segunda-feira, dezembro 31, 2007
Último dia do ano velho. Daqui a pouco, chega o Ano Novo, com direito até a maiúsculas. Depois, a vida continua igual: - aumentam os preços, desce o nível de vida, aumentam os impostos, surgem novas idiotices na educação, as pessoas continuam cultivando as aparências, passa o Carnaval, come-se cabrito na Páscoa, vai-se à praia, ou não, e assa-se o perú do Natal. Depois, será outra vez fim-de-ano. É tão original a vida!!
domingo, dezembro 30, 2007
Penúltimo dia do ano. Não deixa saudades. Mas, ao mesmo tempo, assusta-me a ideia de mais 365 dias (366!!) livres para me trazerem preocupações e desilusões... Estou cansada, levei o dia na cozinha, a minha casa cheira a assados, a doces também, o Buda está feliz com a fartura, e eu desejosa sei lá de quê. Se calhar, de verdade mesmo apetecia-me uma fada, mesmo que sem varinha, capaz de transformar o mundo, egoisticamento o meu..., nalguma coisa com sentido.
Penúltimo dia de 2007...
Penúltimo dia de 2007...
quarta-feira, dezembro 26, 2007
Com muita calma, reunindo os farrapos de paciência que 2007 estilhaçou, dispus-me a desfazer a mala e a arrumar, cuidadosamente, as vivências da minha viagem por 2007 na cómoda de gavetas sem fundo onde, num amontoado resistente à corrosão de muitas lágrimas, tento sempre arrumar os sonhos desfeitos, as desilusões vividas, as mágoas, as nódoas muito negras da minha existência. Comecei por tirar da grande mala a minha actividade profissional. Coitada, tão amarrotada!! Vinha embrulhada em medidas avulso, sem sentido, esborratada de ódio e com pinceladas, tão gastas…, de verde esperança. Lá estavam as mais recentes agressões: - A avaliação de desempenho de professores, a certificação de (in)competências e, ainda bem nítidas, as novas propostas/lei para gestão escolar. Não será mais um professor, lia-se ainda. E eu, tentando que aquela montanha de mágoa desaparecesse no fundo inexistente da dita gaveta da minha cómoda incómoda, pensava que talvez um aluno a liderar fosse boa hipótese. De preferência um de um Curso Profissional do Secundário, quem sabe? Ao lado, na barafunda da mala que tinha mesmo de arrumar, afinal uma viagem existencial de 365 dias dá azo a muita desarrumação, havia olhares curiosos, vontades de saber, gosto pela leitura, gargalhadas saudáveis, actividades absorventes, miúdos desejando ser pessoas. Tratei de salvar o meu achado. Guardei noutro lugar, num espaço de resistência, junto aos meus autores preferidos, pertinho dos heterónimos de Pessoa, de costas voltados para o Ricardo Reis, encostadinhos mesmo ao Alberto Caeiro. E continuei. Lá estava, agora, a politica do meu país. Brghhhh!! Que coisa pestilenta! Peguei com a ponta dos dedos, porque não tivera eu o cuidado de enfiar aquilo no saco da roupa muito suja?, e atirei para o gavetão de baixo da minha incómoda sem fundo. A mesma, claro! Acho que, num repente, quando olhei mesmo só para me certificar que nada ficava por fora, vi cair a mentira, a injustiça, a humilhação, a vergonha. Acho mesmo que vi rebolar para um canto, Deus queira que me tenha enganado…, uma série de ministros e de deputados rebolando entre palavras sem curso para formar um discurso sequer. Iam também marcas estrangeiras, estrelas da Europa talvez, passadeiras vermelhas e muitos euros a reboque. Ainda me lembrei do dinheirão gasto durante a Cimeira União Europeia-África, durante a Presidência Europeia em Portugal também, mas nem quis olhar com atenção. Era mesmo um cheirete insuportável… Voltei para a minha mala de viagem anual e Portalegre lá estava. Tristemente linda, a minha cidade. Branca, já não. Mas linda sempre… E peguei-lhe com a ternura que tenho por ela, com jeito para não me cortar na Quina das Beatas, com pena por não encontrar flores nos relvados que por cá se chamam jardins recuperados. Com ela na minha mão, reparei como cresceu o D. João III. Enorme, majestoso, um pouco assustador até. De facto, tudo depende da perspectiva. E há tantas perspectivas para ver Portalegre… Antes de, com cuidado, a colocar numa das gavetas de cima, ali mais à mão, num lugar onde com facilidade a minha saudade pudesse recuperá-la, dei mais uma espreitadela à vista da Serra. A Serra parece mais plana, a cidade mais espraiada, mas é Portalegre ainda. E, indiferente ao cheiro da massa frita, sem deixar cair as boleimas deliciosas do Mercado Municipal, arrumei tudo com mil cautelas. No meio da confusão da minha mala anual, via os meus sentires aos pulos, frenéticos e desalentados, quentes e gelados, cheios de vazios que não sei preencher. Resisti a tocar-lhes. Eu queria mesmo desfazer a mala e, sabia-o bem, se cedesse à tentação de organizar sentires, entraria na nova viagem, já a de 2008, com a alma húmida e sem espaço para novas aquisições. Porque, numa viagem, há sempre aquisições: - Fotografias, experiências, paladares, paisagens e postais. Tantos postais! Ali estava Londres, os amigos de verdade sorrindo, o esquilo em Hyde Park surpreendido. E Itália! Florença monumental, Siena de sentires, San Giminiagno de altas torres e chocolate quente iluminado, nevão nos Apeninos, saudades vivas, ausências presentes. Ah! As viagens….
