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sábado, julho 31, 2004

Até as férias carregam o peso social. É preciso fazer férias, ganhar cor, falar dos sítios in que se visitaram. É preciso continuar a usar a máscara do correcto e aplaudido.Os sentires, os passeios a dois pela borda do mar, os cabelos desalinhados, os beijos a saber a sal, não têm permissão para sair dos sonhos incorrectos.
Eu só sonho incorrecto...

quinta-feira, julho 29, 2004

Porque o calor continua, de novo o avião me tentou. Hoje fazia um risco só, largo, denso, sugerindo um aparelho grande e poderoso.
Entrei a bordo e escolhi o meu destino: - Siena (- Ah! Siena!! - ) e a praça recebeu-me entusiasmada, as velhas pedras murmuraram segredos, as mesas sujas de cervejas ancestrais sorriram-me cúmplices. Bebi um vinho ,- branco e frio -, olhei o sol e parti para o Hotel. Lá, o sonho tomou o controlo do voo sem rumo. Inconfessável. Inanarrável.
Voltei à minha piscina, já não havia avião no céu. Agora, era o meu desejo sonhado que voava sem deixar rasto sequer.

quarta-feira, julho 28, 2004

A água da piscina sabe bem, refresca o corpo, engana a alma. Saio da água e abandono o corpo na cadeira de riscas, cor do mar!, que me deixa o céu como cenário. Passa um avião, deixa dois riscos no céu, não faz barulho. Aproveito a boleia e entro nele também, rumo a um país que não é.
Não aperto o cinto, não aceito a bebida que a hospedeira oferece. Peço champanhe, francês mesmo, subo mais alto ainda levada pelas bolinhas da bebida amarela. Chego.
É um lugar lindo! As rosas não têm espinhos, o sol não queima, o hotel tem o mar em frente e os lençóis brancos da cama não se desentalam nunca. Eu ouso. Aqui não há interditos, ameaças, amanhã. E eu estico o agora em ternuras feitas de muito corpo e imensa entrega. É bom!
Suada, volto à piscina, abandono a cadeira cor de mar e retorno aos sobreiros da minha existência.
É bom haver aviões...

terça-feira, julho 27, 2004

Voltou o fogo ao meu triste país. Da minha Serra, com a nogueira encolhida e os melros em voos loucos, vejo arder a Penha. Há fumo denso, negro, irrespirável. Há carros vermelhos, homens suados, gente que grita na ineficácia de fazer parar a morte que queima. A capelinha salvou-se. Ficou ainda mais isolada, brancura-mascarrada, montinho no meio das cinzas, Nossa Senhora chorosa sem ser apenas por culpa do fogo...
Voltou o fogo!!




segunda-feira, julho 26, 2004

Calor, calor, calor!! Suamos todos, muito, cobre-se a pele de líquido pegajoso e incómodo. Calor! E não se suam as maldades, nem as chatices, só mesmo a energia parece desaparecer...


quinta-feira, julho 22, 2004

E a saudade não pára de crescer. Desejos de casa, de cheiros conhecidos, de cama com cova de corpo sentido. Desejos, por oposição?, de fuga de tudo, deste espaço de existir, para um mundo de ser-sentires. Tudo, apenas, desejos.

segunda-feira, julho 19, 2004

Silogismo (justificativo?) de (algumas?) paixões:
 
"Os homens existem para ser amados.
O amor não é explicável, porque pertence ao mundo das emoções.
A razão é desprovida de emoção.
Logo: - Os homens, se se amam, não se compreendem!"
 
Ah! Apetece-me ser prosaica...

Juntam-se professores, fala-se de ciência, de comunicação, de actos, ilocutórios e outros, de acção. Despe-se a palavra de histórias de sentidos e desmontam-se intenções. De repente, tudo fica oco. Onde estão as pessoas? Os olhares que amam, as mãos que se tocam, os corpos que se fundem? Onde cabe a humanidade, a que dá lugar aos Poetas, a que acolhe ainda o faz de conta do texto? Olho, procuro, e esbarro nos deícticos, na pragmática, na textualização de vazios.
Então, por aquela janela que alguém deixou aberta, vou embora. Vou procurar o lugar onde a comunicação ainda é possível, onde o sonho - esse amontoado de impossíveis desejados -, tem lugar para mim. Lá, também há crianças com vontade de aprender. E falo-lhes das cores das vírgulas, da música das palavras, da textura do verbo, do sabor da frase.  Eles contam-me, ignorando pragmáticas e semânticas, do mundo a haver. E a semiótica é recriada: - Signos e símbolos de ser feliz...

quinta-feira, julho 15, 2004

Lisboa é imensa. E parece-me tudo tão ridiculamente exíguo...

Não sei se a solidão dói. Sei que faz feridas, umas fundas, outras de fácil cicatrização. Sei, também, que a solidão no meio da multidão não é uma imagem poética: - É a experiência dorida...
Às vezes, é a solidão que nos salva!

domingo, julho 11, 2004

Fui ver o sol a despedir-se de um dia de Verão. Parecia estar com medo. Ou talvez com vontade, apenas, de não deixar Marvão e mergulhar, devagarzinho, na barragem da Apartadura. Pensei nos apertos, também duros..., do quotidiano.
Mas a água estava linda, o raio de sol atrevido, Marvão esperando... Chamei em silêncio gritado os meus fantasmas bons, os que se vestem de seda, sacodem nuvens, trazem mãos de magia. Vieram logo, escorregando pelo raio de sol, e falaram-me dos sonhos que vale a pena sonhar. Não quiseram saber de "mas", nem de "e depois", sequer de "pois...". Traziam cestos de verga carregados de doces de possíveis! Comi um doce de desejo, um chupa-chupa de fé e um bolo imenso de esperança.
Agora, quero fazer a digestão bem devagarzinho. Como o raio de sol a ir embora!!

sábado, julho 10, 2004

Pensou, pensou, interrogou, pensou e, finalmente!, decidiu: - Não vai haver eleições antecipadas!
Aí, a esquerda portuguesa mostrou a sua noção de Democracia: - Não aceita, insulta, protesta, bate com a porta.
Lindo país! Como é bom viver em democracia...Minúscula, mas popularucha.

quarta-feira, julho 07, 2004

Continua o sol, desde a eternidade?, a deitar-se todos os dias, a acordar sempre igual. Às vezes, talvez envergonhado com o que vê, puxa até aos olhos os lençóis de nuvens. Mas a humanidade nem repara, afinal há tanto fumo no ar, tanta poluição no céu... Eu também sinto a poluição. A humana mesmo, feita de inveja má, de saudade dura, de mágoa de sempre.
Queria o Frei Abóbora aqui comigo, chamando-me Toujours, fazendo os anjos corarem de vergonha e escrevendo nos impossíveis as vivências da cumplicidade total!

sábado, julho 03, 2004

Morreu Sophia de Mello Breyner. Com ela foi um mundo de sonhos meus. Sonhos de Mar, de casas brancas, de tempos de chacais, de retorno ao caos, de procura da ordem desordenada do início das coisas.
Sophia trazia-me a palavra nua, autêntica, incapaz de se prostituir. Com Sophia chorei muito. Ri também. Sonhei...
Agora, Sophia vai voltar. Para o mar. Eu fico mais sozinha.
E tenho saudades do mar...

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