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domingo, julho 03, 2005

Olha a mala aberta sobre a cama de casal. Está quase pronta, ele é meticuloso nas arrumações, dobrou boxers e gravatas, alinhou as camisas num esquema cromático perfeito. Se fosse a mala dela, a ordem seria a dos afectos: - por baixo, para se amarrotarem, as roupas que menos gostava; por cima, relativamente bem dobradas, as roupas que preferia. Sempre assim fora. Ela privilegiando afectos, emoções, sentires; ele olhando as normas, a razão, o correcto... Ele levava as camisas mais frescas, decerto o destino seria, desta vez, espaço de sol e mar. Ele ia partir, deixando um beijo rápido, garantindo a impossibilidade de ficar, alegando razões profissionais inadiáveis e irrecusáveis. Ela ficava. Outra vez. Penélope da modernidade permanecia em casa, justificando a solidão com o trabalho de mulher moderna, esperando no silêncio da casa vazia o regresso dele. Pelo meio, claro, os telefonemas frequentes, a garantia de que tudo estava bem apesar de ser um frete. Uma chatice um jantar mais, uma canseira um passeio por sítios que ela desconhecia, uma estafa a entrada em monumentos que ela nunca vira. Ela fingia acreditar e, numa hipocrisia sofrida, queria saber da sua saúde, se descansara, se estava bem disposto. E às vezes apetecia-lhe desejar que estivesse péssimo, que morresse de saudades dela, como ela agonizava com as saudades dele...
A mala ainda não estava fechada. Decerto lhe faltava arrumar o estojo da barba, a máquina fotográfica, alguma informação sobre o lugar para onde partia. Ela lembrava-se do fascínio que experimentara quando, viajando juntos nas primeiras vezes, o vira encontrar nas bolsas pessoais toda a informação possível sobre os lugares que estreavam. Então, ele saía com ela, juntos desvendavam cheiros, perdiam-se nos labirintos das cidades grandes e partilhavam sabores que ousavam experimentar. Então, ele não partia sem ela e, entre as tais reuniões chatas..., havia espaço para um beijo, uma conversa, uma cumplicidade tecida de compreensão. Olhou de novo a mala pronta e a fotografia que, sobre a cómoda antiga, os mostrava abraçados, em Londres, indiferentes ao frio que naquele inverno se sentia no Hyde Park. Onde tinham eles começado a afastar-se? Porque era ela a Penélope da modernidade, a bordadeira de uma relação eternamente suspensa de um regresso, tremente face a mais uma partida? Era uma mulher moderna, trabalhadora, inteligente. Porque aceitava vestir o manto de Penélope? Ninguém a forçava... Olhou as camisas. Ficava lindo, ele, com a azul de risquinhas e as calças de linho que, de certeza, estariam já dobradas por baixo da outra roupa. E ela amava-o, e nem sentia ciúmes. Sentia, e como!, uma imensa distância numa relação que, um dia..., fora próxima e intensa. E se ela partisse também? Como dizia Torga “...o que importa é partir!”. O que a prendia ali, a um destino que não queria, a um futuro que ele prometia sempre entre uma chegada, uma partida e uma recordação comprada algures? A velha cómoda provocava-a. Ali estava uma gaveta cheia de écharpes, caixinhas, recordações que ele lhe trazia de lugares dos quais ela não tinha saudades. Seria o destino das mulheres eterno? Seria a modernidade compatível com a Penélope do computador? Sorriu de si mesma, pela ousadia de se pensar Penélope, pelo ridículo de ver a bela grega teclando num p.c. moderno. Tantos séculos de distância e tanta proximidade!
Escovou com força os cabelos e olhou de novo a moldura inglesa. Ela não era Penélope. Ela podia partir, também, buscando um novo olhar, desafiando o destino, provocando um Fatum que insistia em atraiçoá-la. Ela podia ser livre, tentar recuperar a magia da partilha, reinventar o fascínio da descoberta do mundo de mãos dadas. Talvez, afinal, as partidas dele não fossem senão o sinal para que ela própria encontrasse um outro caminho, iniciasse uma nova caminhada.
O céu do fim de uma tarde quente, vermelho, lembrava sangue. E ela sentia-se sangrar por dentro. Tinha de decidir! Era tempo de parar de tecer o manto de Penélope com pérolas de lágrimas e fios de solidão. Era tempo, agora, de procurar a coragem de outras mulheres e de ir à luta. A luta pelo amor, pelo direito à felicidade, pela realização dos afectos partilhados...
Com calma, sem lágrimas, fechou a porta do quarto e saiu sozinha. Agora, era ela quem saía. Da vida dele. Da dela também.

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