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sexta-feira, outubro 31, 2008

Está muito frio lá fora. Frio mesmo, real, intenso e puro. Rodeiam-me prados a perder de vista, castelos e torres, Colégios e ruas que bafejam. Estou com as minhas meninas-mulheres e sinto-me incrivelmente bem. Hoje, quero seguir o carpe diem. Porque hoje, e ontem, e amanhã, e até voltar à dolorosa ruína do meu triste país, cada dia vale por si só. Pleno de sentidos!!

terça-feira, outubro 28, 2008

Amanhã, a esta hora, vou estar em Cambridge, desabafando as minhas angústias, espreitando os esquilos, ouvindo relatos de um país que faz sentido. Vou beber um café forte, numa caneca grande, e ficar conversando com as minhas meninas-mulheres coisas de sentires nossas, laços fortes que nos unem e tornam cúmplices reais de afectos e pensares. 6ª feira, vou lavar a alma a Londres. Vou andar no meio da multidão, espreitar lojas, almoçar uma pie no pub da minha eleição - o Swan - espreitando Hyde Park, rindo como se, simplesmente, Portugal não existisse. Saudades? vou ter, claro. Do Tango, do Buda, do Fred e da Ginja, dos meus cães, amigos leais e verdadeiros... Vou ter saudades, também, das saudades reais de alguns alunos amigos, de verdade, daqueles que sempre carrego na alma e que me fazem sangrar às vezes. Porque ainda não consigo ver os jovens encolher os ombros, desistir, aceitar. Porque não quero jovens como eu, a fazerem o que criticam por causa do miserável sustento mensal... Mas não quero, hoje, pensar nisso! Quero adormecer sonhando com o Tamisa sujo, com as loucuras de Piccadilly Circus, com as cores e o frio da Oxford Street, com os brinquedos da enorme loja onde (ainda...) me encanto, com o chocolate quente na Tea House junto ao rio, com os passeios a pé junto aos Colégios de Cambridge sonhando outra vida, outro espaço, um lugar onde ser professor não é vergonha!
Claro que 2ªfeira vou estar de volta à realidadezinha infeliz deste país insuportável. Mas hei-de vir melhor. Com resistências reforçadas...

segunda-feira, outubro 27, 2008

Hoje estou muito mais feliz e conformada! Finalmente percebi o objectivo final do meu doloroso quotidiano profissional! Eu vou para o céu! Hoje, finalmente, compreendi que estou a viver o inferno com um objectivo nobre: purificar-me dos meus pecados - imensos! - e entrar directamento no paraíso! Só assim, de facto, posso aceitar o que tenho vivido...
Hoje, depois de um dia de aulas, com trabalhos para corrigir, aulas para preparar, sonhos para cumprir, caí numa formação. E... já não era professora, era, só, uma débil mental! Experiências novas (ou nem tanto?) para acelerar, de certeza, a minha ascensão ao céu! Meteram-me numa sala sufocante, com uma formadora a LER OS SLIDES (eu não saberei ler??)a afirmar enormidades e, pior, a apresentar frases tão curiosas como "cuja sua, e etc" para complicar, os pobres dos acentos graves do "a" preposição foram todos promovidos a agudos. Depois, porque no inferno é assim, é preciso penar muito, mandaram-me copiar frases de documentos legais para grelhas incompreensíveis onde, afinal, competências não eram competências, parâmetros não eram parâmetros e indicadores podiam, ou não sê-lo. Isto tudo, garantiam, numa leitura cinética.
Quando saí, esgotada, tropeçando porque não há luz a iluminar o caminho, vinha muito mais competente e sabedora: - Aprendi que não sei ler; que sofro de iliteracia e que, afinal, o meu dicionário de língua portuguesa não o é. Ah! e aprendi a fazer uma leitura cinética de corte e costura!
É tão bom ser professora em Portugal! É tão bom garantir na terra o céu da eternidade...

