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domingo, setembro 23, 2007

COLHEITA TARDIA

Da colheita tardia, pediu ele. De certeza que vais gostar, é um vinho suave, bom acompanhamento para o que pedimos. Ela sorriu, desconhecedora da colheita tardia, sequer boa apreciadora de vinho, deliciada com a ternura cuidadosa que lia nas palavras dele, na preocupação com a escolha certa. Lá em cima, vigilante e altaneiro, Marvão brilhava.
Era um jantar de fim de verão, de fim de férias, de fim de uma época, e que, para ela, carregava o peso de excesso de fins. Sorria-lhe agradecendo a pouca luz do Restaurante habitual, que impedia a exposição húmida da emoção que lhe embaciava o olhar. Sim, colheita tardia deve ser bom, devem ser as uvas mais doces, as que ficam para o fim da vindima. Ele explicava o processo, falava do Esporão, garantia que este vinho iria fazê-la abandonar a fé intensa que depositava no João Pires. A fé dela andava tão por baixo, disse sorrindo…
A fé na humanidade ruíra mesmo. Ele insistiu na confiança, no optimismo. Ela queria ceder, ser capaz de voltar a acreditar. Sim, claro que sabia que o pessimismo não leva a nada; que as energias positivas atraem o bom; que a vida se faz de fases, de momentos; que é preciso deixar uma fresta n’alma para a felicidade entrar. Mas todo esse conhecimento esbarrava no quotidiano. Ela sentia as dificuldades a crescerem, as desilusões a avolumarem-se, a ausência de alternativas a assustarem-na cada dia mais. A rir, brincando, com o vinho da última colheita dançando no copo bojudo, ele lembrou momentos históricos: - No tempo das invasões francesas vivia-se bem pior, garantia. Aí, respondeu ela, o perigo era visível, o inimigo reconhecido, as armas identificadas… E o vinho a saber-lhe bem, a amolecer-lhe os sentires a fazê-la espreitar Marvão que, firme, lhe oferecia sempre protecção.
Às vezes, também ela se sentia assim: - fortaleza. Fechada na muralha densa da individualidade, protegida de assaltos incómodos por alheamento construído, forte e tecida de percursos ganhos com as recordações de momentos únicos. Às vezes, como Marvão, ela sentia-se capaz de resistir, distante, sozinha, sabendo que o acesso à interioridade seria íngreme e impossível de fazer. Nesses momentos, conseguia rir ao mundo, entrar no faz-de-conta-tudo-bem-e-sou-feliz, fingir ter renovada a fé, a tal fé forte que mantinha apenas no sabor gostoso do João Pires. Ele trouxe-a de volta à realidade com susto quase. Não me ouves? Um euro pelos teus pensamentos!. Não valem isso, não valem nada. Porque são os meus percursos de solidão, porque são o meu acesso à fuga… Mas o vinho, o tal da colheita tardia é de facto muito bom. A mão dele sobre a dela fez-lhe sentir a dificuldade de ele e ela serem apenas nós. E disse-lho brincando, jogando também, servindo-se da gostosura do vinho para justificar ousadias. Ele negou. Que sim, claro, ele e ela, sempre nós. É tão fácil dizer o que não é como se fosse, pensou. É tão fácil usar as palavras, despi-las de rigor, mascará-las de verdades que o não são, pensou ela. E lembrou-se dos alunos, do espanto deles quando lhes afirmava serem as palavras entidades ficcionadas, falsidades sem personalidade que se podem, com excessiva facilidade, adulterar. Seria bom poder devolver aos alunos palavras puras. Não prostituídas, como dizia Sophia, e deixá-los conhecê-las, sentirem-nas virgens e encontrar-lhes o sentido pleno. Impossível, sabia-o. Talvez por isso o desalento, o pessimismo às vezes, a dúvida na mudança, a descrença na renovação da humanidade.
Mas era um jantar apenas, o tal jantar com muitos fins, e exigia sorrisos, conversas fáceis, certezas aparentes. Por isso pegou no copo, correspondeu ao brinde, afirmou o amor. Soou estranho afirmar assim, com ligeireza, o que sentia com tanta força. De novo as palavras a incomodavam. Não tinha palavras para explicar a mistura que a luz de Marvão, a quentura do colheita tardia, o som da água, a maciez do toque da mão dele provocavam nela. Ainda não foram inventadas todas as palavras, pensou.
Gostaste mesmo do vinho? Claro, imenso. E não lhe contou que gostaria de ser ela também uma colheita tardia, saborosa, escolha final e eterna, definitiva. Não lhe contou, sequer, que Marvão a fazia desejar a ousadia da História tornando-a personagem noutra estória.
Contou, apenas, que a colheita tardia era deliciosa e o fim, seja lá do que for, pode sempre surgir prenhe de recomeço.

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