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quinta-feira, outubro 09, 2008

Vivi a minha vida de consciência social já no período da liberdade e, por isso talvez, quando, recentemente, comecei a sentir receio, medo mesmo, de expressar as minhas opiniões, de sacudir para a comunidade que integro os meus sentires, achei estranha a sensação. Sou uma defensora da liberdade! Liberdade de sonhar, de escolher, de opinar, de cumprir e compreender. Sinto-me mal quando me dizem para ter cuidado com o digo, sinto-me sufocar quando me sugerem que me cale, ou que fale das estações do ano, que já não existem, ou que me conforme porque posso correr riscos. Vivemos no tempo dos medos. E o medo é mais assustador quando o poder (o tal que se escreve com as letras de podre) está nas mãos dos medíocres. Em mim, no meu silêncio imposto, ecoam cada vez com mais frequência as palavras de Sophia: - este é o tempo dos chacais… E refugio-me nos meus autores, nos poetas da essência de Portugal, partilhando o inconformismo de Torga, a revolta sonhadora de Manuel Alegre, a ironia descrente de Eça de Queirós. Leio-os e escuto-os. Sinto-os em mim, porque a minha revolta é a deles, e não consigo submeter-me ao medo e ficar calada. Eu tenho direito à indignação! A Constituição da República Portuguesa, não a das bananas, confere-me o direito à indignação. E eu estou indignada! Estou também revoltada, humilhada, magoada, desiludida, impressionada, mas esses estados de alma não são reconhecidos pela Constituição e, por causa do medo, eu calo-os. Mas não consigo calar a minha indignação!
Indigna-me o que está a ser feito aos professores. Não posso deixar de me indignar quando vejo os direitos mais fundamentais de um profissional serem ignorados. Indigno-me com o facto de, apesar de ter uma licenciatura, um estágio pedagógico, uma carreira com mais de vinte anos, ser tratada como incompetente ou, no mínimo, de competência duvidosa, necessitando ser tutelada, punida, classificada. Indigna-me que o governo do meu país não fale verdade, não tenha a coragem de dizer que está a classificar professores, vindo com a conversa enganadora de avaliação para melhoria de desempenhos. Indigna-me sentir que me roubam, mesmo roubo violento, o tempo de qualidade com os meus alunos, para fazerem de mim gato-sapato no cumprimento de normas e legislações aberrantes.
Como cidadã portuguesa, pago impostos. Imensos! E indigna-me que os meus impostos possam servir para facilitar a formação de indivíduos irresponsáveis, vadios e incompetentes. Indigna-me o estatuto do aluno, que trata quase da mesma forma um aluno doente, e um aluno vadio. Este socialismo oco de sentido está a esvaziar de valores e referências a sociedade actual. Agora, vale tudo. Os alunos não são responsabilizados pelos seus actos, não são ensinados a cumprir normas e regras, não crescem na observância de valores que considero essenciais numa sociedade humanizada. Aos jovens de hoje, contrariamente ao que acontece nos países desenvolvidos, não se pedem responsabilidades, oferecem-se facilidades. Indigna-me assistir à deformação de uma juventude que desejo que seja mais feliz do que eu.
O estado português, penso eu, não tem o direito, ou não devia ter, de esvaziar de sentido a existência humana. Eu tenho direito à indignação! Mas sei que ela me pode custar cara, que hoje para os professores só há deveres. E, ainda assim, não consigo calar-me sempre, sorrir e encolher os ombros, sufocar o desespero em que tenho vivido este início de ano lectivo. Agora, hoje, neste tempo de chacais, sinto-me infeliz e desajustada, revoltada e magoada. Eu tenho de ter direito a manifestar a minha indignação! Terei??

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