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sexta-feira, junho 27, 2008

A velha parede já não tem vinha virgem. Agora, imitando o vulgar, está toda caiadinha, mal disfarçadas as cicatrizes de anos de vinha a cobri-la, parecendo triste aos olhos da minha memória roubada. Dantes, o velho muro estava todo coberto da vinha avermelhada, folha frágil e comprida, mudando de tons e sempre sugerindo um quadro impressionista. Quando eu era pequena, quando tinha como refúgio a janela do sótão, passava a uma distância considerável da vinha densa. Imaginava que lá viviam duendes, gnomos minúsculos que passeavam montados nos lombos gordos das lagartixas, e afastava-me procurando manter-me segura, porque nunca simpatizei com répteis, mas também porque não queria que a realidade destruísse o meu sonho de gnomos felizes. Os répteis mantiveram-se, aos gnomos perdi-lhes o rasto.
Então, naquelas noites que o Verão fazia compridas, com os adultos sentados nas cadeiras de lona copiadas de Biarritz (hélas!), eu ficava calada tentando perceber porque havia aquela hera diferente de ser chamada de vinha virgem. Imaginava que seria vinha por dar umas baguinhas pequenas, em cachos, que, embora não se comessem, lembravam uvas. Virgem? Creio que não terei nunca descoberto o porquê.
Hoje, quando já não há duendes e depois de terem arrancado a minha vinha diferente, penso que talvez fosse virgem por crescer sem mão de homem, livre, trepando pelos muros e cobrindo-os com luxúria até. Dantes, a vinha virgem era apenas mais um traço de cor nas minhas referências. Marcava o tempo com cores diferentes, escolhia roupagens de luxo e, no meio dela, o meu Pai encontrou um dia um pirilampo que nos mostrou. O pirilampo também devia ser virgem, tinha luz própria, não precisava da EDP para nada. Então, miúda, lembro-me de fechar as mãos em concha para ver o bichinho brilhar. Hoje, mesmo com as mãos abertas e o sol intenso, não vejo nada que brilhe… quando a vinha virgem cobria o muro velho, eu era pequena e existir fazia sentido. O amanhã era certo, havia quem tomasse conta da minha existência e só os meus sonhos e dúvidas eram responsabilidade minha. Nesses tempos, no Verão, punha-se a televisão na rua e ficava-se a ver qualquer coisa só para ocupar o tempo. A vinha virgem ficava a ver-nos, as lagartixas iam dormir e só as osgas, gordas e atarracadas, saíam para nos espreitar na parede de casa. Eu tinha medo delas (ainda tenho…) mas sempre ouvia a mesma observação: - as osgas não fazem mal! Comem os bichos!. Os bichos eram as melgas que davam picadas violentas! Nesse tempo, quando o velho muro ainda não se tinha armado em fino vestindo-se de cal amarela, voavam rentes os morcegos a que eu chamava ratos com asas. O meu Pai dizia para não fazermos barulho e contava que por causa deles tinham descoberto os radares. Eu achava que era brincadeira. Como podiam uns bichinhos tão feiosos inspirar alguma coisa?! Um dia, o Dr. Falcão apanhou um morcego na sala dele, meteu-o num frasco e chamou-nos para o vermos. Dizia que era muito macio, mas eu não lhe toquei.
Quando havia vinha virgem na parede comprida das minhas memórias, a minha existência fazia sentido, o amanhã era apenas o dia a seguir a hoje.
Agora, já não há vinha virgem na velha parede. Já não há certezas, já não há quem explique como é que os morcegos inspiraram os radares. Agora, a minha alma é um muro velho, esburacado, com marcas de muitas vinhas virgens que alguém foi arrancando com violência. Agora, o amanhã é um ponto de interrogação gigantesco que me faz contar acordada os minutos das noites de Verão. Agora, as cadeiras que imitavam as de Biarritz estão vazias. Agora, eu temo muito mais do que as lagartixas que transportavam os gnomos. Agora, bem mais feiosa do que os morcegos em voo rasante, é a realidade do meu quotidiano!
Porque é que arrancaram a vinha virgem deixando sulcos na minha existência?

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