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quarta-feira, setembro 06, 2006

CARTA A UM AMOR AUSENTE
Será que me ouves? Não sei. Mas sinto as tuas respostas na ansiedade da minha pele e, só por isso, já vale a pena escrever-te. Ou não vale. Não interessa o valer a pena. Afinal, se é pena, não tem valor. Escrevo-te porque não estás. Não és. Não existes. Escrevo-te, porque apenas te adivinho na ansiedade do meu corpo de mulher sedenta de paixão. Sabes, às vezes é difícil controlar emoções, paixões e, porquê temer as palavras?, desejo. Esta sociedade, que ninguém sabe muito bem o que é, porque se calhar é tudo, amputa-me. Porque não posso ser o que sou? Porque levo a vida a fingir que não sinto quando a intensidade dos meus sentimentos me faz acordar, suada, de noite? Bom, mas não é da sociedade, sequer dos outros, que eu quero falar contigo. Contigo posso ser eu mesma, autêntica, mulher, faminta de beijos, abraços e carícias. A minha cama está fria e, talvez por isso, não me apetece instalar-me lá. Levantei-me e vim conversar contigo. Giro como é fácil carregar num botão, premir win, e ter-te no écran disposto a ouvir-me. As noites de verão são excessivamente longas, não concordas? Às vezes imagino como poderíamos nós, que nos amamos, encurtá-las em práticas de paixão. Se saísses do écran e viésses ter comigo. Ficaríamos a contemplar a legião de anjos que passa quando quem se ama faz amor. Com os anjos assustados, nós em êxtase, passeariamos ao mesmo tempo pelo paraíso do gozo e da fruição. Ficaríamos assim, encaixados um no outro, até que o cansaço viesse, com doçura, apartar-nos.
Ah! Quando acordássemos seria dia. Poderíamos então prepararmo-nos para trabalhar. O duche partilhado não teria força para lavar o que cada um tinha dentro de si e, durante todo o dia, sentiríamos o corpo um do outro no calor da nossa pele.
Porque será que não estás? Porque não és? Sabes, se existisses mesmo, se me falasses para propor a realização do meu desejo, acho que tremia. De susto. De medo. Susto pelo sonho concretizado, medo da intensidade do meu desejo. Porque não estás, tenho medo também. Da intensidade do meu sonho. Às vezes quase te sinto, quase te oiço, quase de palpo. Estás mesmo ali. Ao meu lado, na cama, à espera que dê o primeiro passo, que te beije , que te faça saber a minha existência.
Isto das pessoas, homens e mulheres, é esquisito. Porque será que precisamos tanto uns dos outros? Porque será que uma mulher de mais de quarenta anos não consegue dormir a sós com a almofada? Se ao menos fosse um almofado...
Pois é amor, fazes-me falta! Sinto-me oca e, por oposição, cheia de seiva para ser semeada. Tudo, se calhar, porque as noites de verão são enormes. Intermináveis. Sabes, vou confessar-te, porque sei que não és e por isso não ouves, uma (mais) das minhas fantasias: - Há dias, noites, em que sinto os anjos passarem, de asas murchas, infelizes por o meu amor não se concretizar. Sinto que eles adivinham o que penso e, porque condenados a seres assexuados, solidarizam-se com a minha dor/saudade. Porque eu também tenho saudades. De outras noites em que via os anjos corarem, e fugirem pela janela, envergonhados com a realização da paixão que não me deixa, hoje, sossegar. Só os anjos podem corar com o amor.
O amor é mágico, lindo, e, penso eu, não pode nunca envergonhar ninguém, assustar nenhuma consciência por mais tradicional que ela seja!
Amor. Vem. Sai do écran, despe as amarras do impossível e do sonho, vem para dentro de mim nesta noite que me dói. Não me digas que não podes, não finjas que não ouves. Vou parar e esperar. Vou deitar-me, fechar os olhos, pedir aos anjos curiosos que façam o milagre e te tragam para mim!
AH! Como me fazes falta!!

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