E a mala ainda por despejar. E o tempo a voar, 2008 a arrancar e eu sem espaço para o receber!
E a mala ainda por despejar. E o tempo a voar, 2008 a arrancar e eu sem espaço para o receber!
Já está. Passou o Natal e, afinal, doeu menos do que eu temia... Agora, o tempo é de preparar o Ano Novo, festa outra vez, e, talvez por causa das bolhinhas do champanhe, ou se calhar do cálice de Porto por companhia, até estou tentada a reinventar a Fé na Humanidade!
Agora, fim de tarde gelado, luz transparente lá fora, apetece-me ficar olhando o lume só. Sem sustos, receios, sonhos ou temores. Vou parar o tempo e aproveitá-lo assim: imóvel!
terça-feira, dezembro 25, 2007
Devo ter-me portado muito melhor do que eu pensava... O Menino Jesus encheu-me de presentes fantásticos e, agora, começo o Dia de Natal ao som de ritmos latinos!! Arrumei a casa sambando e, de aspirador na mão, recuperei os últimos passos da rumba. Depois, fui à Missa, na Igreja do Bonfim, recordando o casamento lindo da Filipa, o tempo em que, com o meu Pai, chegava à Missa na hora do ide em paz e o Senhor vos acompanhe. Que saudades!!
Agora, vou tratar do bacalhau, das couves da minha horta, da mesa que quero linda porque é Natal!!
segunda-feira, dezembro 24, 2007
Tarde de véspera de Natal. Tarde de noite de consoada. Confusão de momentos. Fiz leite de creme, farófias, azevias, filhós e... comprei um tronco de Natal. A minha casa cheira a doces, a quente, a saudades e recordações, a esforço de ser e saber reinventar o sentido das coisas de se Ser.
Feliz Natal! Mesmo!
Feliz Natal! Mesmo!
quarta-feira, dezembro 19, 2007
Reuniões de avaliação. De classificação... E ter de aplicar critérios que condeno, observar regras que não compreendo, preencher impressos que me revoltam. É assim, hoje, ser professor! Sentir revolta, experimentar agressões, calar sonhos, ignorar razões. E como me dói este ser assim...
Queria recuperar a confiança no fascínio da minha profissão!!
segunda-feira, dezembro 17, 2007
Era a vista da janela do meu quarto, em Florença. Firenze! Ao fundo, a Ponte Vechio, jóias, gente, luz e cheiros diferentes. O rio reflectindo olhares, luzinhas tremelicando porque a época obriga. Estive nas praças, tantas!, entrei no Baptistério, vi a Porta dourada, olhei o túmulo de Michel Angelo, do Maquiavel também, comovi-me com os restos da capa de São Francisco de Assis. Entrei na Santa Cruz e vi que Cristo sangrava do lado direito- figado ou ignorância? - e fiquei espantada, de boca aberta mesmo, perante o David original! Como foi possível a um humano criar da pedra, um bloco de mármore sem serventia, uma figura com vida, veias, músculos, movimento, respiração?!
Depois, perdi-me em Siena. É a cidade das minhas fantasias... O restaurante, a Trattoria, quente, luzes mornas, pastas e pizzas. Vinho tinto, a copo enorme, fazendo dançar os sonhos, as ousadias também. E San Giminiagno. Uma fortaleza medieval, torres lutando por maior protagonismo, frio transparente e enérgico. De regresso, atravessar os Montes Apeninos debaixo de neve. E se o carro parasse? E se cortassem a estrada? E se não pudesse regressar? Mas pude... E cá estou, de alma carregada, sentires surpresos e razão anestesiada.
Ah! Em Itália, afinal, as banheiras são só para um. É pena...
quarta-feira, dezembro 12, 2007
24 horas e vou estar dormindo em Florença, janela sobre o rio! Vou afogar lá a fúria desalentada do meu dia profissional de hoje. Um hoje feito sempre.
Objectividade!! Avaliar e contar, igualar. Dentro de mim a ecoarem parangonas obsoletas da cadeira de Avaliação Escolar Avaliar é comparar!! NÃO É!!
Avaliar, hoje, tem de ser medir processos individuais!
Que frustração. Que desalento!
