domingo, novembro 09, 2008
Há fumo cheiroso nas ruas, tapetes de folhas vermelhas, vento húmido nas faces que o frio faz rosadas. É Novembro, domingo de sol, de São Martinho talvez, e eu passeio com o Tango preso pela trela vermelha. Gosto do frio assim, real, intenso, feito de verdade mesmo. Gosto de pisar as folhas brilhantes, de deixar o Tango cheirar cada canto, regar as paredes que já começam a vestir-se de verde-musgo. Dentro de mim, soltos, os sentires vão-se desfiando, fazendo-se presentes. Lembro a manifestação dos professores, tantos!, e a desesperança face à mesma. Queria tanto, mas tanto, a mudança e, no fundo, sabia, num saber de muitos temores feito, que nada havia de mudar. Era tanta gente! E ecoam em mim as palavras das histórias onde também sou personagem, quando não é domingo, quando o quotidiano lectivo se cumpre, lembrando as humilhações, a estupidez crassa, a idiotice grelhada. Lembro a colega, do Norte, que garantia, em estupefacta indignação, que na sua escola as grelhas até querem medir a criatividade das planificações… Lembro o colega do Alentejo, do Alentejo mais profundo que o meu, do que cheira a mar ainda, garantindo que lhe exigem planos de aula com oito dias de antecedência, indiferentes ao facto de leccionar há mais de vinte anos. Lembro os lamentos que partilho, na revolta que faz doer e humilha, face à falta de tempo para se ser professor de facto. O Tango, indiferente ao turbilhão que me invade, segue tranquilo nas suas pesquisas. Pica-se num ouriço, sacode com força o nariz e gane escondendo-se atrás de mim. Como eu queria também ter onde me esconder quando, de forma mais violenta do que o Tango, me pico nos ouriços que enchem a minha rotina… O Tango tem mais sorte, não conhece o governo de Portugal, não tem de se confrontar com ministros de coisa nenhuma. O Tango é leal, amigo mesmo, não percebe que poder e podre se escrevem com as mesmas letras e desconhece o sábio provérbio português “se queres conhecer o vilão, mete-lhe a vara na mão”…Cheira muito a castanhas assadas, deve haver um magusto perto, e aproximo-me seguindo o faro do meu cão. Há uma fogueira no chão, um assador de barro, um grupo de pessoas à volta. Aproximo-me, aceito a jeropiga que me oferecem e sinto-me bem por poder pertencer a uma comunidade que não agride, não humilha. Sujo as mãos a descascar as castanhas, deixo o Tango descansar junto ao fogo, bem encostado às minhas pernas, e sinto correr a conversa boa. Sim, respondo com gosto, é de facto asquerosa a política educativa. E oiço outros lamentos, igualmente sinceros, de não professores mas portugueses também. Com o copinho de jeropiga na mão sinto as memórias agitarem-se rápidas. Vem a Feira da Golegã, o meu menino Bernardo, lindo, miúdo ainda, vestido a rigor, em cima do cavalo imponente. Chovia lá, quase sempre, e eu andava na lama, botas bem sujas, para poder vê-lo passar, cada ano mais seguro, alentejano a sério, moreno intenso, fazendo-me querer acreditar que a vida fazia sentido. Na Golegã vivi momentos estranhos. Intensos, sofridos, angustiados, alegres também. Ele, o meu menino preferido, fazia anos. E a família movia-se pela causa da ternura, para o ver, para o mimar. Então, eu não era feliz mas não era tão humilhadamente infeliz.
As castanhas estão boas e o Tango, quente demais, puxa a trela. Sim, são horas de continuarmos o passeio, de voltarmos a casa. Levanto-me e despeço-me do grupo já mais pequeno. Queria poder eternizar o momento. O momento em que umas castanhas, uma jeropiga e um grupo de conhecidos dão sentido à existência. Mas o tempo impõe-se, num instante vai ser noite. E amanhã é outro dia, vazio de sentido, recheado da estupidez titulada que domina muitas escolas…
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