segunda-feira, julho 31, 2006
Sai fumo do chão, cheira a enxofre, uma fonte de água quente corre ao lado da de água fria. Gente fala cerrado, o milho coze num buraco, o verde emoldura os fumos. É assim nas Furnas. É assim nos Açores, em São Miguel, onde multidões correm para comer o cozido das furnas, o saco cheio de variadas carnes que vêem desenterrar do vulcão. Olhares curiosos, apetites gulosos, línguas diferentes, tudo se mistura em torno do inferno turístico. Os Açores são Portugal. Ou não??
quinta-feira, julho 27, 2006
Surpreende-me a força que o status dá às coisas. Como se a aparência atribuísse, efectivamente, essência! Li um projecto, que nada tem de Projecto, que se chama educativo e nada tem de Educação. Divagações, repetições do óbvio, constatações da evidência tecem este Projecto que se diz Educativo.
Quando será que o meu país acorda e resolve olhar as coisas com verdade, rigor, qualidade e empenhamento? Que futuro pode ter uma educação com projecto de aparência sem consistência?
O meu mundo não é este.
O meu mundo não existe!!
Quando será que o meu país acorda e resolve olhar as coisas com verdade, rigor, qualidade e empenhamento? Que futuro pode ter uma educação com projecto de aparência sem consistência?
O meu mundo não é este.
O meu mundo não existe!!
terça-feira, julho 25, 2006
Tenho o Andrea Bocelli a cantar só para mim. (Milagres da tecnologia!) "Sólamente una vez, amei en la vida!" canta ele. Eu oiço de olhar excessivamente húmido. Não quero deixar a saudade tomar conta de mim, não quero deixar que a vida me vença. Resisto. Ele fala, também, em renúncia que mistura com emoção alegre. Da janela aberta - quero lá saber das melgas -, vem um ventinho fresco e o ladrar dos cães.
É a minha salinha amarela, isolada, protectora. É a minha vida. Só. Hoje, com o Bocelli...
É a minha salinha amarela, isolada, protectora. É a minha vida. Só. Hoje, com o Bocelli...
segunda-feira, julho 24, 2006
A manhã acordou de praia: - Nuvens frescas, nevoeiro doce. Parece que o mar se aproximou da Serra, ou que Portalegre quer ir para férias também. Gosto das manhãs assim, húmidas, cheirosas, enérgicas!
domingo, julho 23, 2006
As férias são dolorosamente sozinhas. Para mim. No entanto, as minhas contradições!, apetecem-me desesperadamente. Apetece-me o mar, a areia, a caipirinha... Já faltou mais.
quarta-feira, julho 19, 2006
Recomeçaram os exames. Olhares ansiosos, cabeças a fervilhar, sonhos pendentes. Queria poder dizer aos miúdos que vejo sofrer, que a vida nos avalia a cada hora...
terça-feira, julho 18, 2006
A maldade existe, sim senhora! É feminina, requintada, cruel, fria e consciente. A maldade usa maquilhagem, veste-se de simpática hipocrisia, chora lágrimas de gozo face ao sofrimento que provoca. A maldade vive excessivamente próxima de mim. Está difícil suportar a vizinhança!!
segunda-feira, julho 17, 2006
Dói-me o corpo, a cabeça, a alma também. O calor fica com as culpas...
Este calor terrível, excessivo, incómodo, só pode ter uma explicação: - Alguém deixou a porta do inferno aberta! Ou foi um diabrete descuidado, há por aí tantos, ou alguém que fugiu às pressas ou, o que acho mais provável, a vida de Portugal que escapou à condenação eterna e se faz sentir de novo...
domingo, julho 16, 2006
Ouvi, com toda a atenção que a minha tristeza permitia, a entrevista de Maria João Avillez ao primeiro-ministro. Tinha já ouvido, nesse mesmo dia, a notícia do encerramento de mais uma empresa, na Azambuja, de mais despedimentos e de mais dificuldades. Por isso, talvez, estava verdadeiramente curiosa quando me sentei em frente ao televisor para ouvir o engenheiro Sócrates. Ouvi tudo.
