sexta-feira, junho 09, 2006
Tinham-me garantido que o tempo funcionava. Que a sucessão de dias, de horas, de milhões de minutos e triliões de segundos tornaria a saudade menos dolorosa. Que era sempre assim, diziam, que ia conformar-me e a dor intensa havia de ser substituída por uma saudade doce, vaga, menos difícil de suportar. Enganaram-me! Enganaram-me fazendo, indecentemente, coro com a vida. A saudade não diminuiu, não dói menos, não é doce nem poeticamente suave. A saudade cresce, enterra-se no fundo da alma, cria raízes que se emaranham nos sentires e dói cada vez mais. O meu Pai, hoje, não é a recordação suave que me prometeram. O meu Pai é a presença constante, intensa, que me faz sangrar de dor. Passou um ano. Um ano muito atribulado, cheio de mil coisas, boas e más, acho que mais más que boas, mas, sem exageros, um ano muito marcante. Vivi experiências novas – algo que julgava impossível depois dos 40…-, sonhei – sempre demais…-, trabalhei – num esforço constante de fazer melhor o meu trabalho –e a saudade, feita presença, esteve e está sempre comigo. No lugar do meu Pai não nasceu nada de novo. Ficou a dor só. A dor do vazio, da solidão que aumentou terrivelmente. Agora, os serões são mais escuros e as tardes de Verão, o ouvir o cuco, o limpar as almofadas das cadeiras da piscina, fazem menos sentido. Agora, a minha solidão cresceu, fez-se imensa e aterradora.
Passou um ano inteiro e dói cada vez mais.
Às vezes, naquela hora mágica em que a natureza pára, antes da noite chegar, quando o sol se despede e até os bichos sossegam, sento-me olhando o mundo e sinto o meu Pai ali mesmo, junto de mim, pronto para me perguntar das políticas, para me mandar buscar os óculos ou o telefone, ou para me desafiar para a voltinha do costume ao final do dia. Às vezes, saio mesmo com ele. Conto-lhe das dores que sinto fundas, da saudade, do medo do amanhã, da mágoa que experimento. Mas ele não me responde. Não se ri quando eu insulto a ministra da educação ou o engenheiro Sócrates, não quer saber das historietas que me irritam e fazem as politiquices mais caseiras.
Porque há um ano que o meu Pai se despediu de mim, com sossego, apertando a minha mão como quando, na célebre trovoada da minha infância ele tapado com um cobertor de papa, eu lhe garantia que não ia acontecer nada de mal. Agora, hoje, não há cobertor de papa que me proteja, e aos raios da trovoada que assustam a minha existência não se sucedem nuvens cor-de-rosa e cheiro a terra molhada.
O meu Pai era, de certeza absoluta, a melhor pessoa do mundo. O meu Pai gostava de mim, adivinhava os meus terrores, não troçava das minhas sensibilidades e não me condenava a cada instante. O meu Pai era capaz de compreender sem precisar de explicações.
Passou um ano inteiro e dói cada vez mais.
Às vezes, naquela hora mágica em que a natureza pára, antes da noite chegar, quando o sol se despede e até os bichos sossegam, sento-me olhando o mundo e sinto o meu Pai ali mesmo, junto de mim, pronto para me perguntar das políticas, para me mandar buscar os óculos ou o telefone, ou para me desafiar para a voltinha do costume ao final do dia. Às vezes, saio mesmo com ele. Conto-lhe das dores que sinto fundas, da saudade, do medo do amanhã, da mágoa que experimento. Mas ele não me responde. Não se ri quando eu insulto a ministra da educação ou o engenheiro Sócrates, não quer saber das historietas que me irritam e fazem as politiquices mais caseiras.
Porque há um ano que o meu Pai se despediu de mim, com sossego, apertando a minha mão como quando, na célebre trovoada da minha infância ele tapado com um cobertor de papa, eu lhe garantia que não ia acontecer nada de mal. Agora, hoje, não há cobertor de papa que me proteja, e aos raios da trovoada que assustam a minha existência não se sucedem nuvens cor-de-rosa e cheiro a terra molhada.
O meu Pai era, de certeza absoluta, a melhor pessoa do mundo. O meu Pai gostava de mim, adivinhava os meus terrores, não troçava das minhas sensibilidades e não me condenava a cada instante. O meu Pai era capaz de compreender sem precisar de explicações.
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