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segunda-feira, outubro 25, 2004

É cedo hoje, pouco mais de sete da manhã. Acordei eu, o Smart e os melros gordos. Acordou também o vento, que chega hoje húmido. Vou para Sintra. Vou procurar o Carlos da Maia, os bigodes lânguidos do Alencar, as belezas da cidade dos amantes. Só espero que não me esqueçam as queijadas...

domingo, outubro 24, 2004

É sempre assim no domingo à noite. Acaba o fim de semana, retorna cada um à sua vida e a solidão reinstala-se no espaço desarrumado. Hoje, chove. E eu quero fugir à banalidade de deixar chover dentro de mim, quero acreditar que é bom estar vivo, que faz bem ver partir todos e que é importante olhar cada semana como um presente sempre renovado. Mas custa tanto fingir... Ainda por cima, junto hoje ao meu serão de domingo uma raiva-frustrada e triste perante o meu quotidiano profissional.
É mesmo mau ser-se professor em Portugal! Não por causa das colocações, mas sim pela ignorância que nos pedem, exigem!, que mantenhamos. Queria tanto, hoje e agora, estar a acreditar numa sala de aula diferente, criativa, cheia de saberes a descobrir. E sei, "cum saber de experiência feito" - até esse eliminado!, que o meu Governo me exige que ensine pouco, que não deixe desenvolver-se o espírito crítico, que não desafie os jovens a ousar.
Que pena. É que era possível mesmo, sem sequer se gastar mais dinheiro, ensinar de verdade e educar a sério...

sexta-feira, outubro 22, 2004

Às vezes existir dói, cansa, magoa. A gente mal dá por isso e esbarra com força no faz de conta, na realidade-que-não-é, vendo esboroarem-se sonhos na parede concreta do real-vida-verdade. Nessas horas, e minutos, e dias também, vejo em retrospectiva uma existência gasta, mais de 40 anos de sonhos adiados, recupero os instantâneos de Felicidade e faço-os render o máximo possível. Mas começam a ficar curtas as recordações... Eu cresci demais, talvez.

quinta-feira, outubro 21, 2004

Queria hoje voar. Partir para um destino longínquo, trocar as voltas à vida, adormecer num espaço diferente a partilhar um pequeno almoço em língua estrangeira. Florença, talvez. Algo mágico, a cheirar a história, com Arte viva. Queria partir. Queria, e dói-me o desejo intenso que experimento, poder abandonar tudo, ignorar a minha realidade, e ser diferente por uns dias.
Mas - malditas adversativas! - não posso. Vou ficar aqui, acabar mais uma semana e começar outra igual. Vou continuar a fingir a correcção que não quero, a compreensão que não tenho, a calma que desconheço.
Que chatice não poder ser um livro de possíveis.

quarta-feira, outubro 20, 2004

Uma e meia. Hora de almoço. Mas o almoço sozinha é rápido e, por isso, sobra tempo. Tempo para solidão com perfume a café, tempo para abrir a janela do blog. Tempo, enfim, que posso luxuosamente gastar como me apetecer.
Não é hábito meu entrar aqui durante o dia. E como me sabe bem quebrar hábitos, transgredir conscientemente, ousar provocar a diferença. Se eu fosse capaz, se tivesse forças, quebraria com violência muitos hábitos, muitas regras. Abriria na existência tempo para o ócio, para o nada que faz cada vez mais falta num mundo cheio de coisa nenhuma... Mas eu não posso. Ou, se calhar, não me apetece. Por isso fico egoísta, fechada no meu canto, teclando solidão, registando mágoas, enganando a desilusão.
Curiosamente, às vezes sou feliz.

terça-feira, outubro 19, 2004

Lisboa. Capital de Portugal, capital europeia, cidade das sete colinas. Chove.
E, de repente, aí estão os portugueses, argonautas fora de prazo, transformados em elefantes que, em deselegante bailado, saltitam de pedra em pedra evitando os buracos dos passeios, as poças de água das ruas, os automóveis estacionados nos últimos pedaços de calçada resistente ao abandono dos últimos anos. Lindo! A gente salta, mete a pata na poça, pragueja, sacode, salta outra vez, encharca-se, insulta o país, volta a tentar a passada larga e... conforma-se.
É Lisboa. É Portugal!

sábado, outubro 16, 2004

Está frio lá fora. Frio bom, intenso, honesto, a pedir o calor do contraste cá dentro, na minha casa. Acendi a lareira, fiquei a saborear o cheiro bom da lenha que arde. Cá dentro de mim também cheirava bem. A saudades vivas. Autênticas.

quarta-feira, outubro 13, 2004

Dói-me a cabeça. Sem razão, se é que é preciso uma razão seja para o que for, começou a doer-
-me a cabeça com insistência. Incomoda a dor de cabeça. Sinto latejar, lembro-me de sonhos adiados, de desejos inconfessados, de apetites irracionais, e imagino-os chocalhando dentro de mim e fazendo com que me doa a cabeça. E quase tenho vontade de rir ao ver o meu desejo de um país diferente a dar uma cabeçada na barriga da minha vontade de fugir uns dias para a neve. Penso em tomar um comprimido, a minha adorada Aspirina!, mas chega a minha avó a sugerir o leite morno que, decididamente, não me apetece. Aliás, tudo o que menos desejo é morno. Quero força, energia, gelo ou fogo.
Mas dói-me a cabeça.

