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sábado, agosto 13, 2005

CONTRASTES
Chama-se Beatriz. Um destes dias, no meio do campo guardando cabras, viu tudo encher-se de fumo. As cabras, conta ela, pensaram que era de noite e ficaram aflitas. Ela, mais esperta nos seus seis anos, percebeu o perigo do fogo e, a correr, trouxe as cabras de volta para casa. Chegou e viu tudo cercado de lume. Os pais, com baldes, gritos e mangueira, tentavam manter as chamas afastadas e a mãe disse-lhe que, a correr, levasse a avó para longe.
A avó da Beatriz, já velhota, mexe-se com dificuldade e, enquanto chegava à porta da rua, a Beatriz correu a salvar o periquito e a bola azul. Depois, pedindo à avó que se esforçasse para andar um pouquinho mais ligeira, a Beatriz levou os seus tesouros para longe de casa. Nos olhos grandes da menina as chamas teciam fantasmas e medos. Os gritos da mãe enchiam-lhe a cabeça e o medo fazia-a agarrar com mais força ainda a bola azul, a gaiola do passarinho e a mão rugosa da avó velhinha.
Quando voltou para casa, depois de ter deixado o periquito voar para longe do fogo, a Beatriz viu que a noite tinha ocupado o seu espaço. Em vez do verde da mata, das agulhas dos pinheiros, só havia cinzas, fumo, negro mais escuro que o luto eterno da velha avó. A Beatriz mora em Carrazedo de Cabogueiro, concelho de Vila Pouca de Aguiar. A Beatriz é portuguesa.
Chama-se José Sócrates. Um destes dias, no meio da vasta savana africana, acordou com o horário dos animais selvagens, regozijou-se com a presença dos filhos bem perto e espreitou a rua. Era uma planície a perder de vista, pintada de raios laranja de um sol jovem, acabadinho também de despertar. Sem fazer ruído, chegou à porta do Hotel de Luxo e viu as zebras que, ali perto, iniciavam o dia. Ao longe, ouviu os elefantes e, satisfeito, pensou que com certeza iria ter a sorte de os observar em breve. Os filhos levantaram-se, também eles seduzidos pela magia de África. Lindo! Era o cenário de África Minha, pensava ele, lamentando que a idade dos filhos não lhe permitisse partilhar a recordação. O pequeno almoço de frutos exóticos, leite fresco, sumos variados, ajudou a reforçar a boa disposição. Esperava-os um dia intenso: - Passeio de jipe, safari fotográfico e, à tarde, um voo em balão para, da tranquilidade dos céus, observar a selva e os seus habitantes.
Fantástico estar no céu. No céu silencioso, sem o ronronar dos motores dos aviões que tão bem conhecia. Ali tudo era perfeito: - as cores, os odores, os olhares. Colocou o largo chapéu, ajeitou a toilette caqui, bem a propósito, verificou a presença dos repelentes de insectos e saiu para mais um dia perfeito. De férias. De lazer excepcional. José Sócrates vive em Lisboa, quando não está em férias no Quénia, ou viajando pelo mundo em nome do país. José Sócrates também é português.
Olho as duas realidades e, porque sou portuguesa também, não consigo perceber a intensidade do contraste. Não condeno o primeiro ministro português por fazer férias. Talvez as mereça, qualquer cidadão as merece. Mas, no entanto, faz-me confusão que com o país no fundo do pântano, com a crise a crescer todos dias, com as florestas a arderem e pessoas a perderem tudo, incluindo a vida, o primeiro responsável pelo governo do país esteja... no Quénia! Se a situação não fosse tão dramática, até seria capaz de achar graça à escolha do destino de férias. Afinal, cada um escolhe os lugares com que se identifica e, quem sabe?, é no meio das feras que José Sócrates está habituado a viver.
A aumentar o meu espanto, a fazer crescer a minha indignação, vem o ministro da administração interna dizer que está tudo bem, que não há razões para se declarar o estado de calamidade. Será que o Portugal do governo é o mesmo dos outros portugueses?
Duvido...

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