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domingo, abril 30, 2006

No Dia da Mãe, ou muito perto dele, surge-me a terrível angústia do tempo que já passou. O passado traz sempre, ou eu sinto sempre, vivências coadas de onde escorreu o mal. Por isso, vejo as minhas meninas pequenas, saudáveis, divertidas, choramingando quando, à noite, me sentava na beira da cama para lhes ler “O Meu Pé de Laranja Lima”, as “Aventuras dos Cinco” ou os “Contos” de Miguel Torga. Era a hora melhor do dia: abria o livro e começava a ler, fazendo muitas vozes, explicando as palavras difíceis e adoçando os momentos mais dolorosos. Lembro-me da minha filha mais velha chorando lágrimas de protesto perante a morte do Miúra; sinto ainda as lágrimas da pequenina quando o Portuga morreu e o Zézé ficou sem amigos! Mas lembro também os olhos brilhantes suspensos das aventuras dos Cinco, as gargalhadas felizes perante as saídas da Ana ou da Zé. Nesse tempo, eu era Mãe-Mulher. Assim que as crianças dormiam, deixando sempre a luz acesa para afastar sombras de medos, tinha à minha espera um homem que me queria, que não conhecia as aventuras dos meus livros mas tocava com perícia cada nota do meu corpo. Então, a vida fazia sentido, o futuro estava vestido com o fascínio de todos os possíveis que o sonho encerra, e a minha cama nunca estava fria. Trabalhava muito também. Tinha os meus alunos, a pouca experiência, um curso para acabar, pouco dinheiro, problemas familiares, mas tinha, para além de tudo isso, um Amor imenso que julgava eterno!
O tempo foi passando, o meu estado civil mudou no meu bilhete de identidade e as histórias que contava à noite, os Contos de Sophia, as poesias de Sebastião da Gama, antecediam noites de lágrimas e solidão. Então, o meu corpo de mulher gemia e sangrava por dentro na saudade viva do abraço, do beijo, do corpo colado e cobrir o meu, da união perfeita a uma voz só. Acabei o meu curso, ganhei experiência profissional e, entre cada aula que preparava, entre um poema de Torga e uma estrofe de Os Lusíadas, a minha alma morria um pouco vendo esgotar-se o tempo de Mulher. As minhas meninas cresceram também, ficaram mulheres. Pequeninas mantiveram-se na minha mesinha de cabeceira, na minha carteira, nos mil cartões que guardo, religiosamente, de muitos Dias da Mãe.
O tempo continuou correndo, na pressa de chegar ao fim, de esgotar possíveis, de consumir sonhos. Hoje, junto das inúmeras recordações e da imensa saudade, guardo a dor de um quotidiano vazio de sentires-verdadeiros. Hoje, a Mãe que eu sou chora a mulher que fui, teme a solidão do quarto e arrepia-se com o frio dos lençóis que o edredão tenta, sem sucesso, mascarar. Hoje, já não há o corpo que me cobre, completando-me, não há o ombro que me acolhe no sofá, não há ouvidos para a minha história de vida que se escreve a preto e vermelho. Hoje, a velhice anuncia-se solitária e o Dia da Mãe faz muito pouco sentido. Hoje, a Mãe que sou aguarda o estatuto de avó, diz o povo que “mãe duas vezes”, e lamenta a mulher que já não há.
Ah! Mas eu queria que um sonho se tornasse realidade. Um sonho que as histórias que lia às minhas crianças me ensinaram a sonhar… Eu queria ter ao meu lado, de novo e para sempre, um ombro de apoio, um corpo que me aquecesse, uma palavra que me ajudasse a enganar a realidade terrível que a celulite garante! Queria ser Mãe-Mulher outra vez. E não sinto que seja crime o que desejo, não me sinto criminosa por desejar sentir e viver!
Dia da Mãe. Dia de cartões floridos, presentes, flores. Para mim, mais um dia de vazio, de futuros definitivamente adiados, de recordações dolorosas, de insónia húmida e difícil!
Felizmente, a minha filha faz anos a 7 de Maio!

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