No fim, apetecia-me chorar de raiva e impotência! Como é possível dizer-se, sorrindo!!!, que o país está melhor, que há desenvolvimento, que estamos no bom caminho? Tudo o que eu vejo, e vivo, são dificuldades crescentes… Este governo sufoca quem trabalha com impostos sobre impostos, faz crescer o desemprego, coloca funcionários efectivos em risco de deixarem de o ser, põe o cidadão comum a viver sobre brasas, em aflição constante, a juntar dinheiro para pagar impostos sabendo, antecipadamente, que desse dinheiro não vai recolher benefícios. Sim, sabemos todos que a Segurança Social é nula, que a saúde é de péssima qualidade (há uns dias um governante anunciava que as listas de espera nos hospitais tinham diminuído. Decerto muitos dos que esperavam, morreram!), que a educação é cada vez mais geradora de diferenças sociais. Sabemos, sentimos diariamente, o custo de vida a subir: o pão, a gasolina, o leite, TUDO sobe na razão inversamente proporcional aos ordenados, esses a raiar a miséria. Este governo, em teoria socialista, num jogo de charme (falhado!) a auto denominar-se de esquerda moderna, é uma ditadura económica. Onde ficam as pessoas, os portugueses, nas medidas deste governo? Abaixo dos números. O que importa é juntar dinheiro, ainda que a miséria aumente, mesmo que a infelicidade alastre, ignorando a palavra humanismo. Moderno? Porquê? Porque nos entretém com paradas gays e shows eróticos? Moderno porque defende a morte e não preserva a vida? Moderno porque diz promover as mulheres com leis da paridade sem nenhum sentido? Moderno porque é capaz de fechar Maternidades, Centros de Saúde, Escolas, sem querer saber das pessoas? Moderno porque dá computadores? Pois, para mim, este governo não serve e está a matar a sociedade portuguesa sufocando-a e, pior, impedindo-a de ser verdadeiramente livre. Os computadores não são a salvação da humanidade. Se o fossem, de certeza já alguém tinha feito um delete no governo de Portugal!
No fim, apetecia-me chorar de raiva e impotência! Como é possível dizer-se, sorrindo!!!, que o país está melhor, que há desenvolvimento, que estamos no bom caminho? Tudo o que eu vejo, e vivo, são dificuldades crescentes… Este governo sufoca quem trabalha com impostos sobre impostos, faz crescer o desemprego, coloca funcionários efectivos em risco de deixarem de o ser, põe o cidadão comum a viver sobre brasas, em aflição constante, a juntar dinheiro para pagar impostos sabendo, antecipadamente, que desse dinheiro não vai recolher benefícios. Sim, sabemos todos que a Segurança Social é nula, que a saúde é de péssima qualidade (há uns dias um governante anunciava que as listas de espera nos hospitais tinham diminuído. Decerto muitos dos que esperavam, morreram!), que a educação é cada vez mais geradora de diferenças sociais. Sabemos, sentimos diariamente, o custo de vida a subir: o pão, a gasolina, o leite, TUDO sobe na razão inversamente proporcional aos ordenados, esses a raiar a miséria. Este governo, em teoria socialista, num jogo de charme (falhado!) a auto denominar-se de esquerda moderna, é uma ditadura económica. Onde ficam as pessoas, os portugueses, nas medidas deste governo? Abaixo dos números. O que importa é juntar dinheiro, ainda que a miséria aumente, mesmo que a infelicidade alastre, ignorando a palavra humanismo. Moderno? Porquê? Porque nos entretém com paradas gays e shows eróticos? Moderno porque defende a morte e não preserva a vida? Moderno porque diz promover as mulheres com leis da paridade sem nenhum sentido? Moderno porque é capaz de fechar Maternidades, Centros de Saúde, Escolas, sem querer saber das pessoas? Moderno porque dá computadores? Pois, para mim, este governo não serve e está a matar a sociedade portuguesa sufocando-a e, pior, impedindo-a de ser verdadeiramente livre. Os computadores não são a salvação da humanidade. Se o fossem, de certeza já alguém tinha feito um delete no governo de Portugal!
