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sábado, maio 05, 2007

Gosto muito de Sophia. Por ser poetisa, Mãe, mulher, lutadora pela liberdade. Fico desolada quando me lembro que foi socialista, do PS mesmo (ninguém é perfeito…) mas consolo-me pensando que se afastou, que se desiludiu quando esbarrou com a realidade triste da vida política portuguesa.
Mas não era de Sophia, sequer de poesia, que me estava a apetecer falar quando me sentei em frente à minha janela e liguei o computador. Não. Era da morte mesmo. Porque é manhã de Dia da Mãe, porque o sol está quente, porque os pardais saltitam eufóricos, porque a relva da piscina foi cortada, porque as cerejeiras se vestiram de noivas e porque a minha cadela tem o pelo a cair. Por causa da vida, enfim. Porque a morte me acompanha por eu ter de respirar, de sorrir, de tomar duche e de conviver.
Penso, muitas vezes, em morrer. Fechar a porta de existir, com força, e ficar gozando o ser-só. Quando se morre não se existe, acho eu, mas é-se. Eu acho que seria ainda, uns anos, na memória dos que me conheceram, me gostaram, me detestaram também.
Mas, se eu morrer, não voltarei para buscar instantes nenhuns.
Não quero voltar, não sinto que tenha ficado vida por viver. Vivo cada dia com entrega total, às causas, às emoções, às recordações, às descobertas, às rotinas mais comezinhas. Vi já nascer muitos sóis, vi deitarem-se muitos mais e vi até, juro!, o ponto verde mais do que uma vez. Vivi dias de chuva, de sol, de vento, de nevoeiro também. Gritei palavras a ferver, outras geladas, muitas beijadas e apaixonadas. Acreditei, desiludi-me, chorei e ri gargalhadas sonoras. Tive certezas, dúvidas, incredulidades. Decidi e reformulei. Fiz já quase tudo, penso muitas vezes. Voltar, para quê? Ao contrário de Sophia, os instantes que tecem a minha vida foram todos vividos completamente. Como os vivo hoje, dia da Mãe, passeando com o Fred, molhando as botas de camurça na ribeira, recebendo a ternura verdadeira das minhas filhas e lembrando o tempo em que, sob a orientação severa da dona Dália, tentava pintar um azulejo para dar à minha Mãe. Então, o dia era dela. Hoje, é meu dia também.
Morrer deve ser calmo, tranquilo, libertador até. Morre-se e pronto. Ficam saudades, ficam memórias, registos escritos, fotografias até, mas não se fica sendo, não se arrastam gerúndios.
Quando eu morrer, não vou levar nada comigo. Os pássaros também voam para longe-longe e nunca levam nada com eles!
Aliás, sempre pensei que deve ser bom poder voar para longe, de tempos a tempos, sem carregar nada e começando tudo de novo: novo ninho, novo espaço, novas descobertas também! A vida só faz sentido quando se recria, se reinventa o óbvio, se desafia o banal. A vida não são dias da Mãe, do Pai, da criança, da árvore, da Europa, de sei lá mais o quê. Ou são. Sim, podem ser. Se nos contentarmos com o que nos dão, o que inventam para aqueles todos que nós incluímos também. Eu não me contento. Eu quero uma vida ousada, feita de sonhos e tecida de loucuras boas, loucuras daquelas que fazem os homens sonhar “Louco! Louco sim!” como dizia Pessoa para homenagear D. Sebastião.
Quando eu morrer. Vou deixar de me irritar com o governo do país, não vou mais ter alergia à Primavera e não vou mais sentir que a solidão sabe a sal grosso. Quando eu morrer, não vou mais ter de sofrer as agressões da ministra da educação, as humilhações da União Europeia ou os sorrisinhos estúpidos de alguns outros com quem, obrigatoriamente, me cruzo.Sophia que me desculpe mas, quando eu morrer, não voltarei para buscar mesmo nada!!

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