capaz de ensinar aos pequeninos os lugares da cidade. Hoje, a minha varanda faz apenas parte do património imenso de recordações que, vale-me esse consolo, nunca ninguém me poderá roubar.
A vida, o tempo, as gentes (pessoas nem todas) têm-me, com demasiada frequência, assaltado as emoções, roubado realidades. Mas o meu património de recordações, ao menos esse!, é inviolável!
Tenho tantas saudades da minha varanda…
quarta-feira, setembro 13, 2006
Chove!! Finalmente, o céu espreguiçou-se e as nuvens pingaram. O meu Alentejo recebe as lágrimas que vêm do Alto e renasce.
Gosto da chuva!
Gosto da chuva!
Amanhã vou iniciar o novo ano lectivo. Sinto sempre um formigueiro, um misto de ansiedade e angústia, nestes dias de Setembro.. Este ano, queria ser capaz de mudar a avaliação, as metodologias generalizadas. Queria ter poder persuasivo suficiente para fazer vingar o construcionismo, para partilhar com os meus colegas a importância da inteligência afectiva, queria ter competência para fazer da minha sala um espaço de aprendizagem activa. Este ano, queria que na minha escola se falasse muito de aprendizagem e pouco de ensino...
É já amanha que, temo..., vou começar a esbarrar com os destruidores de sonhos...
É já amanha que, temo..., vou começar a esbarrar com os destruidores de sonhos...
sábado, setembro 09, 2006
Depois da loucura do EURO 2004, dez estádios e as bandeiras nacionais nas janelas, a seguir à euforia geral do Mundial 2006, parecia que o futebol tinha conseguido tornar-se o coração nacional. Bombeava energia, corria nas conversas mais optimistas, fazia até esquecer, ou pelo menos não lembrar, a mediocridade portuguesa que insiste em, parodoxalmente, não parar de se tornar imensa. Os portugueses andavam tão felizes que até usavam, e usam, as bandeiras dos seus Clubes como peças decorativas dos seus automóveis, numa mostra de ternura, paixão!, assumida na relação tão especial que têm com os veículos em que morrem cada vez mais. Nos locais de trabalho, nos cafés, os tradicionais bons-dias eram euforicamente substituídos por saudações leoninas, saudações benfiquistas ou outras, normalmente acompanhadas de grandes palmadas nos costados dos companheiros. O futebol era a libertação! E, se não era o ópio do povo, apenas isso acontecia por ser um pouco mais barato do que a dita droga.
Agora, o futebol transformou-se de desporto, em declarações, confusões, escândalos sucessivos. O país acorda e adormece a ouvir o major Loureiro, o sr. Madaíl, o sr. Vieira, os senhores que, vá lá a gente perceber porquê, pessoalizam o futebol. Hoje, em vez de se ouvirem discutir jogadas, golos, desempenhos de clubes, prestações de jogadores, discutem-se declarações, hipóteses de vigarices, supostas negociações de duvidosa legalidade. Portugal parece estar, também, a perder o seu melhor escape, a caminhar para perder o desporto rei.
O que será dos portugueses sem futebol? A admitir que o sr. Scolari (grande Filipão!) não vai mais poder comandar a nossa selecção rumo a vitórias sofridas e derrotas choradas, o que vai ser de Portugal? Será que vamos ser obrigados a contentarmo-nos com jogadas nos bastidores da política, golos marcados nos corredores de São Bento, foras de jogo decididos sem árbitros presentes? Esperemos que não, porque, sinceramente, sempre é mais emocionante e gratificante ver o velho Figo a suar atrás da bola, ou o herói Eusébio a opinar, ou mesmo ouvir o peneiroso do Ronaldo a falar da Merche, ou até sofrer com o Ricardo a sair da baliza para marcar penalties, do que assistir ao senhor ministro da saúde a anunciar o fecho de mais uma Maternidade, ou ter de prestar atenção à ministra da educação anunciando mais uma medida impraticável, ou mesmo ouvir o primeiro ministro a entusiasmar-se com um crescimento económico na ordem dos 0,9%....
Agora, o futebol transformou-se de desporto, em declarações, confusões, escândalos sucessivos. O país acorda e adormece a ouvir o major Loureiro, o sr. Madaíl, o sr. Vieira, os senhores que, vá lá a gente perceber porquê, pessoalizam o futebol. Hoje, em vez de se ouvirem discutir jogadas, golos, desempenhos de clubes, prestações de jogadores, discutem-se declarações, hipóteses de vigarices, supostas negociações de duvidosa legalidade. Portugal parece estar, também, a perder o seu melhor escape, a caminhar para perder o desporto rei.