domingo, outubro 26, 2008

Insónia. Voltas e voltas na cama, tentativa de ler, rádio ligado, nada afasta esta insónia incomodativa que, ainda por cima, só traz pensares difíceis e sentires dolorosos. Na tentativa de reencontrar o sono, e a paz que me permita dormir, vim ao meu canto, ao meu computador e deparei com um daqueles imensos mails reencaminhados por dezenas de pessoas, com paisagens incríveis da natureza pura. Virgem, mesmo. Vi no silêncio as imagens, surpreendi-me com a beleza de um mundo que parece já não existir mas, ainda assim, o sono não chegou... Na minha cabeça cruzam-se, ou emaranham-se, mil e trinta e sete coisas distintas: - O amor ausente, a escola traumática, o desejo intenso, o sonho perdido, as ausências presentes, as saudades vivas, as questões comezinhas. Tudo faz um novelo gordo que não me deixa dormir. E eu queria dormir mesmo, aproveitar esta noite longa - uma hora de bónus - e acordar só amanhã, tarde. Ou nunca.

sábado, outubro 25, 2008

Num teste de avaliação, pedi aos meus alunos de 12º ano que reflectissem sobre a importância do sonho na construção de um mundo melhor. Preocupada com os resultados dos alunos, porque o governo exige que tenham boas notas e eu ainda não consigo desligar o sucesso do êxito efectivo e real das aprendizagens, esperava ter escolhido um tema aliciante e, para os meus alunos, de fácil redacção. Ora não é que me enganei redondamente? Ao corrigir os trabalhos, na tarde deste sábado de sol, confrontei-me com uma dúvida profunda: - Ou eu estou mesmo velha e fora do mundo de hoje, ou a juventude está a tornar-se oca. Claro que prefiro, apesar de tudo, considerar a primeira hipótese. Tranquiliza-me a ideia de não fazer parte da actualidade sem sentido que domina o mundo, anima-me pensar que eu é que estou errada e que, de facto, o meu mundo não existe… E isto vem a propósito, claro, da maioria dos textos que os meus meninos escreveram. Para alguns, triste e miseravelmente, o sonho limita-se a pesadelos e afins, a vivências e historietas imaginadas enquanto dormem. Coitados. Para outros, o sonho não serve de nada porque, pasme-se!, não adianta de nada sonharmos, o que importa é olharmos a realidade e encontrarmos uma forma de sermos ricos. Felizmente, para meu íntimo consolo, dois ou três ainda sonham. Ainda defendem um mundo diferente, melhor, onde a ternura exista, a cumplicidade seja efectiva, a solidariedade uma prática constante. Estes, referem exemplos. Lembram Martin Luther King, Madre Teresa de Calcutá e até João Paulo II. São estes miúdos que me fazem, cada vez mais, acreditar num mundo novo. Mas eles são uma minoria!
A maioria dos meus alunos de 12º ano, gente crescida, já não acredita no sonho, já não valoriza o poder de sonhar, já não reconhece a importância do imaginário. Estes miúdos, para mim são sempre miúdos, garantem até que António Gedeão estava completamente enganado ao afirmar que “o sonho comanda a vida”. Estes miúdos, são o resultado, triste mas real, do trabalho de desumanização que a minha geração tem vindo a fazer!
Olho os alunos, uma representação do mundo real, e a minha vontade de desaparecer agudiza-se. O que estamos nós, adultos, a fazer com os jovens? O que queremos nós destes miúdos a quem não falamos de projectos (im)possíveis, de causas válidas, de verdades e valores humanos? O que estamos nós a fazer quando, diariamente, ocupamos estes miúdos com explicações de tudo, ou quase, com a fobia das notas altas e com a paranóia dos exames finais? Que mundo estamos a formar, se alimentamos o egoísmo, investimos no material e desprezamos o lado humano? Eu sempre acreditei que o que faz um ser humano não é a conta bancária, ou a cor da pele, ou a língua que fala, ou as notas que obtém. Eu sempre defendi que, como dizia Sebastião da Gama, pelo sonho é que vamos…Por isso, sinto-me hoje magoada e profundamente angustiada.
Porque eu sinto-me cúmplice deste desfazer constante dos valores humanos essenciais. Porque eu sigo normas estúpidas por ter medo de as subverter ou de as contestar. Porque eu cumpro directrizes aberrantes, ocas de valor e sentido, por necessidade de salvaguardar o meu ordenadinho (inho mesmo) no final de cada mês. Onde estão os Homens de coragem os fazedores das diferenças, os ganhadores da razão? O que é que este mundo fez com os meus sonhos, com os meus valores, com os meus ideais? E o que é que eu, adulta e educadora, estou a permitir que façam, estou a fazer??, com a geração de amanhã? Ai, sinto-me hoje tão amachucada…tão culpada e envergonhada também. Porque eu não queria ser heroína, mas queria ser corajosa o suficiente para, pelo menos, não obedecer a regras que sei serem absolutamente absurdas. E não tenho coragem! Os meus alunos negam o sonho e eu defendo-o mas não o respeito. Não serei mais culpada ainda?

