sábado, junho 14, 2008
Nos teus Olhos me Canso
Para o Miguel. Ele pediu!
Encosta-se ao sobreiro rugoso, estica os pés de botas grossas calçados e desfia a vida. Ao lado, bem perto, língua pendurada, o cão olha-o na companhia muda que há anos lhe faz. Está calor, calor excessivo, porque tudo agora parece ser excessivo, e há cobras e lagartos nos campos. Vê a burra que amarrou perto, noutra sombra, que o cheiro do animal impõe distância, e pensa que bem podia, num dia assim, partir de mansinho. Não gosta da palavra morrer. É dura para uma inevitabilidade que, embora por vezes agreste, ele deseja ver chegar suave. Prefere a ideia de partir, ainda que saiba não haver regresso. Partir. Partira em miúdo, jovem como agora ouve chamar aos rapazes com a idade que então tinha. 17 anos e um sonho maior que o Alentejo que o vira nascer. Um dia, antes de ser chamado para a guerra, matar gente não era com ele, fizera a trouxa e partira. Para França. Lembrava-se da passagem da fronteira, a salto, passos surdos e ouvidos à alerta. Fome, medo e frio de rachar. Devia ser culpa dele, desse frio com lâminas, que agora sentia os ossos perros e as dobradiças enferrujadas. Mas chegara a França e por lá ficara. Mais de trinta anos! Tempo demais para fazer doer, insuficiente para lhe apagar da alma o cheiro do Alentejo no Verão, o ruído das cobras no restolho, a alegria dos ninhos de perdiz descobertos nos campos. Por lá casara, também. E por lá deixara a mulher, morta antes do tempo, nova ainda e que nunca chegara a experimentar a natureza fantástica de que ele, corpos colados, lhe contava na escuridão das muitas noites partilhadas. Voltara depois da Revolução, viera atrás do sonho da liberdade e da justiça que vira anunciados e apregoados nos jornais estrangeiros. Viera à procura dos cheiros da infância, dos sabores de coentros e poejos, dos riscos vermelhos com que o céu se pintava nos finais de tardes de Verão. Viera, dissera ao despedir-se dos filhos franceses, encontrar o seu canto, cumprir a sua essência. Que isto, em se nascendo Alentejano, uma pessoa nunca mais é outra coisa. E tinham-no tentado convencer a ficar. Portugal não era futuro para ninguém, o Alentejo menos ainda, garantiam. Não deu atenção, tinha os ouvidos cheios do vazio dos sons da terra que a saudade lhe trazia.
Em Portugal, no velho Monte já abandonado, recomeçara. Primeiro os animais, o cão, bom companheiro; a burra, fêmea calada e trabalhadora, os porcos e as vacas. Galinhas à solta e o galo, ia já no sexto ou sétimo, para substituir o despertador, o réveil da França abandonada, sempre importante no terreiro impondo-se às galinhas de crista levantada. Gostava de se sentar na soleira da porta e ficar vendo, sem um movimento, o vaidosão do animal a arrastar a asa, a escolher a galinha e a galá-la com gosto.
Podia despedir-se com calma da vida. Tinha cumprido. Olhara-a sempre de frente, olhos nos olhos, e fora nos seus olhos que se cansara de existir, de lutar, de acreditar em impossíveis.
A burra zurrou batendo os cascos, precisava ferrada, lembrando que era tempo de entrarem para a ração. Olhou-a e deixou-se ficar. Conhecia-lhe os protestos, sabia que podia esperar. Ele já não. Tinha esperado e desesperado todos os sonhos, todos os possíveis, todas as magias. Agora, não queria mais fingir que acreditava que o seu Portugal fazia sentido. Agora, desejando que fosse chegada a última hora, olhava, uma vez mais, os olhos da vida para se despedir. Vida fêmea, pensava, manhosa e traiçoeira, nos teus olhos me canso. Demais…
Para o Miguel. Ele pediu!