segunda-feira, julho 10, 2006
Sento-me no sofá fofo, a janela imensa protege-me do calor oferecendo-me um cenário que, sabendo-o de cor, sempre me fascina. Peço um Porto branco, lágrima. Traz uma pedra de gelo, fica nas minhas mãos a rodar, o copo do Siza Vieira, o sol lá longe, o silêncio por companhia. O Porto, lágrima..., mascara outras lágrimas. Está-se bem, aqui. Há segredos que contei, e conto, às velhas muralhas que mais ninguém guarda.
Marvão. E eu.
Marvão. E eu.
domingo, julho 09, 2006
A toga está pendurada, impecável, abotoada, dentro do armário vazio. Era o armário dela, da menina que cresceu e, agora, tem casa própria com outros armários, outras cómodas, outras escrivaninhas. A toga tem, por isso, todo o espaço para si. Veio há pouco, acabada de fazer, trazida pendurada no carro, sentada no banco para não se sujar no chão do automóvel. O não te preocupes da minha filha, é mesmo para andar enrolada, não faz mal amachucar-se, não me demoveu dos mil cuidados com aquela coisa comprida, negra, que transforma a minha menina na doutora advogada. O que aconteceu à menina curiosa, mas porquê? constantes, que gostava de dormir na cama da mãe e se deliciava com as histórias do Peter Pan e da fada sininho? Onde está a criança atenta, cúmplice de tantas tristezas, ouvinte de tantos segredos? Olho, uma vez mais, a toga acabada de pendurar. Está linda! É uma peça trabalhada, mangas duplas, nervuras iguais às dos vestidos aos quadradinhos que gostava de lhe comprar. Então, de azul e rosa, de vermelho e branco, ela desvendava a vida à custa de alguns arranhões, de umas nódoas mais ou menos negras, de lágrimas gordas que lhe enxugava com mil ternuras. Incrível como o tempo passa. Agora, a vida oferece-lhe tribunais, casos sérios de vidas nem sempre igualmente sérias, dramas individuais com os quais ela, firme na sua convicção de justiça e verdade, lida diariamente. Agora, os arranhões surgem-lhe na alma e não basta um penso colorido, um algodão de betadine escuro, para limpar a dor. Toco a toga. É só um símbolo, um tecido, a austeridade talvez. Mas, para mim, mãe, é um significado: - A minha filha cresceu! Depressa demais… Queria poder tê-la ainda aqui, pronta para comer sugus na hora da bica de domingo, disponível para ouvir histórias, com a gargalhada sonora que tanto a caracteriza. Fecho o armário e observo o quarto, olho a cómoda, tenho de arrumar as gavetas. Em cada objecto há recordações, memórias, sentires das vivências que fazem com que as existências sejam humanas mesmo. Lá está, zarolho e sujo, o panda de peluche que sempre acompanhava a minha menina. Era o Bu. E ela pedia-o para dormir, arrastava-o pelo chão, sentava-o na cadeira ao lado enquanto comia. O Bu também envelheceu. O laço já não tem cor, as orelhas estão gastas e parece que emagreceu. O que fazer com ele? No fundo, é só uma coisa, como a toga, não sente. Mas… no olho vesgo que resistiu ao tempo, há uma tristeza que me comove. Pego nele, afago-o, cheiro-o e, uma vez mais, vêm-me os cheiros da infância da menina doutora. Advogada! Com toga! Tenho de arrumar tudo e deixar-me de recordações, digo para mim mesma. São coisas, objectos. Pois. Mas são essas mesmas coisas, esses objectos, que assinalam