quinta-feira, outubro 23, 2008

É uma valsa intensa, ritmo bem marcado, e oiço o cresçam que o Pedro impõe. Com a minha mão apoiada no ombro do meu par, segura, deixo-me levar e rodopiar. A sala enche-se de vestidos compridos, decotes ousados e olhares morenos líquidos de desejo. Há múrmurios, mãos masculinas sobre tecidos delicados, femininos mesmo, promessas mudas de noites fogosas. Nos carnets as linhas estão preenchidas e as pestanas, cuidadosamente arranjadas, lançam sombras de vergonhas atrevidas nos rostos afogueados. O Pedro grita olha a volta da senhora, e a magia quebra-se. Estou de novo de calças velhas e t-shirt gasta, tenho o cabelo preso com um travessão de tulipas, trouxe-o de Amesterdão, e o meu par, respeitador, não murmurou ousadias.
É tão chato esbarrar com a realidade!

quarta-feira, outubro 22, 2008

Oiço o vento uivar lá fora. Tinha saudades da sua força! Gosto de o ouvir, faz-me companhia, provoca os meus sentires, desperta os meus desejos mais profundos e nem sempre adormecidos. Em conversa com o guardador de rebanhos, Caeiro diz-nos que o vento não é mais do que isso. Vento. E que não fala, não agita memórias, não conta de passado nem futuro.
Mas a mim, juro que conta! Trouxe-me há pouco presenças ausentes, passados perdidos, tempos nos quais as noites eram a dois e os medos se calavam nos corpos enleados. Hoje, este vento encontra-me na companhia do oceano pacífico, lembrando as baleias da Noruega, sentindo uma tristeza funda feita da ausência de resposta aos meus relatos de tantas vivências. Por isso, peço ao vento que traga de novo o abraço forte, a perna sobre a minha, a gargalhada quente e os beijos molhados que me fazem falta.

terça-feira, outubro 21, 2008

Estou cansada e farta. Farta deste país, desta gentinha ridícula, das fingidas atitudes de reflexão pedagógica que revestem vingançazinhas idiotas e incompetências promovidas. Sinto-me diariamente agredida e queria desaparecer! Não encontro sentidos. Sentido, sequer! E o outro lado meu, eu também, tecido de sonhos e sentires, faz um novelo cerrado de solidão e mágoa. Existo? Ou talvez não...

segunda-feira, outubro 20, 2008




Chegar a Portugal é cada vez mais triste. Este país não tem nada, mas nada!, a ver com o mundo actual. Cheguei da Noruega cansada, é longe, um pouco triste - desiludida com alguns alunos (vítimas da porcaria nacional?) - mas com a alma carregada de encantos. Vi focas e, mais impressionante, vi baleias brincando no fiorde! Na Noruega, os professores são vistos como pessoas de bem, respeitados, considerados socialmente. As escolas funcionam das 8 e meia às 15e, depois, fica o dia para se viver, conviver, ler, passear, estudar, etc. É uma gestão inteligente, razoável, porque já compreenderam, há muito, que não é só na sala de aulas que se aprende. Na Noruega, o colega do lado não avalia, a treta de se votar nos colegas para desempenho de cargos, já era. Lá, há concursos para o desempenho de cargos, há respeito e rigor. Na Noruega, os alunos aprendem a pensar, a fazer - as competências que eu tanto defendo! - a ser pessoas.


Eu não queria viver na Noruega. Estranho o silêncio, a ordem, a frieza de alguns comportamentos. Mas eu queria que Portugal aprendesse alguma coisa (muita coisa!) com quem sabe mais e faz melhor.


Na Noruega passeei nos fiordes. Vi focas, surpreendi-me com a força bela da natureza, bebi da água fresca que corre sobre as escarpas.