O que será dos portugueses sem futebol? A admitir que o sr. Scolari (grande Filipão!) não vai mais poder comandar a nossa selecção rumo a vitórias sofridas e derrotas choradas, o que vai ser de Portugal? Será que vamos ser obrigados a contentarmo-nos com jogadas nos bastidores da política, golos marcados nos corredores de São Bento, foras de jogo decididos sem árbitros presentes? Esperemos que não, porque, sinceramente, sempre é mais emocionante e gratificante ver o velho Figo a suar atrás da bola, ou o herói Eusébio a opinar, ou mesmo ouvir o peneiroso do Ronaldo a falar da Merche, ou até sofrer com o Ricardo a sair da baliza para marcar penalties, do que assistir ao senhor ministro da saúde a anunciar o fecho de mais uma Maternidade, ou ter de prestar atenção à ministra da educação anunciando mais uma medida impraticável, ou mesmo ouvir o primeiro ministro a entusiasmar-se com um crescimento económico na ordem dos 0,9%....
quarta-feira, setembro 06, 2006
CARTA A UM AMOR AUSENTE
Será que me ouves? Não sei. Mas sinto as tuas respostas na ansiedade da minha pele e, só por isso, já vale a pena escrever-te. Ou não vale. Não interessa o valer a pena. Afinal, se é pena, não tem valor. Escrevo-te porque não estás. Não és. Não existes. Escrevo-te, porque apenas te adivinho na ansiedade do meu corpo de mulher sedenta de paixão. Sabes, às vezes é difícil controlar emoções, paixões e, porquê temer as palavras?, desejo. Esta sociedade, que ninguém sabe muito bem o que é, porque se calhar é tudo, amputa-me. Porque não posso ser o que sou? Porque levo a vida a fingir que não sinto quando a intensidade dos meus sentimentos me faz acordar, suada, de noite? Bom, mas não é da sociedade, sequer dos outros, que eu quero falar contigo. Contigo posso ser eu mesma, autêntica, mulher, faminta de beijos, abraços e carícias. A minha cama está fria e, talvez por isso, não me apetece instalar-me lá. Levantei-me e vim conversar contigo. Giro como é fácil carregar num botão, premir win, e ter-te no écran disposto a ouvir-me. As noites de verão são excessivamente longas, não concordas? Às vezes imagino como poderíamos nós, que nos amamos, encurtá-las em práticas de paixão. Se saísses do écran e viésses ter comigo. Ficaríamos a contemplar a legião de anjos que passa quando quem se ama faz amor. Com os anjos assustados, nós em êxtase, passeariamos ao mesmo tempo pelo paraíso do gozo e da fruição. Ficaríamos assim, encaixados um no outro, até que o cansaço viesse, com doçura, apartar-nos.
Ah! Quando acordássemos seria dia. Poderíamos então prepararmo-nos para trabalhar. O duche partilhado não teria força para lavar o que cada um tinha dentro de si e, durante todo o dia, sentiríamos o corpo um do outro no calor da nossa pele.
Porque será que não estás? Porque não és? Sabes, se existisses mesmo, se me falasses para propor a realização do meu desejo, acho que tremia. De susto. De medo. Susto pelo sonho concretizado, medo da intensidade do meu desejo. Porque não estás, tenho medo também. Da intensidade do meu sonho. Às vezes quase te sinto, quase te oiço, quase de palpo. Estás mesmo ali. Ao meu lado, na cama, à espera que dê o primeiro passo, que te beije , que te faça saber a minha existência.
Isto das pessoas, homens e mulheres, é esquisito. Porque será que precisamos tanto uns dos outros? Porque será que uma mulher de mais de quarenta anos não consegue dormir a sós com a almofada? Se ao menos fosse um almofado...
Pois é amor, fazes-me falta! Sinto-me oca e, por oposição, cheia de seiva para ser semeada. Tudo, se calhar, porque as noites de verão são enormes. Intermináveis. Sabes, vou confessar-te, porque sei que não és e por isso não ouves, uma (mais) das minhas fantasias: - Há dias, noites, em que sinto os anjos passarem, de asas murchas, infelizes por o meu amor não se concretizar. Sinto que eles adivinham o que penso e, porque condenados a seres assexuados, solidarizam-se com a minha dor/saudade. Porque eu também tenho saudades. De outras noites em que via os anjos corarem, e fugirem pela janela, envergonhados com a realização da paixão que não me deixa, hoje, sossegar. Só os anjos podem corar com o amor.