momentos, que marcam etapas, que caracterizam essências. O que fazer com o Bu? Pouso-o sobre a cama e abro a escrivaninha. Ali ficaram os diários que sempre respeitei e ainda agora não abro. Serão para destruir? Se fossem meus, seriam rasgados em mil pedaços. Porque não há pior devassa do que a que se faz às memórias, às recordações. Ali devem estar os segredos, as cumplicidades, as ousadias. Arrumo-os, são três, numa caixa que meto no armário onde a toga aguarda boleia para Lisboa. A minha filha decidirá o que fazer com eles. Começo, então, a organizar fotografias, o grupo da pré-primária, a viagem de finalistas, os dezoito anos… Em breve fará 24. Caso os anos, Mãe, tenho de ter uma presente de ouro. Vai casá-los longe, com o marido, viajando, descobrindo aquele mundo que só devia dar-lhe alegrias. A toga não vai, claro. Vai ficar noutro armário, acompanhada por tops coloridos, jovens, que fazem da menina advogada uma mulher alegre e cheia de sonhos. Ainda há muitas gavetas para abrir. Mas eu tenho vontade de as deixar fechadas, de prolongar um pouco mais a ilusão de ter aqui, em casa, a menina advogada, a minha menina sempre atenta, sempre terna. Olho à volta. É uma tarde de calor excessivo, (vale-me o ar condicionado), cansativo, que faz encolherem-se os sentires e dilatarem-se as veias que me dão dor de cabeça. Fecho a porta de novo e, cobardemente, deixo tudo na mesma. Diferente, no quarto desocupado, só a toga austera, perfeita, acabada de chegar.
Se eu pudesse, mandaria fazer também, para mim mesma, um traje capaz de me transformar as emoções, de me anestesiar os sentires.
Se eu pudesse, mandaria fazer também, para mim mesma, um traje capaz de me transformar as emoções, de me anestesiar os sentires.
sexta-feira, julho 07, 2006
Vem. Vem depressa para o pé de mim! Fiz café forte, intenso, másculo, não quero deixá-lo arrefecer. Vem. Senta-te ao meu lado, deixa-me anestesiar a terrível dor de cabeça que me faz doer até o pescoço, deixa-me contar-te das desilusões, deixa-me despejar em ti o desejo imenso de um abraço forte. Intenso e másculo. Para acompanhar o café.
domingo, julho 02, 2006
Vou ver o mar! Amanhã, bem cedinho, parto à procura da quentura das areias, da cumplicidade máscula do mar. Vou oferecer-me, assim de repente apenas a propósito de estar viva, três dias de praia. 5ªfeira já estarei de volta para, uma vez mais!!!, ser actriz num palco oco de sentido e liderado pela incompetência maquilhada...
A SELECÇÃO
Fim de dia. É a hora de que eu mais gosto. Sento-me no terraço a ver o sol mergulhar, longe, atrás das montanhas, levando um dia inteiro, a estrear, a quem está do outro lado do mundo. Neste momento pára tudo. Os gaios, tão gordos!, que ainda há pouco discutiam com as rãs num concerto natural, calaram-se; os gatos enroscaram-se, um novelo só; os cães deitaram-se, tranquilos, a minha Ginja em pose de leoa. Ficou tudo quieto, e eu respiro devagarinho também. Estou bem, aqui. Se eu deixasse, de certeza viriam os pensamentos doridos incomodar-me. São tantos… Viriam as desilusões, as maldades humanas, as saudades doridas, as ansiedades profissionais. Mas hoje, agora, eu não deixo que os pensares me incomodem, quero só dar largueza aos sentires.
