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domingo, junho 18, 2006

Em VIENA
Despejo tudo em cima da cama. Cama de hotel, estranha, cidade linda onde a noite é curta. É preciso pôr ordem na desordem de cinco dias em viagem. As cuecas longe das t-shirts, palavra estrangeira de que não gosto. Oiço a vida lá fora. A roupa suja pode ir enrolada, tem de acabar enfiada na máquina mesmo. Sons estranhos, língua arranhada, montanhas com neve que refresca na televisão. E as compras? As saudades que quis matar com pequenos presentes e que, agora, não encaixa no meio da roupa, no cantinho do casaco que não cheguei a vestir. Apetecia-me partir assim. Sem mala, sem ter de arrumar a desarrumação que um quarto de hotel sempre permite. Não há buzinadelas estridentes, entra sol pela cortina que corri a evitar o calor excessivo. Duas janelas, para proteger do frio?, num dia de desacostumado calor. Eine kleine Kaffee, e vem uma bica boa, boa mesmo, sabendo a café de Portugal purificado. Sem lágrimas de mares por conquistar, sem noivas por casar, embalado por Mozart, melodia que sai suave dos pulmões da cidade. Violinos. Piano. Será que a caneca com a palavra Viena se vai partir se for enfiada na mala? Dobrar as calças é tarefa desnecessária, bem enroladinhas ocupam menos espaço! Golo de Portugal! Cristiano Ronaldo, um penalty, euforia. É o meu país, de longe, a fazer golo na vida que insiste em esgotar-se em faltas e foras de jogo. Ali saltam portugueses, como eu, reconheço a língua, identifico os berros, olho de novo a rua onde os engarrafamentos são silenciosos. Falta arrumar o livro. Saramago e Pessoa, a pretexto do ano da morte de Ricardo Reis. A originalidade forçada, construída com a essência de outros, de outro, do génio que é Pessoa. O tal, Pessoa que não é pessoa. Que excede e vence, surpreende e atrai sem nunca ter ido a Viena. Fica de fora, agora. Vai na mão, será boa companhia no avião. Pessoa, Saramago não. Pessoa nunca se sentou no café de Freud. Eu sim. E ele. Tocamos as mãos, cruzamos olhares, sentimos emoções e fotografamos realidades inexistentes. A felicidade! A de instantâneos. Que outra não há. Fotografamos sorrindo can you take us a photo, please? que of course. E ficamos os dois, olhando o passarinho que não voou, presos na gaiola do momento, mãos numa só que o clic não captou. E Freud a fazer-se presente, e eu sem querer ouvi-lo. Antes uma Sissi Tarte. Boa, doce, macia, cheia de histórias que ela inventa e ele sorri. Brinca, que não foi assim, que o Imperador, o pobre Francisco José, amava-a demais. Impossível. O amor, seja lá o que for para além da palavra gasta, prostituída, diria Sophia que, se calhar, também se sentou no café de Freud, nunca é demais. Tenho de isolar os pacotes de açúcar que quero levar para a colecção que a minha filha tem debaixo da cama. Se forem soltos, na mala, chegarão rotos e a roupa excessivamente doce. Para fazer inveja à vida, talvez, essa azeda demais. É preciso, também, guardar espaço para as coisas de última hora. E não posso esquecer-me de nada, querendo esquecer-me de tudo. Ou quase. Da vida que me espera no país onde o penalty de Ronaldo faz festa, da rotina de um quotidiano de desilusões, da saudade de quem sei que não estará em casa para ouvir o meu relato de mais uma viagem. Fernando Pessoa havia de ter gostado de Viena. Das ruas largas para dar passadas compridas, dos cafés servidos por sorridentes smokings, das senhoras loiras que se descalçam no comboio, das ruas lindas que se chamam strasses. As palavras que me brincam na boca não ocupam espaço. Que bom: - a mala está a ficar cheia…Vamos jantar? Vamos comer a Sacher torte? E eu concordo que sim. É bom dar-lhe o braço, a ele que sem ser ali está, ouvir as explicações que se perdem esbarrando com o olhar cheio de fascinada surpresa, deixar-me conduzir nas escadas rolantes, encostar à direita, tudo aqui tem ordem, e entrar em Neubaugasser achando que a palavra, por antinomia talvez, me lembra o reino de Lilliput. Bolo de chocolate delicioso, fantástico, mágico, recheio húmido e companhia branca. Ele conta-me a história, explica, e eu vejo Sissi entrar, olhar triste, carregando a condenação de um destino que, sem conhecer adivinha. Tranco a mala.
Um dia, se o tal destino, que nem sequer usa smoking…, permitir, vou voltar a Viena. Com ele. Contigo.

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