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domingo, junho 19, 2005

Não li os jornais, não vi televisão, não ouvi a rádio. Desliguei do mundo por uns tempos e, devo confessar, não tenho vontade nenhuma de restabelecer o contacto. Soou-me a morte do dr. Álvaro Cunhal, a do Vasco Gonçalves também, mas não prestei nenhuma atenção porque, muito sinceramente, eram pessoas que nada me diziam. Lembro-me deles, claro!, mas lembro também que nunca me prometeram nada de bom e que sempre me assustaram as medidas que defendiam. Morreram, coitados. Pronto, não penso mais nisso e olho para mim, pastora de sonhos solitários.
A minha vida faz-se, agora, de repente, porque a morte vem sempre de repente, de mais solidão, de incomensurável saudade. E quero reagir. Sei que é preciso reagir, recuperar o calor do sol na pele molhada, saborear a frescura da água da piscina, deliciar-me ainda com a gulodice dos pardais e a calma viscosa dos cágados e das rãs. Mas não tenho forças!
Às vezes, chego a pensar que a escrita é, para mim, a companhia mais sólida, mais constante. Veleidades... Por isso, escrevo de alma escancarada na esperança, tantas vezes inglória, de ficar mais leve de sentires
Dói-me a minha solidão. É uma solidão mascarada, tipo entrudo, porque quer fingir não ser aquilo que, de verdade, é. A minha solidão, muitas vezes, está cheia de sorrisos mais ou menos amigos, conversas simpáticas, ares partilhados. Chega até, de quando em vez, a trazer-me companhia para a noite e a embalar-me carinhosamente fingindo ser companhia real-eterna. Mas depois, num instante, devorada por um Chronos insaciável, a partilha desaparece e a solidão, com o à-vontade doloroso que o tempo lhe dá, instala-se outra vez, mais gorda ainda, maquilhada de dor e mágoa, adornada com a desilusão que cresce.
Dantes, eu acreditava mesmo em diferentes oportunidades, em hipóteses novas. Ingénua! Cheguei mesmo a acreditar que seria feliz outra vez, que o meu corpo reaprenderia o veludo de outras mãos, que voltaria até a desinquietar os anjos nos momentos de perfeita cumplicidade. Burra! Muitas vezes, sobretudo no Verão, junto ao mar, olhei a imensidão azul, as ondas irrepetíveis e pedi ajuda confessando inconfessáveis. E ouvi respostas promissoras na onda que apagava a marca do meu pé na areia molhada. Mas as ondas eram mentirosas. Garantiram-me que há sonhos renovados e, a vida, essa verdadeira, ensinou-me que só se sonha uma vez. Eu já sonhei e já acreditei. Dantes... quando a minha cama nunca era grande demais.
Agora, para juntar aos estilhaços do meu sonho, foi embora o meu porto de abrigo. E sei que é preciso reagir. Sorrir. Reinventar a alegria! Mas não sou capaz. Não tenho mais forças, este mar é revoltoso demais para o que eu aprendi na natação...

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