domingo, agosto 13, 2006
Estendo a toalha com cuidado, bem direita, detesto sentir as cócegas que a areia me faz nas costas. Deito-me sentindo o sol quente, segura na certeza de que passa já das quatro da tarde e, por isso, não vou ficar queimada. Não vou, penso, morrer de cancro da pele. E não me apetece, agora, morrer de coisa nenhuma. Por isso empurro a frase de Álvaro de Campos, o homem é um cadáver adiado que procria, para longe de mim. Empurro-a com força, desejando que o mar a leve e eu possa gozar um pouco de tranquilidade. Fecho os olhos. O marulho embala-me e, sem me mexer, fico a sentir as carícias que sol me faz pela mão suave do vento. Morreram mais nove pessoas no Líbano, civis, gente que estava em casa e que, sem tempo sequer para perguntar porquê, ficou destruída por mais uma bomba israelita. Não abro os olhos, quero ficar assim, no mistério do não ver, aproveitando mais uma tarde de Verão. Há uma praga de medusas, ou alforrecas, não sei bem o nome. Em Espanha há praias interditadas, no Norte de África também, o mediterrâneo aqueceu demais e as bichas, perigosas, invadiram os mares. Se calhar vão chegar ao Algarve, a água está morna! Oiço o mundo ao meu lado, começo a sentir calor, a vontade de me mexer é nula. Amo-te, sim. Sabes que te amo. E não estou a dizer isto por estarmos aqui os dois, ou por me querer aproveitar, amo-te. Não resisto a espiar, canto do olho aberto, o autor de tão efusiva declaração. E prática! Sim, porque o indivíduo tem consciência do que pensa uma mulher quando o amor surge eufórico… É um jovem ainda. Ela, biquini reduzido, abraça-o com o corpo inteiro. Volto a fechar os olhos com a certeza, que não confesso, de que não se incomodaria nada com o tal aproveitamento negado. Ainda há mais de vinte incêndios incontroláveis, há casas em risco, há portugueses a chorar e que podem perder tudo. Pior, parece-me, quando o tudo é tão pouco. Foram encontrados quinze incendiários, garantiu a PJ, mas os juízes puseram-nos em liberdade. Parece que têm de se apresentar semanal ou diariamente no posto da GNR. É boa ideia. Sempre podem, no caminho, acender mais algumas fogueiras que, num instante, se tornarão em mais incêndios. Que bom estar na praia a ser tranquilizada pelas notícias de um Portugal seguro… Caos no aeroporto de Heathrow! Desmantelaram mais um atentado. Desta vez os terroristas preparavam-se para fazer explodir vários aviões em pleno voo. Aviões cheios de gente comum, sem culpa de viver num mundo louco. Não resisto mais. Levanto-me e procuro a frescura do mar. Parece caldo verde. Entro, tentando, sem êxito, afastar as algas que bóiam perto. Afasto-me. Mais longe da costa o mar está mais limpo, sabe melhor. Relembro as conversas que escutei e certifico-me de que não vejo alforrecas por perto. Em miúda, na praia de Monte Gordo, vi alforrecas. Era uma coisa mole, gelatinosa, nojenta. Então recomendaram-me que não mexesse e passei ao lado. Acho que foi mesmo a única vez que vi uma coisa daquelas. Não consigo, agora, deixar de temer que alguma apareça… Nado para terra, saio empurrada por uma onda mole, pouca energia, e reparo nos milhares de conchas e pedras quebradas por pés de banhistas como eu. Magoam. Deve ser a vingança delas, proponho. Sacudindo com força os cabelos, na praia os cabelos compridos não dão jeito nenhum!, começo a caminhar pela areia dura da beira-mar. Há gente que joga à bola, miúdos que fazem covas e castelos, casais que dão as mãos, idosos que correm, pose atlética, peles ao vento, tentando, talvez, apanhar a juventude que fugiu. Uma senhora grávida fuma, de pé, deixando que as ondas lhe lambam os pés descalços. Não devia fumar, penso. Mas de seguida anulo o que pensei. Devia fazer o que lhe apetece, sim senhora. Porque as férias servem para isso! Para transgredir, esquecer rotinas, ignorar as correcções, umas mais saudáveis que outras, que a vida nos impõe. Volto para a toalha. Deito-me, retomo a escuridão voluntária. O primeiro ministro esteve no Brasil, vi na televisão duas brasileiras a dizerem que ele é muito elegante e um lindo homem! Há gostos para tudo. Numa ginástica esquisita mudo de posição e tiro do meu saco o meu livro. Mergulho, agora, na ficção das palavras esquecendo, por enquanto, o puzzle de Verão de que também eu sou peça…
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