domingo, dezembro 19, 2004
VENEZA
Apetece-me Veneza. Um espaço diferente, único, onde possa esquecer que existe Portugal, que existe Lisboa, que existo eu.
...Revejo a ponte dos suspiros, trazida pela imaginação, e esqueço os lamentos dos condenados. São as iluminações de Natal – porque também em Veneza é Natal! -, que me enchem os sentires. Deixo que a gôndola deslize, espreito o homem que, com arte, conduz pelo canal que, porque a viagem é de sonho mesmo, nem cheira mal sequer. Olho o céu. Céu de Natal, brilhante, azul-verdadeiro. Não vejo lá o Menino, anjos tampouco, mas vejo o risco branco do avião que corta as nuvens brancas. Então encosto-me ao ombro seguro e fecho os olhos, deixo o ondular suave da gôndola embalar-me para outro mundo ainda.
...É um mundo novo, nunca visitado, sem política, onde tudo faz sentido. No trono, porque mesmo sendo uma república há um trono lindo, senta-se o amor. Ao lado, conselheiros atentos e conscientes, a verdade e a compreensão, de mãos dadas com a ternura e ousadia. A música vem de violino e eu deixo-me encantar. Não há fadas, nem bruxas, mas há possíveis de azul e branco, rindo, descontraídos, desconhecendo o poder do euro, do dólar até. Entreabro os olhos, de mansinho para não assustar o sonho, e certifico-me que ele está lá ainda, firme, embalando a minha sonolência, acarinhando o meu sonhar. Reparo no homem do remo. Alto, jovem ainda, com lenço vermelho e um olhar de quem consegue, ainda que com um remo só, levar a vida também a bom porto. Os canais apertam-se agora. Vejo outros casais, vejo a felicidade vestida com mil cores e sinto o Natal que as iluminações tornam ainda mais quente.
Um dia nasceu um Menino Mágico. Era uma noite também assim, com luz e estrelas, com brilho especial, com frio intenso. A ideia do Menino Deus nas palhinhas, ou as gotas que saltam do canal, ou o calor morno que me aguçam os sentires, molham-me o rosto. Ele sente. Sorri e não comenta.
Porque não há comentários para uma lágrima boa, porque o silêncio tem muito que dizer, porque, naquele momento, de novo passamos junto da ponte dos suspiros de onde o Casanova escapou. Eu não queria um Casanova. Tampouco queria escapar. Se pudesse, e hoje posso, eu quero ficar eternamente ali, sob o manto de luzes e estrelas, abraçada no quente do ombro silencioso, deixando que o homem do lenço me conduza pelos canais cheios.
Quero um Natal diferente. Só a dois, sem família, sem saudades, sem ausências, sem presentes, sem azevias, sem filhós, sem missa do galo, sem televisão e sem notícias. Aquele era o meu Natal. O primeiro de muitos Natais de uma nova vida, de um recomeço real, verdadeiro, tão possível como os possíveis que, sempre de azul e branco, continuam rindo na corte do Amor...
Apetece-me Veneza. Um espaço diferente, único, onde possa esquecer que existe Portugal, que existe Lisboa, que existo eu.
...Revejo a ponte dos suspiros, trazida pela imaginação, e esqueço os lamentos dos condenados. São as iluminações de Natal – porque também em Veneza é Natal! -, que me enchem os sentires. Deixo que a gôndola deslize, espreito o homem que, com arte, conduz pelo canal que, porque a viagem é de sonho mesmo, nem cheira mal sequer. Olho o céu. Céu de Natal, brilhante, azul-verdadeiro. Não vejo lá o Menino, anjos tampouco, mas vejo o risco branco do avião que corta as nuvens brancas. Então encosto-me ao ombro seguro e fecho os olhos, deixo o ondular suave da gôndola embalar-me para outro mundo ainda.
...É um mundo novo, nunca visitado, sem política, onde tudo faz sentido. No trono, porque mesmo sendo uma república há um trono lindo, senta-se o amor. Ao lado, conselheiros atentos e conscientes, a verdade e a compreensão, de mãos dadas com a ternura e ousadia. A música vem de violino e eu deixo-me encantar. Não há fadas, nem bruxas, mas há possíveis de azul e branco, rindo, descontraídos, desconhecendo o poder do euro, do dólar até. Entreabro os olhos, de mansinho para não assustar o sonho, e certifico-me que ele está lá ainda, firme, embalando a minha sonolência, acarinhando o meu sonhar. Reparo no homem do remo. Alto, jovem ainda, com lenço vermelho e um olhar de quem consegue, ainda que com um remo só, levar a vida também a bom porto. Os canais apertam-se agora. Vejo outros casais, vejo a felicidade vestida com mil cores e sinto o Natal que as iluminações tornam ainda mais quente.
Um dia nasceu um Menino Mágico. Era uma noite também assim, com luz e estrelas, com brilho especial, com frio intenso. A ideia do Menino Deus nas palhinhas, ou as gotas que saltam do canal, ou o calor morno que me aguçam os sentires, molham-me o rosto. Ele sente. Sorri e não comenta.
Porque não há comentários para uma lágrima boa, porque o silêncio tem muito que dizer, porque, naquele momento, de novo passamos junto da ponte dos suspiros de onde o Casanova escapou. Eu não queria um Casanova. Tampouco queria escapar. Se pudesse, e hoje posso, eu quero ficar eternamente ali, sob o manto de luzes e estrelas, abraçada no quente do ombro silencioso, deixando que o homem do lenço me conduza pelos canais cheios.
Quero um Natal diferente. Só a dois, sem família, sem saudades, sem ausências, sem presentes, sem azevias, sem filhós, sem missa do galo, sem televisão e sem notícias. Aquele era o meu Natal. O primeiro de muitos Natais de uma nova vida, de um recomeço real, verdadeiro, tão possível como os possíveis que, sempre de azul e branco, continuam rindo na corte do Amor...
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