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sábado, novembro 22, 2008

Entra-me o frio nos ossos, o vento pelas frestas da alma e os sentires embaraçam-se. Fazem nós cegos, muito cegos mesmo, e não encontro a ponta para os desatar. Não sei se são nós de escuteiros, se de lojista, se de marinheiro. Sei que são nós cerrados, de ponta perdida, que me não deixam libertar o sonho de voltar a acreditar. Em quê? Nem eu sei. Sei que, hoje e agora, porque daqui a pouco posso ter mudado de ideias, me apetecia entrar livre num mundo de ficção onde os possíveis fizessem sentido, a ternura dissesse presente e o outro não fosse um estranho ou ameaça. Apetecia-me acreditar no Peter Pan e deixar uma fresta da janela aberta para que ele entrasse e me desafiasse a voos nocturnos e mágicos. Apetecia-me que ele trouxesse a fada Sininho da minha infância, me polvilhasse com pós de oiro e me desatasse os nós que, então, já não seriam cegos. Mas sei que os meus desejos vão ficar por isso mesmo, que a realidade se vai impor, que o vento vai continuar a zunir a minha pobre nogueira e os meus cães vão continuar metidos na casota sem ousarem pôr o nariz de fora. Tenho saudades do tempo em que acreditava no sonho. Do tempo em que, como diz Álvaro de Campos, eu era feliz e ninguém estava morto. Tenho saudades do tempo em que o tempo era feito de tempos com sentido. Tenho saudades do cheiro da minha avó, da cozinha desarrumada com os preparativos do Natal, da lareira a arder carregada de lenha, da chaminé a arder e dos bombeiros a chegarem para evitar o pior. Hoje, os meus nós cegos prenderam o poder de crer e deixaram soltas as pontas da nostalgia… Se o Peter Pan me visitasse, quereria voar com ele. Não para a Terra do Nunca, mas sim para a terra onde ficaram os meus tempos bons, ternos, com sentido e cumplicidade. Pedir-lhe-ia que me polvilhasse com generosidade porque está longe o meu território de felicidade perdida.
Mas, como o Peter Pan não vem, e como eu sei que os meus nós cegos são mesmo cegos, resolvo ignorá-los, procurar um bom livro, desligar a televisão e ficar no meu canto, sossegada, ouvindo o vento e a coruja que, cruel, insiste em piar assustadoramente sempre que eu entro na minha cozinha onde, por enquanto, está tudo arrumado e não cheia a azevias. Esqueço, ou tento esquecer os nós, a realidade que os faz cegos-cegos, e recuso voltar a pensar no meu país, nos escândalos sucessivos, nas políticas humanamente agressivas. Afasto para longe, lá para fora para o meio do vento, a realidade da educação e não permito que a solidão me incomode. Pelo contrário, dou-lhe espaço no sofá, deixo-a instalar-se abusiva e imensamente, e construo com ela a cumplicidade do meu quotidiano. Devagarinho sinto chegarem memórias. Tempos de menos solidão, de abraços fortes, promessas que achava verdades, garantias que julgava possíveis. Enxoto-as com força. Hoje, decidida e conscientemente, não vou dar folga aos sentires, aos pensares tampouco. Hoje, nesta noite comprida e ventosa, não vou deixar correr as ousadias impossíveis que dão sentido à solidão gorda que se estende no sofá. Hoje, quase o finalzinho de Novembro, preparando as coisas para levar vinte alunos à descoberta de Bruxelas e Bruges, não vou permitir que a tristeza cace as pontas dos nós que continuam cegos. Hoje, num exercício de consciência-consciente, vou reinventar a fé na existência e acreditar que sim. Que faz sentido existir e ser.

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