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sábado, fevereiro 11, 2006

Lá longe....
O abrir da janela revelou-me um mundo diferente. Era a minha paisagem de eleição! Em tempos, competira com o mar. O barulho das ondas, a areia denunciando corridas de gaivotas, o cheiro das algas, eram intensas experiências para os meus sentires. Mas a praia perdeu na competição com a neve. Aqui, no meio da montanha, abrindo a janela para o branco que os primeiros raios de sol pintam de tonalidades rosa, tudo me parece diferente. Reparo nas árvores, pesadas, grávidas de penitências brancas, promessas puras a existir. Um dia... Como este. O meu primeiro dia nas montanhas que tão bem conheço e onde me escondo, uma brevíssima semana por ano, para recuperar energias e voltar a acreditar na existência, é um dia especial. Está frio. Frio forte, másculo, que acaricia enquanto me faz encolher-me e fechar a janela. De novo me deito sobre a cama olhando a rua.
Neve! Aqui, por que magia?, todo o quotidiano parece fazer muito pouco sentido. Que importância têm as idiotices do Ministério da Educação, as incongruências do governo português, as barbaridades ditas pelo Ministro Freitas, as OPA’s do Belmiro, as fundações do Champallimaud, quando tenho seis dias – inteirinhos! -, para conviver com a força da montanha? Claro, que remédio..., depois vou ter de voltar. De novo encontrarei a normalizada mesquinhez, a habitual pequenez, o cinzentismo de um país que, pouco a pouco, deixa de ser o meu... Mas faltam cinco dias!!
Saio do hotel pequeno, de madeira, depois de um pequeno almoço em língua estrangeira, carregando os skis e bem fechada no casacão laranja. Fico estranha assim, com cores intensas, eu que sempre prefiro os escuros, os discretos, a invisibilidade. Aqui, bem ao contrário, quero ser vista, quero a cor forte, apetece-me rir e sorrir buenos dias a todos os que, como eu, sobre os ombros levavam os skis. Olho de novo a montanha. Carrego o peso, imenso!, das saudades. Embora na alma, ou por isso mesmo, pesam mais do que os skis... Mas até a saudade, a falta imensa de quem partiu definitivamente, aqui se veste de cores mais garridas. Enfio o scarf com força, tentativa de esconder a sombra que me tapa os sentires?, e entro no teleférico. Dez minutos e estariei lá em cima, a mais de dois mil metros de altitude, sobre o mundo, deslizando contra o vento, solta, podendo ser eu mesma, sem social ou profissionalmente correctos. Antes, claro, o expresso. O café forte, amargo, a dizer-se masculino, a sugerir ausências sempre presentes. O sol espreguiça-se já. Empurrou o cobertor de nuvens e, troçando dos esquiadores encasacados, aquece a montanha. Eu vivo. Aqui, sozinha, sentires à solta, memórias sossegadas, desejos cansados, vejo a vida e não penso - não queria pensar! - no pouco sentido que tantas vivências têm.
Saudades? Sim, batem-me no rosto, tornam-se húmidas, misturam-se com as gotas de neve que me molham a cara. Desejos? Também, muitos, de impossíveis quase todos. Mais uma pista. Descida rápida, gelo ainda sobre a neve, o ruído diferente do ski, a necessidade de concentração, as imagens a passarem rápidas, coloridas, mais rápidas ainda. Estou longe. Longe de casa, sim, mas da sua realidade também. A língua diferente, os rostos desconhecidos, as comidas estranhas, tudo me faz sentir-me outra pessoa. Ou mais pessoa. E, sentada na esplanada de Montebajo, penso ainda na necessidade de ser pessoa. Aqui, noutro mundo, tão longe..., a minha terra, o meu país, o mundo que não é, definitivamente!, o meu, chegam abusivamente e dizem presente. Como podem os homens estragar a existência com coisas menores quando a vida tem montanhas, neve, mar, sol, vento e raposas matreiras como aquela, aqui zorro!, que espreita com descaramento os esquiadores invasores do seu espaço?
À tarde, quase noite, depois do banho de imersão longo-longo, com os sentires quentes e desejos exacerbados, saio para a praça vendo, aos poucos, a montanha cobrir a sua intimidade com o manto de estrelas. Amanhã, será mais um dia.
Longe...muito longe... e como me sabe bem estar longe!

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