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sábado, agosto 07, 2004

História Encantada (por escrita desencantada)
É algarvia, de Loulé, a moura Cássima.
Não! Vou dizer a verdade, respeitar as origens das mouras, ainda que encantadas, num tempo de identidades já excessivamente baralhadas. Vou voltar ao princípio: - É moura, a Cássima. Isso, porque uma pessoa, pelo menos muitas pessoas, pertencem ao lugar onde amam e não àquele onde viveram ou morreram. A Cássima nasceu em terras mouras, para lá de Marrocos, e lá se apaixonou, perdida e intensamente, com a força que só as mulheres crentes no sonho, na fantasia, conhecem. Depois, o Pai trouxe-a para Portugal e ela viveu em Loulé, passeou nos jardins que o louro cheiroso protegia e chorou frente ao mar as saudades da pele escura que desejava tocar. A Cássima tinha irmãs, todas formosas, nenhuma tão bela quanto ela.
Um dia, um dia de sol quente de Algarve, em vez de ir à praia a Cássima viveu o medo e a ameaça: - Vinham a caminho os cristãos, carregados de crucifixos e espadas, bestas e bíblias, orações e morte. Vinham, diziam, trazer a todos a Verdade do Deus deles. Cássima, mais uma vez, olhou o mar. Era tudo estranho! Porque tinha o Pai chegado a um lugar distante, de língua estranha, aromas novos, areias douradas? Porque tinha o mar, imenso!, o gosto das suas lágrimas? Porque ficara o seu amor, o veludo onde queria aportar, do lado de lá do oceano? E porque vinham aqueles homens, carregados de ódio e livros de fé, exigir a sua morte? Perdida no horizonte, tentando que os pensamentos arrancassem respostas às sereias que via sobre as ondas, nem teve tempo de mudar de véu antes que o Pai, detentor de muitos poderes, a enfeitiçasse no fundo de um poço. Um dia, ele garantira, alguém viria quebrar o encantamento e levá-la de volta ao seu País, ao seu Amor, aos sabores intensos da sua origem.
Cássima ficou no fundo do poço. Um poço com nora, água tirada por muitos burros, todos de vendas nos olhos. Ela não tinha vendas. Tinha o olhar da alma bem desperto, as saudades incendiadas, o desejo de fuga ardente. De noite, sempre que a lua a espreitava e o velho cheiro do mar chegava à nora, a Cássima saía da sua prisão para, como outrora, misturar com as ondas as suas lágrimas de saudade.
Os dias passaram, os anos também, os séculos fizeram História e, da Cássima, muitas histórias se contaram. Ali, juntinho à nora, nasceu uma Casa também mágica, com espaço para ternura, paredes feitas de muita mágoa e muito amor. A Casa tomou o nome da moura e prometeu, acho mesmo que jurou tendo as osgas gordas por testemunhas, que para sempre iria proteger a moura prisioneira e, para sempre também, iria privilegiar o Amor. A Cásima, aos poucos, habituou-se à nova Casa, à sua nova vida também.
Hoje, de noite sempre, muitas vezes a moura algarvia escapa ao feitiço e vem espreitar a piscina, lamentar-se dos prédios grandes que a não deixam ver o mar, saber daqueles que, amando, por ali andam agora, como ela outrora, prisioneiros de outros feitiços, resultado do sempiterno Amor.
Uma noite eu ouvi a Cássima. Havia lua, estrelas sem fim, e o vento, que antes despenteava as muitas árvores, calou-se de repente. Eu despertei de um sono acordado e olhei a janela. A princípio, confesso, temi uma osga,( não há maneira de me adaptar aqueles seres repelentes e rastejantes), mas depois espreitei melhor, abri a portada verde e vi a Cássima. Estava com um véu branco, pulseira de mil lantejoulas no tornozelo, o cabelo preso por um diadema de estrelas, sentada no banco de ferro. Mexia-se ao de leve, dança do ventre inconsciente, e a lua iluminava o brilho das lágrimas que corriam. Descalça, ignorando as osgas, saí de mansinho e sentei-me junto dela. Cheirava bem, canela-cacau-pimenta-mar, e não se incomodou com a minha presença. Os olhos compridos, negros, carregavam areia dourada de um deserto que desconheço. No meio, uma tenda, branca também, água de oásis correndo cantando.
Sem me olhar, a Cássima perguntou-me da vida. E eu contei. Abri a tranca das catorze chaves do meu coração, soltei as amarras de muitos nós da minha cabeça e falei de tudo. Disse da família que não sei, do abraço que não tenho, das noites geladas no lençol branco, do medo de cada alvorada, da paixão pelo pôr de cada sol. Falei-lhe de inconfessáveis, desejos e ambições, e ela cantou, voz quente de jazz ondulado, numa língua que desconheço. No meio da melodia, sentindo-me embalada por um navio grande feito de ternuras ousadas, distingui – juro! – a palavra sonho. Depois, subitamente, a Cássima olhou-me nos olhos e leu-me a alma. Toda!
Felizmente, não há dicionário para leituras de mouras, ainda que algarvias...

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