O amor é mágico, lindo, e, penso eu, não pode nunca envergonhar ninguém, assustar nenhuma consciência por mais tradicional que ela seja!
Amor. Vem. Sai do écran, despe as amarras do impossível e do sonho, vem para dentro de mim nesta noite que me dói. Não me digas que não podes, não finjas que não ouves. Vou parar e esperar. Vou deitar-me, fechar os olhos, pedir aos anjos curiosos que façam o milagre e te tragam para mim!
AH! Como me fazes falta!!
Será que me ouves? Não sei. Mas sinto as tuas respostas na ansiedade da minha pele e, só por isso, já vale a pena escrever-te. Ou não vale. Não interessa o valer a pena. Afinal, se é pena, não tem valor. Escrevo-te porque não estás. Não és. Não existes. Escrevo-te, porque apenas te adivinho na ansiedade do meu corpo de mulher sedenta de paixão. Sabes, às vezes é difícil controlar emoções, paixões e, porquê temer as palavras?, desejo. Esta sociedade, que ninguém sabe muito bem o que é, porque se calhar é tudo, amputa-me. Porque não posso ser o que sou? Porque levo a vida a fingir que não sinto quando a intensidade dos meus sentimentos me faz acordar, suada, de noite? Bom, mas não é da sociedade, sequer dos outros, que eu quero falar contigo. Contigo posso ser eu mesma, autêntica, mulher, faminta de beijos, abraços e carícias. A minha cama está fria e, talvez por isso, não me apetece instalar-me lá. Levantei-me e vim conversar contigo. Giro como é fácil carregar num botão, premir win, e ter-te no écran disposto a ouvir-me. As noites de verão são excessivamente longas, não concordas? Às vezes imagino como poderíamos nós, que nos amamos, encurtá-las em práticas de paixão. Se saísses do écran e viésses ter comigo. Ficaríamos a contemplar a legião de anjos que passa quando quem se ama faz amor. Com os anjos assustados, nós em êxtase, passeariamos ao mesmo tempo pelo paraíso do gozo e da fruição. Ficaríamos assim, encaixados um no outro, até que o cansaço viesse, com doçura, apartar-nos.
Ah! Quando acordássemos seria dia. Poderíamos então prepararmo-nos para trabalhar. O duche partilhado não teria força para lavar o que cada um tinha dentro de si e, durante todo o dia, sentiríamos o corpo um do outro no calor da nossa pele.
Porque será que não estás? Porque não és? Sabes, se existisses mesmo, se me falasses para propor a realização do meu desejo, acho que tremia. De susto. De medo. Susto pelo sonho concretizado, medo da intensidade do meu desejo. Porque não estás, tenho medo também. Da intensidade do meu sonho. Às vezes quase te sinto, quase te oiço, quase de palpo. Estás mesmo ali. Ao meu lado, na cama, à espera que dê o primeiro passo, que te beije , que te faça saber a minha existência.
Isto das pessoas, homens e mulheres, é esquisito. Porque será que precisamos tanto uns dos outros? Porque será que uma mulher de mais de quarenta anos não consegue dormir a sós com a almofada? Se ao menos fosse um almofado...
Pois é amor, fazes-me falta! Sinto-me oca e, por oposição, cheia de seiva para ser semeada. Tudo, se calhar, porque as noites de verão são enormes. Intermináveis. Sabes, vou confessar-te, porque sei que não és e por isso não ouves, uma (mais) das minhas fantasias: - Há dias, noites, em que sinto os anjos passarem, de asas murchas, infelizes por o meu amor não se concretizar. Sinto que eles adivinham o que penso e, porque condenados a seres assexuados, solidarizam-se com a minha dor/saudade. Porque eu também tenho saudades. De outras noites em que via os anjos corarem, e fugirem pela janela, envergonhados com a realização da paixão que não me deixa, hoje, sossegar. Só os anjos podem corar com o amor.
O amor é mágico, lindo, e, penso eu, não pode nunca envergonhar ninguém, assustar nenhuma consciência por mais tradicional que ela seja!
Amor. Vem. Sai do écran, despe as amarras do impossível e do sonho, vem para dentro de mim nesta noite que me dói. Não me digas que não podes, não finjas que não ouves. Vou parar e esperar. Vou deitar-me, fechar os olhos, pedir aos anjos curiosos que façam o milagre e te tragam para mim!
AH! Como me fazes falta!!