Na Noruega, espreitei os Elfos e os Duendes e desejei tê-los em Portugal... Porque em Portugal, já não há lugar para o sonho!!

terça-feira, outubro 14, 2008

Já sou tia-avó! A Francisca nasceu agora, de cesariana, e eu estou cheia de pena de não poder ir vê-la já amanhã... É a filha do meu Bernardo, do meu sobrinho preferido, e eu queria muito vê-la! mas, como sempre, eu já devia estar habituada..., a vida trocou-me as voltas e só vou vê-la no domingo! Vou trazer-lhe um alce da Noruega!!

Acabei a mala, entreguei os meus queridos cães aos amigos de confiança, já enfiei os bilhetes na mala, as coroas também, está quase tudo pronto. Agora, é tempo ainda de ir à dança, de dormir orientando sonhos e, às 4 da manhã, de partir. Levo na cabeça muitas preocupações, nos sentires muitos nós, na alma muitas angústias. Mas tenho esperança de conseguir arejar isto tudo com a força dos ventos nórdicos, com o impacto dos fiordes onde vou navegar. Acho que tenho esperança de esquecer o meu doloroso quotidiano... Vou estar uns dias sem a estúpida ideia das contabilizações de sentires e fazeres em que alguns, idiotas ou obedientes?, querem transformar a minha escola!

segunda-feira, outubro 13, 2008

Não sei se por causa dos ritmos da rumba, vim da dança às nove com uns passos novos - FANTÁSTICOS-, se porque tomei um duche bem quentinho e estou cheirosa, tenho os sentires aos pulos e não me apetece ir para a cama. Obviamente, se quisesse tinha muito que fazer. Mas não me apetece. Não me apetece fazer nada e, por isso, resolvi ir começar a fazer a mala para a Noruega. Às vezes, sabe-me bem ser mesmo preguiçosa... Nessas alturas, divirto-me comigo mesma fazendo apenas aquilo que me dá na real (ou republicana?) gana. Agora, deu-me para estender a roupa em cima da cama e escolher, criteriosamente, o que hei-de levar. Calças, claro. Está frio. Mas talvez um vestido preto, daquelas peças obrigatórias que nunca nos deixam ficar mal... Mas assim, terei de levar sapatos, não apenas as minhas adoradas botas quotidianas. Ah! e hei-de levar o vison? Coitado, ele sai tão pouco. E vai estar frio, acho que levo.
Queria ter aqui, agora, uma opinião masculina. Ainda que me dissesse para levar o que quisesse desde que fosse uma mala pequena, apetecia-me uma opinião masculina. Ah! Ele havia de se rir se me visse de camisa de noite branca e vison por cima...

Ó stôra, não diga que era bom não voltar... O João.O meu grande João de ternura pronta, a crescer em doçura, ganhando autonomia, liberdade consciente. O João a ser pessoa, aluno também, mas um amigo sempre. E eu a deixar uma fresta na verdade, a dizer que podia mesmo desaparecer. Mas não, João. Eu não quero desaparecer. Quero ficar por aqui, ver-vos partir, ganhar mundo, construir algo bem diferente do que hoje temos. Quero, meus meninos queridos, ver as palavras de Pessoa mexerem convosco, o olhar de Caeiro humedecer o vosso, o desespero de Campos contagiar-vos e a apatia de Reis revoltar-vos. Quero ser a vossa professora. A que põe a sala em quadrado quebrando a vossa rotina, a que vos desafia para a descoberta da individualidade, a que tece cumplicidades e impõe os textos semanais...
Eu vou voltar da Noruega, de Stavanger, carregada de mais memórias, de muitas cores e experiências, de baterias de sonhos para reconstruir no processo de dizer que faz as nossas aulas.
Mas, ainda assim, ou por isso mesmo, agora quero mesmo PARTIR!!!

domingo, outubro 12, 2008

Choveu o dia todo. Chuva enérgica, real, isenta de hipocrisias ou humanidades. Agora, noite escura, não chove já. Mas eu sei que, amanhã, o céu vai continuar a chorar de desespero, como eu, por existir neste país horrível.
Mas eu, 4ªfeira, bem cedo, vou voar para a Noruega, Stavanger, vou ver os fiordes, os alces, sentir o frio de verdade e respirar num país que tem sentido! Bom mesmo, era não ter de voltar...

