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domingo, julho 09, 2006

A toga está pendurada, impecável, abotoada, dentro do armário vazio. Era o armário dela, da menina que cresceu e, agora, tem casa própria com outros armários, outras cómodas, outras escrivaninhas. A toga tem, por isso, todo o espaço para si. Veio há pouco, acabada de fazer, trazida pendurada no carro, sentada no banco para não se sujar no chão do automóvel. O não te preocupes da minha filha, é mesmo para andar enrolada, não faz mal amachucar-se, não me demoveu dos mil cuidados com aquela coisa comprida, negra, que transforma a minha menina na doutora advogada. O que aconteceu à menina curiosa, mas porquê? constantes, que gostava de dormir na cama da mãe e se deliciava com as histórias do Peter Pan e da fada sininho? Onde está a criança atenta, cúmplice de tantas tristezas, ouvinte de tantos segredos? Olho, uma vez mais, a toga acabada de pendurar. Está linda! É uma peça trabalhada, mangas duplas, nervuras iguais às dos vestidos aos quadradinhos que gostava de lhe comprar. Então, de azul e rosa, de vermelho e branco, ela desvendava a vida à custa de alguns arranhões, de umas nódoas mais ou menos negras, de lágrimas gordas que lhe enxugava com mil ternuras. Incrível como o tempo passa. Agora, a vida oferece-lhe tribunais, casos sérios de vidas nem sempre igualmente sérias, dramas individuais com os quais ela, firme na sua convicção de justiça e verdade, lida diariamente. Agora, os arranhões surgem-lhe na alma e não basta um penso colorido, um algodão de betadine escuro, para limpar a dor. Toco a toga. É só um símbolo, um tecido, a austeridade talvez. Mas, para mim, mãe, é um significado: - A minha filha cresceu! Depressa demais… Queria poder tê-la ainda aqui, pronta para comer sugus na hora da bica de domingo, disponível para ouvir histórias, com a gargalhada sonora que tanto a caracteriza. Fecho o armário e observo o quarto, olho a cómoda, tenho de arrumar as gavetas. Em cada objecto há recordações, memórias, sentires das vivências que fazem com que as existências sejam humanas mesmo. Lá está, zarolho e sujo, o panda de peluche que sempre acompanhava a minha menina. Era o Bu. E ela pedia-o para dormir, arrastava-o pelo chão, sentava-o na cadeira ao lado enquanto comia. O Bu também envelheceu. O laço já não tem cor, as orelhas estão gastas e parece que emagreceu. O que fazer com ele? No fundo, é só uma coisa, como a toga, não sente. Mas… no olho vesgo que resistiu ao tempo, há uma tristeza que me comove. Pego nele, afago-o, cheiro-o e, uma vez mais, vêm-me os cheiros da infância da menina doutora. Advogada! Com toga! Tenho de arrumar tudo e deixar-me de recordações, digo para mim mesma. São coisas, objectos. Pois. Mas são essas mesmas coisas, esses objectos, que assinalam momentos, que marcam etapas, que caracterizam essências. O que fazer com o Bu? Pouso-o sobre a cama e abro a escrivaninha. Ali ficaram os diários que sempre respeitei e ainda agora não abro. Serão para destruir? Se fossem meus, seriam rasgados em mil pedaços. Porque não há pior devassa do que a que se faz às memórias, às recordações. Ali devem estar os segredos, as cumplicidades, as ousadias. Arrumo-os, são três, numa caixa que meto no armário onde a toga aguarda boleia para Lisboa. A minha filha decidirá o que fazer com eles. Começo, então, a organizar fotografias, o grupo da pré-primária, a viagem de finalistas, os dezoito anos… Em breve fará 24. Caso os anos, Mãe, tenho de ter uma presente de ouro. Vai casá-los longe, com o marido, viajando, descobrindo aquele mundo que só devia dar-lhe alegrias. A toga não vai, claro. Vai ficar noutro armário, acompanhada por tops coloridos, jovens, que fazem da menina advogada uma mulher alegre e cheia de sonhos. Ainda há muitas gavetas para abrir. Mas eu tenho vontade de as deixar fechadas, de prolongar um pouco mais a ilusão de ter aqui, em casa, a menina advogada, a minha menina sempre atenta, sempre terna. Olho à volta. É uma tarde de calor excessivo, (vale-me o ar condicionado), cansativo, que faz encolherem-se os sentires e dilatarem-se as veias que me dão dor de cabeça. Fecho a porta de novo e, cobardemente, deixo tudo na mesma. Diferente, no quarto desocupado, só a toga austera, perfeita, acabada de chegar.
Se eu pudesse, mandaria fazer também, para mim mesma, um traje capaz de me transformar as emoções, de me anestesiar os sentires.

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