quarta-feira, dezembro 26, 2007
Com muita calma, reunindo os farrapos de paciência que 2007 estilhaçou, dispus-me a desfazer a mala e a arrumar, cuidadosamente, as vivências da minha viagem por 2007 na cómoda de gavetas sem fundo onde, num amontoado resistente à corrosão de muitas lágrimas, tento sempre arrumar os sonhos desfeitos, as desilusões vividas, as mágoas, as nódoas muito negras da minha existência. Comecei por tirar da grande mala a minha actividade profissional. Coitada, tão amarrotada!! Vinha embrulhada em medidas avulso, sem sentido, esborratada de ódio e com pinceladas, tão gastas…, de verde esperança. Lá estavam as mais recentes agressões: - A avaliação de desempenho de professores, a certificação de (in)competências e, ainda bem nítidas, as novas propostas/lei para gestão escolar. Não será mais um professor, lia-se ainda. E eu, tentando que aquela montanha de mágoa desaparecesse no fundo inexistente da dita gaveta da minha cómoda incómoda, pensava que talvez um aluno a liderar fosse boa hipótese. De preferência um de um Curso Profissional do Secundário, quem sabe? Ao lado, na barafunda da mala que tinha mesmo de arrumar, afinal uma viagem existencial de 365 dias dá azo a muita desarrumação, havia olhares curiosos, vontades de saber, gosto pela leitura, gargalhadas saudáveis, actividades absorventes, miúdos desejando ser pessoas. Tratei de salvar o meu achado. Guardei noutro lugar, num espaço de resistência, junto aos meus autores preferidos, pertinho dos heterónimos de Pessoa, de costas voltados para o Ricardo Reis, encostadinhos mesmo ao Alberto Caeiro. E continuei. Lá estava, agora, a politica do meu país. Brghhhh!! Que coisa pestilenta! Peguei com a ponta dos dedos, porque não tivera eu o cuidado de enfiar aquilo no saco da roupa muito suja?, e atirei para o gavetão de baixo da minha incómoda sem fundo. A mesma, claro! Acho que, num repente, quando olhei mesmo só para me certificar que nada ficava por fora, vi cair a mentira, a injustiça, a humilhação, a vergonha. Acho mesmo que vi rebolar para um canto, Deus queira que me tenha enganado…, uma série de ministros e de deputados rebolando entre palavras sem curso para formar um discurso sequer. Iam também marcas estrangeiras, estrelas da Europa talvez, passadeiras vermelhas e muitos euros a reboque. Ainda me lembrei do dinheirão gasto durante a Cimeira União Europeia-África, durante a Presidência Europeia em Portugal também, mas nem quis olhar com atenção. Era mesmo um cheirete insuportável… Voltei para a minha mala de viagem anual e Portalegre lá estava. Tristemente linda, a minha cidade. Branca, já não. Mas linda sempre… E peguei-lhe com a ternura que tenho por ela, com jeito para não me cortar na Quina das Beatas, com pena por não encontrar flores nos relvados que por cá se chamam jardins recuperados. Com ela na minha mão, reparei como cresceu o D. João III. Enorme, majestoso, um pouco assustador até. De facto, tudo depende da perspectiva. E há tantas perspectivas para ver Portalegre… Antes de, com cuidado, a colocar numa das gavetas de cima, ali mais à mão, num lugar onde com facilidade a minha saudade pudesse recuperá-la, dei mais uma espreitadela à vista da Serra. A Serra parece mais plana, a cidade mais espraiada, mas é Portalegre ainda. E, indiferente ao cheiro da massa frita, sem deixar cair as boleimas deliciosas do Mercado Municipal, arrumei tudo com mil cautelas. No meio da confusão da minha mala anual, via os meus sentires aos pulos, frenéticos e desalentados, quentes e gelados, cheios de vazios que não sei preencher. Resisti a tocar-lhes. Eu queria mesmo desfazer a mala e, sabia-o bem, se cedesse à tentação de organizar sentires, entraria na nova viagem, já a de 2008, com a alma húmida e sem espaço para novas aquisições. Porque, numa viagem, há sempre aquisições: - Fotografias, experiências, paladares, paisagens e postais. Tantos postais! Ali estava Londres, os amigos de verdade sorrindo, o esquilo em Hyde Park surpreendido. E Itália! Florença monumental, Siena de sentires, San Giminiagno de altas torres e chocolate quente iluminado, nevão nos Apeninos, saudades vivas, ausências presentes. Ah! As viagens….
E a mala ainda por despejar. E o tempo a voar, 2008 a arrancar e eu sem espaço para o receber!
E a mala ainda por despejar. E o tempo a voar, 2008 a arrancar e eu sem espaço para o receber!
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