sábado, outubro 11, 2008

Sábado indecente! escorreu num instante pelas fisgas do meu estar bem e foi-se. Amanhã, já é domingo...

quinta-feira, outubro 09, 2008

Vivi a minha vida de consciência social já no período da liberdade e, por isso talvez, quando, recentemente, comecei a sentir receio, medo mesmo, de expressar as minhas opiniões, de sacudir para a comunidade que integro os meus sentires, achei estranha a sensação. Sou uma defensora da liberdade! Liberdade de sonhar, de escolher, de opinar, de cumprir e compreender. Sinto-me mal quando me dizem para ter cuidado com o digo, sinto-me sufocar quando me sugerem que me cale, ou que fale das estações do ano, que já não existem, ou que me conforme porque posso correr riscos. Vivemos no tempo dos medos. E o medo é mais assustador quando o poder (o tal que se escreve com as letras de podre) está nas mãos dos medíocres. Em mim, no meu silêncio imposto, ecoam cada vez com mais frequência as palavras de Sophia: - este é o tempo dos chacais… E refugio-me nos meus autores, nos poetas da essência de Portugal, partilhando o inconformismo de Torga, a revolta sonhadora de Manuel Alegre, a ironia descrente de Eça de Queirós. Leio-os e escuto-os. Sinto-os em mim, porque a minha revolta é a deles, e não consigo submeter-me ao medo e ficar calada. Eu tenho direito à indignação! A Constituição da República Portuguesa, não a das bananas, confere-me o direito à indignação. E eu estou indignada! Estou também revoltada, humilhada, magoada, desiludida, impressionada, mas esses estados de alma não são reconhecidos pela Constituição e, por causa do medo, eu calo-os. Mas não consigo calar a minha indignação!
Indigna-me o que está a ser feito aos professores. Não posso deixar de me indignar quando vejo os direitos mais fundamentais de um profissional serem ignorados. Indigno-me com o facto de, apesar de ter uma licenciatura, um estágio pedagógico, uma carreira com mais de vinte anos, ser tratada como incompetente ou, no mínimo, de competência duvidosa, necessitando ser tutelada, punida, classificada. Indigna-me que o governo do meu país não fale verdade, não tenha a coragem de dizer que está a classificar professores, vindo com a conversa enganadora de avaliação para melhoria de desempenhos. Indigna-me sentir que me roubam, mesmo roubo violento, o tempo de qualidade com os meus alunos, para fazerem de mim gato-sapato no cumprimento de normas e legislações aberrantes.
Como cidadã portuguesa, pago impostos. Imensos! E indigna-me que os meus impostos possam servir para facilitar a formação de indivíduos irresponsáveis, vadios e incompetentes. Indigna-me o estatuto do aluno, que trata quase da mesma forma um aluno doente, e um aluno vadio. Este socialismo oco de sentido está a esvaziar de valores e referências a sociedade actual. Agora, vale tudo. Os alunos não são responsabilizados pelos seus actos, não são ensinados a cumprir normas e regras, não crescem na observância de valores que considero essenciais numa sociedade humanizada. Aos jovens de hoje, contrariamente ao que acontece nos países desenvolvidos, não se pedem responsabilidades, oferecem-se facilidades. Indigna-me assistir à deformação de uma juventude que desejo que seja mais feliz do que eu.
O estado português, penso eu, não tem o direito, ou não devia ter, de esvaziar de sentido a existência humana. Eu tenho direito à indignação! Mas sei que ela me pode custar cara, que hoje para os professores só há deveres. E, ainda assim, não consigo calar-me sempre, sorrir e encolher os ombros, sufocar o desespero em que tenho vivido este início de ano lectivo. Agora, hoje, neste tempo de chacais, sinto-me infeliz e desajustada, revoltada e magoada. Eu tenho de ter direito a manifestar a minha indignação! Terei??

