sábado, setembro 15, 2007
Florbela Espanca. Hoje, sei lá porquê, nem sei sequer se tem de haver uma razão para tudo na vida, tenho andado com a Florbela na cabeça. A Florbela mesmo, não os poemas que viram fado, sequer a tristeza nostálgica, a loucura ousada ou o desejo incontido. Ela só!
Era mulher também, ela. E amou também. E intensamente também. E foi infeliz. E deve, também, ter sido feliz às vezes. Porque isso da felicidade, sem ser a versão de que eu tanto gosto da Dona Felicidade marrrequinha que vende maçãs de bravo de esmolfe a que chama bravo mofo, só acontece às vezes. Em momentos. Momentos que, de tão rápidos, se tornam em instantes.
A Florbela deve, pois, ter tido instantes assim. E nesses instantes, imagino, não escrevia nada porque não seria louca ao ponto de os desperdiçar pondo-se a fazer sonetos (coisa complicada, ainda por cima, com as duas quadras, os dois tercetos, a métrica rigorosa e ainda mais a chave que tinha de ser de ouro). Nesses instantâneos, eu imagino a Florbela a saborear o sol Alentejano, a praticar ousadias inconfessáveis, a gargalhar com a alma e a comentar que, se Deus de facto fosse perfeito e eficiente, as lágrimas não seriam sempre salgadas. Seriam, às vezes, açucaradas!!
A Florbela Espanca hoje foi comigo à praça, entrou na casa da massa frita, riu-se da minha mania de gostar do cheiro do peixe misturado com o das flores, e ajudou-me a escolher o peixe para o almoço. De tarde, as duas falamos da vida sentadas nas cadeiras da piscina que ainda não tive coragem para guardar. Ela falou-me da morte escolhida, do fantástico momento em que se diz FIM e tudo termina.
Agora, noite tarde, ela ainda quer conversar. Eu peço-lhe que parta, que me deixe em paz com a minha solidão, que me não distraia das coisas banais e simples como, concretamente, encontrar uma maneira de tirar das minhas calças verdes a mancha de ferrugem que deixaram nelas as cadeiras da piscina...
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