terça-feira, dezembro 23, 2008
Que alívio ver chegar ao fim este maldito 2008! Alívio porque, assumindo a minha vulgaridade humana, experimento sempre, nesta época do ano, uma certa esperança de ver chegar ao fim as dores da realidade. Sinto o ano velho cansado, exausto, incapaz de continuar a carregar os males do mundo, e chego a acreditar que vai partir levando com ele o que tanto me incomoda. E há tanta coisa que me incomoda… Que dói fundo, faz mossa, deixa marca e molha o olhar. Este ano, especialmente, desejo que chegue ao fim. Por tudo! Porque foi um ano péssimo, cheio de vazios, de desilusões, de despedidas, de mágoas, de injustiças, de ataques desleais e de dores dilacerantes. Este ano, vivi o (até agora) pior ano profissional da minha vida. Vivi (vivo) dias de revolta, de dor intensa, de desilusão, de descrédito. Perdi, roubaram-me, o prazer de preparar as minhas aulas, de participar na vida da minha escola. Este ano, senti-me policiada, ultrajada e agredida. Olho este país onde nasci, um país que amei intensamente, e surpreendo-me com o que fizeram dele. Vejo o poder a trocar as letras, a fazer-se podre e mal-cheiroso, a mediocridade a liderar, e encolho-me no meu canto pedindo aos demónios que passem depressa e voem para longe… Por isso desejo que vão com o ano velho. Para sempre! Este ano, que felizmente está a chegar ao fim, fez-se também de despedidas em excesso e de muitas ausências. Fez-se de confrontos com a realidade, sacudindo para longe o sonho onde me acostumei a aninhar-me para carregar as baterias da alma.
Mas este ano vai acabar e, aqui no meu canto, ainda com o Natal por esgotar, já penso em 2009!. Quando era miúda gostava de escrever, às escondidas de toda a gente e muitas vezes sentada no parapeito da janela do quarto do sótão que então era meu, as minhas resoluções para o novo ano. Depois, dobrava-as e guardava-as num lugar inacessível de onde só as retirava no ano seguinte para, invariavelmente…, verificar que pouco ou nada tinha cumprido! Felizmente, naquela época os portugueses ainda não tinham sido atacados pelo vírus dos objectivos, nem sequer havia os computadores Magalhães, Sócrates era (felizmente!) o filósofo morto com cicuta, e eu não imaginava a percentagem de sucesso das minhas resoluções… Hoje, com a modernidade oca a fazer-se objectivos, indicadores de medida e medição de resultados, até duvido que muita gente se atreva a formular as resoluções de Ano Novo. Mas eu, que me estou absolutamente nas tintas para os ditos objectivos quantificados, insisto nas minhas resoluções. E escondo-as, e não as digo a ninguém! Tranco-as onde só eu sei e para o ano, se estiver viva, hei-de ir recuperá-las para fazer a minha avaliação de desempenho existencial: - Uma avaliação onde os sentidos e os sentires se cruzam, obrigatoriamente, numa tela humana de verdade. Hoje, penso já nos meus desejos para o Novo Ano. Desejo que o PS perca todas as eleições, desde as das associações dos infantários e grupos de copofonias até às do Parlamento Europeu; desejo que acabe a farsa dos professores titulares e da avaliação de desempenho docente nos moldes actuais; desejo que os ordenados dos portugueses nos permitam comer os 31dias do mês e não, apenas, os cinco primeiros; desejo que os homens reaprendam o hábito de oferecer flores, estarem por perto e dizerem amo-te com frequência diária; desejo que as mulheres recuperem a fé na cumplicidade dos seus companheiros e cultivem a paixão e o amor; desejo que as crianças possam ir à escola como pessoas, e não como indicadores de sucesso ou estatísticas de aprendizagens; desejo que os doentes deixem de ser utentes e recuperem o estatuto de pessoas; desejo que os Amigos tenham tempo para fazer serões de conversa, partilhas e gargalhadas; desejo que a TAP baixe os preços dos bilhetes de avião para poder levar os meus alunos à descoberta da vida real; desejo que quem me lê me entenda e não me julgue com excessiva leviandade; desejo que as minhas aulas de dança continuem e que a Escola Silvina Candeias seja o maior sucesso do país; desejo não viver luto em 2009!! Desejo que os meus desejos não tenham hierarquia e aconteçam todos na mesma primeira prioridade! E desejo ainda que os meus desejos comecem já hoje a fazer-se reais!!! Que chatice! Este 2008 nunca mais termina!!!
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