quarta-feira, outubro 08, 2008

Socorro! Socorro! Socorro! Alguém me salve! Alguém me liberte desta paranóia colectiva em que os anormais dos socialistas transformaram o meu quotidiano profissional!! Já não bastava a barbaridade da titularidade por decreto, a avaliação da incompetência, as grelhas da estupidez (um aluno é um ser humano ou uma equação???), a barbaridade ridícula da avaliação dos alunos, ainda tinha de vir o novo regime de faltas?? Mas porque não dizem, muito simplesmente, que não há faltas, que a frequência da escola não é obrigatória, que os alunos podem aprender nas explicações (que muito eticamente dão os professores da própria escola)?? Porque nos fazem fazer ainda mais figuras de idiotas???!!! Entrei na escola hoje às 8.15. Saí às 19.20! O que fiz de facto? Dei duas aulas. DUAS! Fiz uma substituição, o que significa que estive 90 minutos a tentar que os alunos vissem um filme estúpido, que nada lhes diz, Adeus Lenine!, numa televisão roufenha, com janelas que não fecham e tanta luz que não se conseguiam ler as legendas. Almocei chocos salgadissímos, a correr (eu, não os chocos, coitados). Depois, o resto das horas todas, estive a fazer de idiota. A ser humilhada. A fingir que a escola é.
Mas não é! Só parece! Eu estou FARTA! INFELIZ! DESESPERADA!
SOCORRO! SOCORRO! SOCORRO! Quero ser professora!
Esta Escola está a matar a minha essência. SOCORRO!! Quero ir embora deste Portugal...

Dia de Mercado em Portalegre. Dia de boleimas boas, de rostos cansados, de cheiro a peixe intenso (que porcaria...). Se não existisse o ME, e a Escola o fosse de facto, hoje era um dia bom. E até já é Outono!!

segunda-feira, outubro 06, 2008

É sempre assim na segunda-feira, custa mais existir. Porque no fim-de-semana iludo a vida, prendo-me ao essencial, reparo nos castanheiros carregados, escovo os cães, converso no silêncio do meu computador com o meu-eu razoável e humano.
Nos fins-de-semana, não sou essa coisa horrorosa em que transformaram os professoras, não quero saber dos objectivos de uma avaliação certificada pela estupidez titulada. Nos fins-de-semana, a bica do mercado sabe-me bem, as hortaliças enchem de cor a minha cozinha, e os meus sentires, sempre exacerbados, sonham inconfessáveis tranquilizadores...
Na segunda-feira, tudo muda.
Hoje, é segunda-feira!

domingo, outubro 05, 2008

Meia dúzia de doidos pegaram em armas e despacharam o rei e o princípe. A rainha, coitada, bem agitou o ramo de flores em defesa dos seus homens, mas de nada valeu. Estava instalada a República em Portugal! Ainda tentou, com pouca vontade, o D. Manuel II segurar isto, mas sem êxito. Este país, de brandos costumes, iniciou com sangue uma nova era. Era o tempo do início da República das Bananas! Depois disto, pouco mais restou... Um povo infeliz, um país à deriva, um bando de sucessivos incompetentes a governarem este naufrágio colectivo. Hoje, com o acumular de anos de mediocridade, da república nem as bananas sobraram. Só mesmo as cascas escorregadias onde, diariamente, derrapamos tentando o equilíbrio impossível.
Portugal? Pobre quimera destruída...

sábado, outubro 04, 2008

Ela, a minha menina doutora, partiu cedo. De carro carregado, segura no amor pelo marido, foi com ele buscar uma vida nova, um rumo diferente num país que faz sentido. Durante dois anos, ou para sempre?, ficará por Cambridge, crescendo longe de mim, fazendo doer a saudade. Sei-a bem e, por isso, só mesmo a saudade incomoda. Vou lá depressa! Por agora, ficam as memórias, os temores, a solidão maior.
Por isso, também mas não só, fui sair, procurando a música, as minhas cumplicidades.
Cheguei agora a casa, com a alma carregada de música linda e bem tocada. Luísa Amaro na guitarra portuguesa, o Toy Eustáquio (meu colega dos tempos de liceu) no guitolão, e um ser esquisito, cabelos longos e barba desgrenhada, com um instrumento árabe (para mim uma pandereta gigante), absolutamente fantástico. Foi no Centro de Artes do Espectáculo da minha cidade, entre gente de cá a enganar a minha solidão. Senti, juro!, correr-me nas veias o mar português, a história de um país que chora o fado, que vagueia nos bairros velhos, que trata o Amor por tu. Valeu a pena o serão!
Agora, tenho tudo por fazer: - uma acta, os textos do jornal, as aulas para preparar, redacções para corrigir. Mas que importa? A noite é imensa...

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