Em Florença não vou sequer lembrar que existe Portugal. Escola, menos ainda... Mas vou carregar a alma de coisas de tecer sonhos para desafiar os meus alunos. Vou trazer imagens, histórias vividas, experiências para os ajudar a desejar sair daqui. Partir! Para um mundo onde o eu não seja a súmula das diferenças do outro...
terça-feira, dezembro 11, 2007
Estou em contagem decrescente, ao ritmo do kizomba. Vim da dança kizombando (até o meu neologismo tem o ritmo certo) e, ainda dançando por dentro, comecei a pensar na mala que farei amanhã.
Quinta-feira, daqui a menos de 48 horas, estarei em Florença! Vou cruzar-me com a Arte, com o Renascimento, com a luz mágica que só Itália tem. Depois, Siena! Obrigatória no trilho da minha imaginação.
Menos de 48 horas!!
segunda-feira, dezembro 10, 2007
Este é o Buda. O meu amigo constante, alerta, desperto sempre, atento até aos meus sentires. Olha-me fundo, incomoda-se com a minha tristeza e, por vezes, obriga o meu sorriso. Hoje, destruiu o Presépio. Nem lhe ralhei, se calhar ele tem razão... Refiz o Presépio, a tradição exige. As minhas saudades também...
sábado, dezembro 08, 2007
O tempo voa e já é Natal outra vez! Ainda há pouco arrumei a casa, enfiei o presépio numa caixa de sapatos, as fitas num saco grande e já tive, outra vez, de tirar tudo dos lugares. De novo a minha casa se encheu de luz, de novo o meu cão é constantemente instado a não deitar abaixo o pinheiro e a não lamber o Baltazar. Não, Buda! Não é um chocolate!
Algures, numa das muitas desilusões que polvilham a dor da minha existência, desaprendi a esperança e a confiança no Natal. Tenho saudades de acreditar, de reconhecer ternuras e de confiar nos olhares que cruzo, na verdade das palavras que acompanham os presentes. Queria poder reinventar a confiança nas palavras, na autenticidade, na amizade, no carinho, nas promessas.
Se eu pudesse, se eu acreditasse que na Lapónia, ou no céu, ou no mundo onde os sentires convivem com os afectos alguém tinha o dom de realizar pedidos, escreveria uma carta longa. Tenho tanta coisa para pedir! Apetecia-me pedir um país diferente, um governo totalmente inventado, com recurso à fada da ternura, ao feiticeiro da confiança e ao mago da verdade. Queria, também, pedir que me devolvessem, intactos, os tempos em que eu, como dizia Álvaro de Campos “era feliz e ninguém estava morto”. Queria de volta a consoada na sala de jantar da casa que também era minha, a voz do meu pai, sempre fora de tom mas cheia de felicidade, cantando o “entrai pastorinhos entrai, por esse portal sagrado”. Queria até de volta, juro que não me importava mesmo nada, o boneco novo de cara riscada por uma tropelia do meu irmão… Queria de volta o tempo em que podia praticar o luxo de acreditar na eternidade da família de que eu gostava!
Se eu pudesse, se eu acreditasse que na Lapónia, ou no céu, ou no mundo onde os sentires convivem com os afectos alguém tinha o dom de realizar pedidos, escreveria uma carta longa. Tenho tanta coisa para pedir! Apetecia-me pedir um país diferente, um governo totalmente inventado, com recurso à fada da ternura, ao feiticeiro da confiança e ao mago da verdade. Queria, também, pedir que me devolvessem, intactos, os tempos em que eu, como dizia Álvaro de Campos “era feliz e ninguém estava morto”. Queria de volta a consoada na sala de jantar da casa que também era minha, a voz do meu pai, sempre fora de tom mas cheia de felicidade, cantando o “entrai pastorinhos entrai, por esse portal sagrado”. Queria até de volta, juro que não me importava mesmo nada, o boneco novo de cara riscada por uma tropelia do meu irmão… Queria de volta o tempo em que podia praticar o luxo de acreditar na eternidade da família de que eu gostava!
Este Natal, a Casa da minha infância é memória, o meu presépio tem luzinhas pré-programadas, diferentes intensidades, o pinheiro é perfeito, nem sequer perde as agulhas que não tem, os presentes estão já à espera da meia-noite de 24 e eu desejo que tudo passe depressa.
Queria um Natal tão diferente…
Queria um Natal tão diferente…
domingo, dezembro 02, 2007
A Bela Adormecida. A Companhia de Bailado de Moscovo, noite fria e húmida, o Coliseu de Elvas como cenário. É um espaço feio, desconfortável, incómodo, misto de Praça de Toiros coberta e betão piroso.
Entrámos às 21h, o espectáculo começaria às 21.30h...
Às 21.45h um aviso cantado, que lá em Elvas cantam muito, declarou o óbvio: - o espectáculo estava atrasado. Às 22.00h entrou o presidente da câmara, socialista e coxo (um mal nunca vem só), seguido por um séquito de mais de vinte pessoas e... o espectáculo começou!
O coxo, que deu o nome àquela coisa pavorosa que diz ser um Coliseu, tinha estado a ver o futebol e o povo... esperando!
Provincianismo, mania das grandezas ou estupidez natural? Três em um!!