sábado, julho 14, 2007
Sob calor intenso, procuro o fresco da piscina. Deito-me sentindo a ternura morna do sol e fecho os olhos. Por um instante, a razão funciona e lembro as recomendações e os perigos do sol. Há o buraco, o tal do ozono, há os raios UV no expoente máximo, há o risco de cancro, de envelhecimento precoce, de sinais, de manchas, de mil coisas. Mas deixo que os sentires se sobreponham à razão. E eles garantem que também há cancro para quem não apanha sol, que também se morre jovem mesmo sem abusar do sol, que ficaremos velhos todos mesmo que nunca saiamos de casa! E, como sempre, deixo-me levar pelos sentires, conduzir pelas emoções.
Lembro um exame recente de 12º ano, eu a acompanhar a prova, e um texto de António Damásio a fazer a história da investigação científica, iniciada há mais de 100 anos!, sobre a importância das emoções nas aprendizagens, no desenvolvimento humano, na construção de projectos de vida. Então, os miúdos suavam para compreender as questões, escolherem a alternativa correcta, conseguirem uma nota boa. Eu, com o benefício de já conhecer o texto, lamentava que não se pudesse discuti-lo mesmo, explorá-lo, fazê-lo valer de facto. Faz-me tanta confusão que se tentem ignorar as emoções! Que se valorize sobretudo a razão e se ignore, ou se queira ignorar, a importância dos afectos e das emoções nos processos cognitivos e de socialização. Eu quero uma escola diferente, que privilegie pessoas: - seres plurais, feitos de razão, emoção, relação.
O sol sabe-me bem. A minha alma aquece, amolece, sinto derreterem-se as defesas e ganharem espaço os desejos de coisas boas, as recordações de bons momentos. Sem me mexer, vejo chegar o Amor, não lhe lembro a dolorosa ausência que sinto dele, e fico a vê-lo dar cor à tarde. Traz uma groselha boa, carregada de gelo, vermelha mesmo, doce e cheirosa. Dou um gole sem me mexer e o Amor, sentado na beirinha da minha cadeira, diz presente. Fala-me da sedução, da descoberta de prazeres tocados, de partilhas simples e conversas ousadas. Oiço-o sem responder, fechada na magia do sonho, com o Fred deitado na relva, debaixo do enorme sobreiro, vigilante e tranquilo.
Apetece-me reclamar (sou uma refilona militante), mas não ouso mexer-me para não o afastar. Continua ali, fazendo silêncio quando os cubos de gelo chocam no copo vermelho, falando de vivências idas, de desejos inconfessáveis, de impossíveis tentados. Então, ouso quebrar o encanto e falo também. Conto da desilusão de cada dia, do medo terrível do vazio, dos pesadelos que me atormentam, da imensidão das noites em que apenas o ladrar vigilante do Fred me faz companhia. Conto-lhe das saudades de muitos momentos, da dor da ausência de quem me faz cada dia mais falta… O Amor continua ali, como eu indiferente aos perigos do sol em excesso, sorrindo e tentando o meu desejo intenso. Porque o silêncio me não intimida, continuo divagando e falo-lhe da minha cidade, das melhorias, das desilusões também. Se tenho saudades, pergunta-me. E não tenho. Não. Tenho só recordações de muitos momentos, de tempos em que Ele, Amor, se fazia mais presente, mais constante, menos dorido.
Ofendido ou com calor em excesso, partiu.
Eu, acompanhada por uma ladradela displicente do Fred, mergulhei.
Lembro um exame recente de 12º ano, eu a acompanhar a prova, e um texto de António Damásio a fazer a história da investigação científica, iniciada há mais de 100 anos!, sobre a importância das emoções nas aprendizagens, no desenvolvimento humano, na construção de projectos de vida. Então, os miúdos suavam para compreender as questões, escolherem a alternativa correcta, conseguirem uma nota boa. Eu, com o benefício de já conhecer o texto, lamentava que não se pudesse discuti-lo mesmo, explorá-lo, fazê-lo valer de facto. Faz-me tanta confusão que se tentem ignorar as emoções! Que se valorize sobretudo a razão e se ignore, ou se queira ignorar, a importância dos afectos e das emoções nos processos cognitivos e de socialização. Eu quero uma escola diferente, que privilegie pessoas: - seres plurais, feitos de razão, emoção, relação.
O sol sabe-me bem. A minha alma aquece, amolece, sinto derreterem-se as defesas e ganharem espaço os desejos de coisas boas, as recordações de bons momentos. Sem me mexer, vejo chegar o Amor, não lhe lembro a dolorosa ausência que sinto dele, e fico a vê-lo dar cor à tarde. Traz uma groselha boa, carregada de gelo, vermelha mesmo, doce e cheirosa. Dou um gole sem me mexer e o Amor, sentado na beirinha da minha cadeira, diz presente. Fala-me da sedução, da descoberta de prazeres tocados, de partilhas simples e conversas ousadas. Oiço-o sem responder, fechada na magia do sonho, com o Fred deitado na relva, debaixo do enorme sobreiro, vigilante e tranquilo.
Apetece-me reclamar (sou uma refilona militante), mas não ouso mexer-me para não o afastar. Continua ali, fazendo silêncio quando os cubos de gelo chocam no copo vermelho, falando de vivências idas, de desejos inconfessáveis, de impossíveis tentados. Então, ouso quebrar o encanto e falo também. Conto da desilusão de cada dia, do medo terrível do vazio, dos pesadelos que me atormentam, da imensidão das noites em que apenas o ladrar vigilante do Fred me faz companhia. Conto-lhe das saudades de muitos momentos, da dor da ausência de quem me faz cada dia mais falta… O Amor continua ali, como eu indiferente aos perigos do sol em excesso, sorrindo e tentando o meu desejo intenso. Porque o silêncio me não intimida, continuo divagando e falo-lhe da minha cidade, das melhorias, das desilusões também. Se tenho saudades, pergunta-me. E não tenho. Não. Tenho só recordações de muitos momentos, de tempos em que Ele, Amor, se fazia mais presente, mais constante, menos dorido.
Ofendido ou com calor em excesso, partiu.
Eu, acompanhada por uma ladradela displicente do Fred, mergulhei.
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