Reparo nos cedros. Cresceram tanto neste último ano! Estão árvores grandes, frescas, cúmplices da minha tranquilidade fazendo um muro verde-cerrado. Pelo contrário, os loendros não têm crescido nada… Ficam ridículos, parecem um grupo de tias loiras: - muita flor e rentinhos ao chão, sem verticalidade. Coitados, têm de esperar que lhes passe mais um Inverno por cima (aos loendros, não às tias).
Um avião risca o céu. Vejo-o passar agradecendo, agora!, não estar dentro dele. Estou bem aqui, sozinha, no terraço onde o sol morre todas as tardes. Nesta hora, de sexta-feira ainda por cima, há muita agitação no mundo. Em Portugal, com toda a certeza, metade da população faz conjecturas sobre o jogo de futebol Portugal-Inglaterra e outra metade critica a “mania do futebol”. Eu já integrei a segunda metade. Há uns tempos, tempos recentes considerando o Euro 2004, também eu achava um exagero a importância dada ao futebol. Ria-me, não via os jogos e, sinceramente, estava-me nas tintas para quem ganhava. Então, nem o meu patriotismo, esse reconhecidamente exagerado também, me fazia mudar de ideias. Via as bandeirinhas e achava ridículo que só por causa do futebol as pessoas se lembrassem de Portugal. Agora, mudei de lado. Agora, também já vejo os jogos do mundial, aqueles em que joga Portugal, também já insulto os árbitros e vibro com o Figo ou o Cristiano Ronaldo. Até já sei, ao que uma pessoa chega…, os nomes de toda a selecção sendo capaz de distinguir, mesmo a jogar, o Pauleta, o Simão e o Deco.
Neste fim de tarde, aqui tão tranquila, dou por mim a pensar nisto e concluo que só pode haver uma razão para uma tão grande mudança de atitude: - Sem dúvida o futebol é a única coisa que nos dá algum orgulho, que não nos envergonha, que não nos faz lamentar ter nascido em Portugal. A selecção portuguesa tem, para além da enorme responsabilidade de ganhar jogos, a tarefa hercúlea de levantar o moral a um povo que, dia a dia, é maltratado, humilhado, explorado, roubado, etc. A nossa selecção tem gente que ainda sorri, miúdos que correm, um seleccionador que tem objectivos e metodologias. Quem me dera ter um ministro que fosse de quem pudesse dizer o mesmo… O seleccionador nacional mobiliza os seus jogadores para as vitórias, premeia-os, trata-os com profissionalismo mas, também (sente-se isso), com afecto. Os nossos governantes, tratam-nos com ignorância e com rancor. Para este governo, somos todos maus e estúpidos. (Aliás, eles têm alguma razão, pois como se poderia explicar a vitória dos socialistas se nós fossemos um povo bom e inteligente?!) Fixos nesta ideia, desancam nas nossas bolsas, no nosso brio profissional, na nossa identidade, nos nossos sonhos, na nossa inteligência, diária e violentamente. Entretanto, a oposição, aquela tal força que, em teoria, faz funcionar a democracia, parece ter ido de férias: - Não se dá por eles!
Assim, vivendo num momento tão cinzento e doloroso da história nacional, é compreensível que todos nos concentremos no futebol desejando à nossa selecção os maiores sucessos! Eu, talvez porque embalada pelo por-de-sol lindo, pela calma do meu terraço e pelo descante das rãs, ouso desejar mais alguma coisinha: - Scolari para Primeiro Ministro! A ver se a gente sai da mediocridade…
Fim de dia. É a hora de que eu mais gosto. Sento-me no terraço a ver o sol mergulhar, longe, atrás das montanhas, levando um dia inteiro, a estrear, a quem está do outro lado do mundo. Neste momento pára tudo. Os gaios, tão gordos!, que ainda há pouco discutiam com as rãs num concerto natural, calaram-se; os gatos enroscaram-se, um novelo só; os cães deitaram-se, tranquilos, a minha Ginja em pose de leoa. Ficou tudo quieto, e eu respiro devagarinho também. Estou bem, aqui. Se eu deixasse, de certeza viriam os pensamentos doridos incomodar-me. São tantos… Viriam as desilusões, as maldades humanas, as saudades doridas, as ansiedades profissionais. Mas hoje, agora, eu não deixo que os pensares me incomodem, quero só dar largueza aos sentires.
