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quinta-feira, outubro 19, 2006

O FRED E A GINJA

Podiam ser o Astair e a Rogers. Dançariam sapateado, encheriam de ritmo e música a minha existência, seriam um casal mítico nas telas de cinema a preto e branco. Aliás, para falar verdade, era mesmo essa a nossa ideia ao escolhermos os nomes: - Ele, seria o Fred Astair; ela, a Ginger Rogers. Mas o falar alentejano, o gosto por aquilo que é nosso, talvez a identificação com o espaço em que vivem, fez com que a Ginger se tornasse Ginja, e o Fred perdesse o musical Astair.
Para eles foi indiferente. Não conhecem nenhum dos actores, não dançam sapateado e acredito que o maior interesse que um ecran, de televisão ou cinema, poderia ter para eles se resumiria à forma de o desfazerem. Porque eles são curiosos, gostam de verificar a essência das coisas, arrancam as plantas pela raiz porque, não tenho dúvidas, intriga-os o facto daquelas flores tão frágeis não saírem do mesmo lugar. O Fred e a Ginja andam sempre juntos. Ela, mais ágil, mais rápida e estouvada, desafia-o para explorações mais ousadas e ele, pachorrento e sensato, embora refilando, segue-a nas investigações pelos canos da rega, na caça às rãs, nas perseguições aos gatos ou nas corridas loucas em torno dos cágados. Todas as manhãs, bem cedo, com chuva ou sol, os dois esperam, ansiosos, que eu apareça para lhes dar a liberdade que merecem. O Fred nunca parte sem me cumprimentar, manso e terno, focinho húmido, pelo denso, abraço forte. A Ginja salta, corre, ladra feliz, chateia os gatos e só depois se lembra que não me cumprimentou. É mulher, tem bem hierarquizadas as suas prioridades e, com toda a razão, a liberdade é mais importante que os rotineiros bons dias lambidos. Eu abraço o Fred com força, já nem me lembro das três cicatrizes que me tornaram a perna bem original, e reparo no olhar que ele mergulha no meu. Sim, Fred, tens razão, estou neura hoje. Sabes, são os problemas profissionais, custa-me ser tratada como lixo humano, sem respeito. Digo-lhe isto mesmo dito, alto, sentada no degrau do canil bem abraçada no largo pescoço do meu rafeiro. Ele senta-se a ouvir, de caminho enfiando a língua nos meus bolsos na esperança, a maior parte das vezes fundamentada, que lá haja um biscoito para ele. Pois é, Fred, a vida é uma grande porcaria. E vem a Ginja, a correr, coelho de tamanho descomunal, as pernas da trás ultrapassando as da frente, saltar-me ao pescoço. Não sejas chata! Desaparece! E ela não acredita. Não posso, de verdade, querer que ela desapareça. Senta-se, amuada, vira-me as costas. E eu peço desculpa, ginjinha linda, não estou zangada (ainda bem que não ficou mesmo Ginger, sentir-me-ia embaraçada com tanto à-vontade…). Adivinha que passou o meu mau humor e enfia a língua no bolso certo. Sim, estava lá o biscoito! E levanto-me para ir buscar outro para o Fred. Dois. É que ele é o meu grande amigo! Saio de casa com o cheiro dos meus bichos nas mãos, deixo-os a guardar tudo, a pôr as raízes das plantas ao sol (ou à chuva) a tentarem descobrir uma forma de chegar à comida dos gatos antes que eles a acabem. O meu dia esgota-se, quase sempre, entre o tempo excepcional passado nas aulas e o angustiante arrastar de minutos fora da sala de aula. Regresso a casa à tarde. Lá estão eles! Ao portão, muitas vezes feitos uma montanha de terra e lama, olham-me felizes. Voltei! Grito o óbvio (sou humana, tenho desculpa…) Mais lambidelas, festas, abraços. O Fred, sempre…, olha-me inquiridor: Se chorei? Se estou triste? Não preciso de lhe responder. Ele sabe o meu humor, a minha solidão, as lágrimas que, tantas vezes, em vez de sal carregam malaguetas e ardem dentro de mim. Abraço-o, gosto da quentura dele, olho-o no fundo dos olhos calmos, alentejanos mesmo. A Ginja tem ainda as baterias carregadas e não quer ir para o canil, não quer ficar fechada. Ela sabe o valor da liberdade! Mas o Fred impõe-se, ladra forte, empurra-a e eu entro com eles. Têm comida ainda. Brinco um pouco mais, faço mais festas e conto-lhes de mais um dia. Às vezes, que vergonha…, aproveito o facto de serem bichos e conto-lhes das minhas raivas contra muitos humanos. Eles ouvem. Não me contrariam, são cúmplices.
Os meus cães não são como muita gente, como muitos humanos que conheço. Eles são, de certeza!, muito melhores…

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