terça-feira, setembro 11, 2007
Indiferente ao céu ameaçador e negro (é preciso MUITO mais do que uma trovoada para me meter medo), pus a trela no Fred, calcei os sapatões e fui passear até à ribeira onde, há tempos, o Fred me obrigou a mergulhar... Hoje, acredito que farejando a tristeza dos meus sentires, o meu companheiro estava extraordinariamente calmo e permitiu-me uma caminhada tranquila, sem gritos nem puxadelas de trela, sem ataques de ladradelas furiosas sequer. Disse-lhe que reparasse nas copas largas, brilhantes, dos castanheiros que, carregados de ouriços agressivos, anunciam um ano bom de castanha. Ele não ligou muito, acho que não gosta de castanhas... Eu adoro! Em sopa, trincadas cruas com casca, cozidas, assadas, em doce, de todas as maneiras.
Foi precisamente encostado ao tronco de um dos castanheiros do caminho que encontrei Bernardo Soares. Ria sorrindo, olhar provocante e descrente, ao perguntar-me da vida. Acusei-o de cruel maldade. O livro, o do desassossego mesmo, é o que nos une forte, e ele, só porque caí na asneira de lhe confessar a minha admiração ilimitada pela sua inteligência brilhante, gosta de me provocar propondo novas leituras... Esta tarde, queria saber porque razão eu continuava a incomodar-me com a vulgaridade e a rotina do quotidiano português. Eu protestei. Que eu sou vulgar, mulher apenas, professora só, garanti. Gargalhou. Professora? Como podia eu ensinar se eu também não sei, se vivo na dúvida, se pergunto sempre, se peço socorro à vida? Acusei o toque. Mas defendi-me. Falei-lhe na cumplicidade, nas proximidades, no fascínio de aprender um novo sabor, como o das castanhas verdes, um novo cheiro, como o da trovoada anunciada, um novo toque, como o do pelo húmido do Fred. Foi a vez dele se defender: "(...) gira a entreter a razão, esse comboio de corda que se chama coração". Rendi-me. Dei-lhe o braço, eu preciso do toque de quem me apoia, e fomos os dois desfiando desassossegos até à ribeira.
Voltei sozinha, apenas o Fred não me abandonou, e fui para a dança mais calma. Hoje, salsa muita! Corpos colados, movimentos ondulantes, a chegada a casa com os sentires tão aos pulos que o duche foi insuficiente para os meter no lugar...
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