Reparo nos cedros. Cresceram tanto neste último ano! Estão árvores grandes, frescas, cúmplices da minha tranquilidade fazendo um muro verde-cerrado. Pelo contrário, os loendros não têm crescido nada… Ficam ridículos, parecem um grupo de tias loiras: - muita flor e rentinhos ao chão, sem verticalidade. Coitados, têm de esperar que lhes passe mais um Inverno por cima (aos loendros, não às tias).
Um avião risca o céu. Vejo-o passar agradecendo, agora!, não estar dentro dele. Estou bem aqui, sozinha, no terraço onde o sol morre todas as tardes. Nesta hora, de sexta-feira ainda por cima, há muita agitação no mundo. Em Portugal, com toda a certeza, metade da população faz conjecturas sobre o jogo de futebol Portugal-Inglaterra e outra metade critica a “mania do futebol”. Eu já integrei a segunda metade. Há uns tempos, tempos recentes considerando o Euro 2004, também eu achava um exagero a importância dada ao futebol. Ria-me, não via os jogos e, sinceramente, estava-me nas tintas para quem ganhava. Então, nem o meu patriotismo, esse reconhecidamente exagerado também, me fazia mudar de ideias. Via as bandeirinhas e achava ridículo que só por causa do futebol as pessoas se lembrassem de Portugal. Agora, mudei de lado. Agora, também já vejo os jogos do mundial, aqueles em que joga Portugal, também já insulto os árbitros e vibro com o Figo ou o Cristiano Ronaldo. Até já sei, ao que uma pessoa chega…, os nomes de toda a selecção sendo capaz de distinguir, mesmo a jogar, o Pauleta, o Simão e o Deco.
Neste fim de tarde, aqui tão tranquila, dou por mim a pensar nisto e concluo que só pode haver uma razão para uma tão grande mudança de atitude: - Sem dúvida o futebol é a única coisa que nos dá algum orgulho, que não nos envergonha, que não nos faz lamentar ter nascido em Portugal. A selecção portuguesa tem, para além da enorme responsabilidade de ganhar jogos, a tarefa hercúlea de levantar o moral a um povo que, dia a dia, é maltratado, humilhado, explorado, roubado, etc. A nossa selecção tem gente que ainda sorri, miúdos que correm, um seleccionador que tem objectivos e metodologias. Quem me dera ter um ministro que fosse de quem pudesse dizer o mesmo… O seleccionador nacional mobiliza os seus jogadores para as vitórias, premeia-os, trata-os com profissionalismo mas, também (sente-se isso), com afecto. Os nossos governantes, tratam-nos com ignorância e com rancor. Para este governo, somos todos maus e estúpidos. (Aliás, eles têm alguma razão, pois como se poderia explicar a vitória dos socialistas se nós fossemos um povo bom e inteligente?!) Fixos nesta ideia, desancam nas nossas bolsas, no nosso brio profissional, na nossa identidade, nos nossos sonhos, na nossa inteligência, diária e violentamente. Entretanto, a oposição, aquela tal força que, em teoria, faz funcionar a democracia, parece ter ido de férias: - Não se dá por eles!
Assim, vivendo num momento tão cinzento e doloroso da história nacional, é compreensível que todos nos concentremos no futebol desejando à nossa selecção os maiores sucessos! Eu, talvez porque embalada pelo por-de-sol lindo, pela calma do meu terraço e pelo descante das rãs, ouso desejar mais alguma coisinha: - Scolari para Primeiro Ministro! A ver se a gente sai da mediocridade…