sábado, outubro 09, 2004

...e não consigo dormir! Oiço o vento, furioso talvez por chegar tão atrasado ao Outono anunciado. Oiço ainda o cão, lá fora, indiferente ao vento. Cá dentro, no meu quarto, oiço o silêncio da minha existência, a calma do sono que não chega. Para me entreter, porque nunca sei o que fazer com o bónus de tempo que cada insónia me oferece, oriento os meus sonhos acordados.
Vejo-me a fazer a mala, um saco grande onde nada arrumo, e a partir para um destino inexistente. Vagamente, ao longe, há uma melodia com palavras italianas. Será Sienna, a visita eternamente adiada, a tentar-me? Mas não há praças, hotéis sequer. A viagem segue, pela luz forte, com muitos melros loucos a quebrarem com força as nozes do chão. Sinto agora um abraço. Vem fechado, intenso, cheirando a desejo e companhia. Fecho os olhos para não me surpreender com a força da ilusão, e encosto ali os meus sentires. Balanço. Uma gôndola, talvez. Saboreio um café forte, bica com espuma, e deixo derreter-se na boca o chocolate negro que o abraço desembrulhou. Hummm... Sabe bem! É uma mistura exótica, há nenúfares e orquídeas.
Há o sono que não vem...

Vi hoje, pela sétima vez?, o Clube dos Poetas Mortos. Sempre me emociono, me indigno e revolto. Sempre, também, sinto a falta de Professores Keatings no sistema de ensino, no mundo..., actual. Ainda há quem roube aos jovens, e aos não jovens também, o direito ao eu próprio, o direito ao sonho.
Que este mundo é louco, ou feito de loucos, todos sabemos. No entanto, poucos são os que sabem que estes loucos, ainda por cima!, são de má qualidade. Porque são feitos de banalidades e matéria!!

quinta-feira, outubro 07, 2004

Tenho o Smart a dormir tranquilamente aos meus pés e invejo (coisa feia a inveja, mas real!) a vida de cão de luxo. Sim, porque cão de rua, daqueles escanzelados e cheios de pulgas e carraças, isso não é coisa que se inveje.
Mas a vida do Smart é invejável. Aqui, a aproveitar os últimos raios de sol da tarde que o velho sobreiro escoa, não está nada preocupado com o afastamento do Professor Marcelo, com a violenta estupidez da quinta das celebridades ou com o fim do mês que custa a chegar. Para ele a realidade é simples, e a amizade faz sentido! Olha-me no fundo dos olhos, começa já a adivinhar o meu estado d'alma e deita-se junto ao frigorífico quando lhe apetece leite fresco. Eu, quando me apetece o leite fresco, tenho de ir buscá-lo. Amizade? Começo a achar que é apenas uma entrada do dicionário. Para ele, sou eu.
Ah! Quem me dera ser cão! e, já agora, Smart...

terça-feira, outubro 05, 2004

Continua o calor. Incómodo, fora do tempo, a atiçar a saudade de chuva, vento, fresco bom carregado de energia. É feriado hoje, em Portugal. Um feriado sem sentido, uma data há muito esquecida. É feriado! Apenas a tentativa dos homens de prenderem tudo, de imortalizarem o tempo. Mas ele não se deixa prender e corre sempre, indiferente às datas que o calendário assinala, troçando das veleidades humanas.
Feriado. A existência em standby nas praias do Algarve, a miséria à espera nas ruas das cidades, nos campos abandonados.
Feriado. E acordei cedo na mesma, espreitei os pardais tontos de sono e sol, cumprimentei a nogueira carregada de nozes.
Feriado, muito cedo. Lembro outros feriados, longe, em que a cama fazia mais sentido e descansar sabia ainda a terra molhada.

domingo, outubro 03, 2004

Ele estava lindo. O olhar negro, o sorriso aberto, os cabelos alinhados, tentavam, sem êxito..., disfarçar a ansiedade/paixão que ele vivia. Sorria muito e, frequentemente, rodava no dedo o recente sinal de um futuro a construir. Ela, loira mesmo, era a personificação do Belo. Como ele, rodava o sinal abençoado. Por testemunha, para além dos muitos amigos, o Alentejo a perder de vista. Eu olhava-os e, sem controlo nos sentires, via-me a contemplar o meu sinal abençoado há muitos anos já. Esse sinal guardei-o, trancado, numa caixinha que muitas noites abro para recuperar os sonhos que a vida desfez.
Mas eles vão ser muito felizes! São lindos, jovens, cheios de fé e, eu juro que vi!, no momento solene o Alentejo afagou-os, de mansinho, numa carícia que os velhos sobreiros protegeram.

sexta-feira, outubro 01, 2004

Move-me intensa revolta! No meu país miserável, tudo vai para férias mais uns dias!!! Incrível! Apetecia-me pedir uma licença sem vencimento da vida.

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