sábado, abril 12, 2008
Estão a morrer as minhas referências, os amigos com quem cresci, aqueles que me fizeram ser quem sou. Devo, penso, estar a ficar velha. Só assim percebo que os adultos da minha infância possam partir, mas acho que era mais fácil, apesar de tudo, morrer eu. Oiço Sebastião da Gama, “Quando eu nasci, ficou tudo como estava”, e penso que se eu morresse também ficava tudo na mesma… Mas não quero morrer. Quero viver, ser avó, ver a Ministra da Educação ser substituída (o meu pior pesadelo!), ver o Jardim da Corredoura arranjado, ver o caminho para casa alcatroado, ver os meus alunos adultos de sucesso, ir à neve muitas vezes, tecer cumplicidades, partilhar longas noites de chuva e ternura, e dançar ainda muitos anos. No entanto, se eu morresse não ia ter tantas saudades daqueles que agora, depressa demais, me abandonam fazendo doer.
Tenho saudades dos amigos adultos da minha infância! Do senhor Graça, do senhor Alexandre, da dona Adelina pequenina e sorridente, do meu querido tio Eutíquio, da segurança de os saber ali, na retaguarda, prontos para intervir se a vida resolvesse castigar-me demais… Tenho saudades mais e imensas do meu Pai! Mas tenho todos os dias, sempre, num quotidiano que continua a fazer doer demais!!
A morte é condição humana, eu sei; todos os seres vivos morrem, sei também. Mas isso não me conforta, nem aquece a alma gelada! A morte surge incómoda, sempre abusiva, muitas vezes carregada de dor e deterioração, sempre trazendo lágrimas e saudade. Quando me cruzo com ela, ultimamente com excessiva frequência, fico a doer por dentro e por fora. Acho-a uma intrusa abusadora, rouba tudo sem nada dar em troca!
Esta semana, vi a morte numa outra perspectiva que me impressionou também. Vi na televisão a festa na cidade de Elvas por causa do crematório e da exploração do cemitério por uma empresa privada. Fez-me confusão. Sei que é um disparate, que obviamente é necessário preparar a morte e que deve tentar-se dar-lhe a dignidade possível. Lembrei-me do estado deplorável da Igreja de Santiago, que em Portalegre recebe a morte, e reconheci a importância do projecto real na cidade vizinha… mas fez-me impressão a morte na televisão, as empresas da morte, o orgulho da qualidade dos serviços agora inaugurados. Devo mesmo estar a abandonar de vez a tal voz sensata… Apeteceu-me assumir a minha dose de hipocrisia social e não olhar para a realidade. Eu quero ser cremada, já o disse muitas vezes, quero que lancem as minhas cinzas do alto do castelo de Marvão e que, depois, me esqueçam. Mas fiquei a pensar se isso não é também uma violência sobre quem tiver de o fazer, porque são serviços muito caros… E é estranho como, neste país, a qualidade tem de ser sempre tão cara! Se uma pessoa, ou a família, não tiverem dinheiro para o funeral, um indivíduo não pode ser sepultado? Nem cremado? Quer dizer que os ricos podem escolher o destino post-mortem e os pobres não? Será que um pobre, e há cada vez mais em Portugal, é enterrado enrolado num lençol? Eu não sou socialista, é facto conhecido. Não gosto de socialismos, e detesto em particular o actual que governa Portugal. Eu não tenho a mania das igualdades que nem sequer entendo, mas não percebo estas diferenças. Na minha modestíssima opinião, e aproveitando a ausência da tal voz porventura sensata, qualquer pessoa devia ter direito ao funeral que desejasse e o estado, o tal de direito de que tanto se fala, devia arranjar forma de dar aos seus cidadãos pelo menos isso: - O funeral desejado!
Tenho saudades dos amigos adultos da minha infância! Do senhor Graça, do senhor Alexandre, da dona Adelina pequenina e sorridente, do meu querido tio Eutíquio, da segurança de os saber ali, na retaguarda, prontos para intervir se a vida resolvesse castigar-me demais… Tenho saudades mais e imensas do meu Pai! Mas tenho todos os dias, sempre, num quotidiano que continua a fazer doer demais!!
A morte é condição humana, eu sei; todos os seres vivos morrem, sei também. Mas isso não me conforta, nem aquece a alma gelada! A morte surge incómoda, sempre abusiva, muitas vezes carregada de dor e deterioração, sempre trazendo lágrimas e saudade. Quando me cruzo com ela, ultimamente com excessiva frequência, fico a doer por dentro e por fora. Acho-a uma intrusa abusadora, rouba tudo sem nada dar em troca!
Esta semana, vi a morte numa outra perspectiva que me impressionou também. Vi na televisão a festa na cidade de Elvas por causa do crematório e da exploração do cemitério por uma empresa privada. Fez-me confusão. Sei que é um disparate, que obviamente é necessário preparar a morte e que deve tentar-se dar-lhe a dignidade possível. Lembrei-me do estado deplorável da Igreja de Santiago, que em Portalegre recebe a morte, e reconheci a importância do projecto real na cidade vizinha… mas fez-me impressão a morte na televisão, as empresas da morte, o orgulho da qualidade dos serviços agora inaugurados. Devo mesmo estar a abandonar de vez a tal voz sensata… Apeteceu-me assumir a minha dose de hipocrisia social e não olhar para a realidade. Eu quero ser cremada, já o disse muitas vezes, quero que lancem as minhas cinzas do alto do castelo de Marvão e que, depois, me esqueçam. Mas fiquei a pensar se isso não é também uma violência sobre quem tiver de o fazer, porque são serviços muito caros… E é estranho como, neste país, a qualidade tem de ser sempre tão cara! Se uma pessoa, ou a família, não tiverem dinheiro para o funeral, um indivíduo não pode ser sepultado? Nem cremado? Quer dizer que os ricos podem escolher o destino post-mortem e os pobres não? Será que um pobre, e há cada vez mais em Portugal, é enterrado enrolado num lençol? Eu não sou socialista, é facto conhecido. Não gosto de socialismos, e detesto em particular o actual que governa Portugal. Eu não tenho a mania das igualdades que nem sequer entendo, mas não percebo estas diferenças. Na minha modestíssima opinião, e aproveitando a ausência da tal voz porventura sensata, qualquer pessoa devia ter direito ao funeral que desejasse e o estado, o tal de direito de que tanto se fala, devia arranjar forma de dar aos seus cidadãos pelo menos isso: - O funeral desejado!
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