segunda-feira, março 03, 2008
Não, não são os anos que fazem engrossar as minhas recordações ou me tentam a desfiá-las. Nada disso. Esta vontade de memoriar, que é apenas o fazer memórias vivas, vem apenas da certeza de, como Pessoa afirmou, saber que a verdade só existe na reconstrução da sua memória "é como um terraço sobre outra coisa ainda//e essa coisa é que é linda".
Por isso, agora, na solidão triste de um serão a doer, sou feliz por antinomia na reconstrução de uma memória recente. Memória de uma manhã de sol, calor excessivo, em que os miúdos, porque os meus alunos são sempre os meus miúdos, me encheram de ternura e bolo de chocolate. Esperaram-me na sala, teste? - que importa a norma quando a ternura é transgressão? -, e fizeram-se meus num ser de cumplicidades tecidas. Desafinaram os parabéns que senti sinceros, ofereceram rosas - sete e vermelhas! -, sorriram e riram também. A Filipa, num papel rasurado e de difícil leitura, deu voz ao texto oferecido: - Eles, os meus meninos, a verbalizarem emoções, a dizerem coisas de gostar e de aprender! Os meus olhos ficaram húmidos, a alma cedeu. Acho que estou pouco habituada a experiências de carinho na minha Escola e, por isso, deixei cair a couraça e fui pessoa só. Mulher também. Depois, porque para aprender não temos de estar numa sala...,com eles fui ao Mercado. No velho mercado da minha cidade, fizemos planos de futuro e combinámos uma ida à Discoteca, a Praga também!
Agora, recupero a memória do momento, reconstruo-o e descubro o olhar maroto do João, a irreverência da Maria, a cumplicidade da Ana, a originalidade do Pedro, a preocupada perfeição do Eduardo, a simpatia preguiçosa do Tiago, a ternura da Filipa, a meiguice da Joana, a curiosidade do Bernardo, ... Os meus miúdos deram-me um presente único e exclusivo: - Uma lição de terna cumplicidade em construção!
E eu é que sou professora...
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