Encosta-se ao sobreiro rugoso, estica os pés de botas grossas calçados e desfia a vida. Ao lado, bem perto, língua pendurada, o cão olha-o na companhia muda que há anos lhe faz. Está calor, calor excessivo, porque tudo agora parece ser excessivo, e há cobras e lagartos nos campos. Vê a burra que amarrou perto, noutra sombra, que o cheiro do animal impõe distância, e pensa que bem podia, num dia assim, partir de mansinho. Não gosta da palavra morrer. É dura para uma inevitabilidade que, embora por vezes agreste, ele deseja ver chegar suave. Prefere a ideia de partir, ainda que saiba não haver regresso. Partir. Partira em miúdo, jovem como agora ouve chamar aos rapazes com a idade que então tinha. 17 anos e um sonho maior que o Alentejo que o vira nascer. Um dia, antes de ser chamado para a guerra, matar gente não era com ele, fizera a trouxa e partira. Para França. Lembrava-se da passagem da fronteira, a salto, passos surdos e ouvidos à alerta. Fome, medo e frio de rachar. Devia ser culpa dele, desse frio com lâminas, que agora sentia os ossos perros e as dobradiças enferrujadas. Mas chegara a França e por lá ficara. Mais de trinta anos! Tempo demais para fazer doer, insuficiente para lhe apagar da alma o cheiro do Alentejo no Verão, o ruído das cobras no restolho, a alegria dos ninhos de perdiz descobertos nos campos. Por lá casara, também. E por lá deixara a mulher, morta antes do tempo, nova ainda e que nunca chegara a experimentar a natureza fantástica de que ele, corpos colados, lhe contava na escuridão das muitas noites partilhadas. Voltara depois da Revolução, viera atrás do sonho da liberdade e da justiça que vira anunciados e apregoados nos jornais estrangeiros. Viera à procura dos cheiros da infância, dos sabores de coentros e poejos, dos riscos vermelhos com que o céu se pintava nos finais de tardes de Verão. Viera, dissera ao despedir-se dos filhos franceses, encontrar o seu canto, cumprir a sua essência. Que isto, em se nascendo Alentejano, uma pessoa nunca mais é outra coisa. E tinham-no tentado convencer a ficar. Portugal não era futuro para ninguém, o Alentejo menos ainda, garantiam. Não deu atenção, tinha os ouvidos cheios do vazio dos sons da terra que a saudade lhe trazia.
Em Portugal, no velho Monte já abandonado, recomeçara. Primeiro os animais, o cão, bom companheiro; a burra, fêmea calada e trabalhadora, os porcos e as vacas. Galinhas à solta e o galo, ia já no sexto ou sétimo, para substituir o despertador, o réveil da França abandonada, sempre importante no terreiro impondo-se às galinhas de crista levantada. Gostava de se sentar na soleira da porta e ficar vendo, sem um movimento, o vaidosão do animal a arrastar a asa, a escolher a galinha e a galá-la com gosto.
Podia despedir-se com calma da vida. Tinha cumprido. Olhara-a sempre de frente, olhos nos olhos, e fora nos seus olhos que se cansara de existir, de lutar, de acreditar em impossíveis.
A burra zurrou batendo os cascos, precisava ferrada, lembrando que era tempo de entrarem para a ração. Olhou-a e deixou-se ficar. Conhecia-lhe os protestos, sabia que podia esperar. Ele já não. Tinha esperado e desesperado todos os sonhos, todos os possíveis, todas as magias. Agora, não queria mais fingir que acreditava que o seu Portugal fazia sentido. Agora, desejando que fosse chegada a última hora, olhava, uma vez mais, os olhos da vida para se despedir. Vida fêmea, pensava, manhosa e traiçoeira, nos teus olhos me canso. Demais…
Comments:
Não podia deixar de comentar.
Fiquei, sinceramente, sem palavras... Quem é essa pessoa que retrata o texto? Ou será essa pessoa o símbolo de uma nação?
Adorei. Não me canso de repetir, adorei!
Porque este blog já faz parte de mim ! =)
Um beijinho, Miguelito
Enviar um comentário
Fiquei, sinceramente, sem palavras... Quem é essa pessoa que retrata o texto? Ou será essa pessoa o símbolo de uma nação?
Adorei. Não me canso de repetir, adorei!
Porque este blog já faz parte de mim ! =)
Um beijinho, Miguelito
